quinta-feira, 26 de junho de 2014

dança

a dança que molha meu corpo
vem de longe

e nem tem nome de dança isso que planta
movemento


.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

sem título

não havia mais nada lá
não havia


mas onde se esconde
uma flor
          esta?


.

sábado, 21 de junho de 2014

karma

o corpo quase
             nunca
preparado pra tanto
                 pra tantra
                       kalma

a burka ainda
colada à boca
         a burka
muda


.

quíron

visito a casa de meu pai
como quíron

e sua flecha envenenada
atravessada na garganta


.

milkshakespeare

os pés em ponta
à beira da janela

asas engessadas

duas xícaras
        paralíticas

amealçam
                voo


.

dirigível

um dirigível
sobrevoa o espaço vazio da minha imaginação

do lado
de fora
da aeronave
a tripulação de pequenos et's ceteras
acenam com bandeiras azuis teu nome


.

psicodrama

milharal de palmas
abafado por vendaval de vaias

depois do fim
                o teatro
                       continua...


.


pele

eu queria ser a pele
                   a finíssima pele que recobre o teu teto
qual é a cor do teu teto?

eu queria ser a pele finíssima que recobre a cor
do teu teto tela plana vítrea tatuada de imagem
tua
no meio da noite
                  escura noite tua
                  de olhos secos e cegos
                  corpo imóvel
                  máquina de respiração
                  umbigo silencioso coberto pra não acordar
                  o travesseiro ressonando do lado direito
                  grade de cílios abertas
                                         olhando
                                         sem ver
pele
finíssima alga úmida à projeção de teus sonhos

queria ser tua pele
                     e descolando
                     desabar sobre teu corpo apenas
                                  sobre teus pelos
                                  sobre teus olhos encharcados
                                  dos meus
                                        sonhos cobertos
                                                    pelos teus
                                                             sonhos
qual é a cor dos teus sonhos?

queria ser sonho teu
                        tua

qual
cor a tua?


.

Roxy Music - More Than This

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Duke Ellington - Chloe

semeador


semeou nenúfares no de-dentro
porque desnecessário regar
e se foi pra nuncamais
voltar

.

safari

estômago = sapo
coração = touro/búfalo
fígado = pelicano
rim = lagarto
intestino = serpente
garganta = espiga de milho
cérebro = coelho
pulmão = baleia
língua = larva de boboletra

corpo j'aula


.


quarta-feira, 18 de junho de 2014

copa



.

ditado ado holandês

nunca confie numa pessoa que não tem um cão
especialmente nunca se relacione - converse, trabalhe, chore, namore, case, se meta, meta - com uma pessoa que não tem um cão
uma pessoa que não tem um cão está sempre de passagem pelos
espaços são sempre intervalares
entre o aqui ao
infinito
uma pessoa que não tem
um cão não cabe numa casinha de cachorro
não serve
à blusinha de lã
uma pessoa que não tem um cão não deixa de ir porque seu cão vai ficar
sem ração
abanando o rabo
                                   no meio da solidão

definitivamente uma pessoa que não tem um cão não
merece consideração

ela nunca vai ficar em troca de um pedaço
de afeto

uma pessoa que não tem cão só fica no mundo

faça o mundo n'ela
                      fica

uma pessoa que não tem um cão é um gato.



.

crônica

esgarça teu poema até
                             f i n i n h o
se ver
do outro lado
gaze
papel de seda
jornal molhado
ainda
sangue de corneiro
ervas de cheiro incensando a mesa plena
mastiga
olhando
sempre pra fora

desaprende a matéria dura
umedece de enzima
digere o tempo
          o lugar do encaixe
solta
dá mais linha do que a pipa perdida nas nuvens
e garoa-te
não chova
não
chuva

o crônico
          de crônico
                       nem se vê


desaprendida
                       porosa descronalógica

o quê?


.

insônia

na janela, a lua
globo ocular, portal
circular, tela plana na imagem plena
a vida que foi sem intervalo comercial
a
língua seca de insônia conta carneiros
cordeirinhos de deus
esfolados estripados
pendurados ao ipê
amarelo des
espero
um

dois três quatro cinco seis sete oito nove dez onze doze treze catorze quinze dezesseis dezessete dezoito dezenove vinte e um vinte e dois vinte e três vinte e quatro e cinco vinte e seis vinte e sete vinte e oito vinte e nove trinta e um e dois e três e quatro e cinco e seis e sete e oito e nove carneiros vomitando víceras só

alma e olhos
agarrados ao sacrifício do corpo


.

domingo, 15 de junho de 2014

anu albino

pássaros me namoram na janela
enquanto penteio cabelos
molhada de banho
                              teço a trança
                              três serpentes
                              rebeldes e frizz
                              nas pontas bífidas
vestida de corpo a
penas ombros nus de asas
e vento
estendo-me colcha de coxas larga
alpiste
dourado sobre geografismo europ
eu soberana
cristas e olhos afoitos disputando território sobre aerocorpo
planos de voo
bordados no mapa de pele
                                  picotada de bicos
saudação d'agulhas negras
retalhando diminutas flores
                                 papoulas roxas
                                 roxos poros jardins
                                 danação
                                                de Ave!

o anu enlutado no branco
pássaro albino abatinado
sem pluma topete e cocar
chupando seu dedo anular
'engolindo contas de rosá
                               rio
num aquário
cheio de sede
ora por asas
           inúteis


.

sábado, 14 de junho de 2014

merda

então que isso não é autobiografia. pelo menos não deveria ser porque se tudo aqui é, o que tem cara de não é que poderia e até deveria ser ficção. desmentido tamanho que as coisas têm se sentadas na cadeira do cinema, do teatro ou do analista. não sei. acho até que nunca soube mesmo dos limites das coisas. não só das coisas mas dos lugares. fiz de todos eles deslimites o lugar abrindo fendas e buracos nas paredes pra respirar de uns escuros que me grudaram na memória coisa besta que todo mundo já ficou preso em lugares assim de portas abertas. eu mesma uma vez fiquei presa de um banheiro desses antigos de fundo de quintal feios e fedidos de fossa demais pra caberem em ficção e me lembro que tudo li era escuro e se me lembro do escuro era porque feito de madeira e entre as ripas desvãos que deixavam a luz entrar como se como se o que? seilá do que estou falando ops escrevendo porque não era disso que eu deveria falar mas de uma coisa real uma sensação vinda de um episódio presente. tudo começa nessa minha gana ganosa de em diante de agora limpar toda a merda. e essa merda de ideia tava aqui na minha cabeça antes mesmo de eu chegar à casa porque to revirando tudo desde lá pelos cabos de telefone. mas aí cheguei e parece que trouxe comigo o problema ou se o problema parece quis se materializar pra mim assim de modo tão explícito porque enquanto escrevo eles estão lá. os homens estão lá em cima dessas batidas duras de marreta picareta sobre o chão procurando o vazamento. meu pai preocupado porque nunca que lembrava do esgoto porque ninguém nem ele nem mãe nem a irmã ou eu mesma lembramos que existe um esgoto passando por debaixo da casa. clar que a gente sabe mas saber é esquecer também. saber é esquecer mais do que lembrar. então que o cano do esgoto ou o cano da merda estourou e vazou. mas isso não é simples assim porque se o cheiro se percebe se a água suja se vê desembocar na foz de terra do jardim não se sabe de onde vem no debaixo da terra o ponto da infiltração do encanamento. e todos aqui desesperados com o cheiro e minha mãe resolveu dormir porque o que há de se fazer afinal? minha irmã foi ver filme japonês porque o japão é logo ali e tão bonito e olhos vidrados e meu pai lá todo nervoso se sentindo cagado pelas pernas logo ele que não lembra onde os canos se encontram em T. e eu que merda mais posso fazer a não ser escrever afinal? porque o cheiro não me incomoda que to acostumada tanto nos de-dentro usando perfume de vez em quando só pra disfarçar e pra não incomodar os desincomodados. então às vezes vou lá e brinco com o barata e o paraná a gente ri e falo que nunca mais vou cagar mas a verdade é que me dá uma sensação estranha ver toda a extensão do lá de fora cavada fundo e a terra a terra úmida retirada dos buracos já são muitos um caminho de buracos e o cano ali exibindo a força do tigre todo impecável intestino resistente à fermentação caralho então eu penso que limpar a merda é um troço duro mesmo porque a gente tem de quebrar é tudo. tem de quebrar tudo pra consertar. tem de quebrar tudo até encontrar a porra do lugar exato onde a merda começou a vazar. mas que droga! lugar exato nesses deslimites do caralho! porra e é claro que eu sei que isso daria uma belezura de texto literário poema sanitário enredo terceira pessoa cagão mas me falta papel higiênico pra escrever ficção então eu prefiro assim torcer pra não ter de quebrar o chão dentro da casa porque eu queria mesmo é que o problema ficasse lá fora porque lá fora é sempre o melhor lugar para meus esgotamentos embora o lá fora esteja tão enraizado nesse meus aqui dentro. todos os lugares estão no mesmo lugar: na cara do outro que nos olha tão distante mesmo quando colado na gente... mas eu queria a ilusão de não ter de dar de cara com ele aqui debaixo dos meus pés, dos pés da cama, dos pés da família, dos meus roídos rodapés...

#quemerdapontocom




das coisas que me eram cotidianas e...

coisas que me eram cotidianas hoje só 
vejo nas páginas do livro / da internet:

louva-deus, vaquinha, vagalume, tatu
zinho, joaninha, fila de formiga, rã, pi
olho, bicho-de-pé, pé, centopéia, pe
drinhas, lápis de cor, melãozinho-de
-são-joão, maçã amassada, trevo de 
três folhas, biotônico, vãos, quebra-
queixo quebra-cabeça quebra-nozes
e você.


.

história sem mais

guardava dentro dos olhos unguentos aquosos que pingava e curava o de-dentro dos meus...


.

desvario

apaixonou-se por uma mula
e perdeu a cabeça


.

o pai

era moça mansa. ordeira e dedicada ao lar. todos estranharam na mesa o desejo de tatuagem. estranharam mais ainda o eu-vou decidido nos olhos primeira vez de fogo. mas porque sem ver ninguém acreditou. debaixo das roupas muitas, uma de cada lado, duas esporas fundas vestiam de tinta rastro vermelho cravado nas ancas.


.

isso

o que me diz
assim tão morangoso
me faz salivar
entre-pernas


.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

pássaros

pássaros atrevidos e a-
traídos por rastro de alpiste
perseguindo uma pista
                           de gelo
                               seco


.

creuza quitheria

creuza quitheria é creuza de mãe e quitheria de pai. de mãe da mãe e de mãe do pai que foi mesmo pra não dar briga. mesmo assim deu que nome é coisa séria por demais. e esse mais ainda que demasiado sério pra uma menina de tanta artimanha linguistica. então que foi kiki até os dez e foram dez de birras de elefante verde limão na escola. puxou da avó mas nem se sabe qual porque kiki já é mistura das duas e nenhuma ao mesmo tempo. mas depois cresceu e ficou moça bonita por demais amorenada nas coxas e cabelos escovados cascateando nos ombros. ombros dançantes de lindeza kitty porque hello no exterior fazendo curso de inglês e tal e aí tal é a coisa. dançou, cantou, cozinhou fez de pouco o tudo até amou o pão que o diabo amassou, mas voltou sofisticada, samambaia longa na denso da floresta. mulher rainha. estudada na bagagem e amadurecida que fruta boa não é temporã. a fruta só é no tempo da fruta que sabe o saber e de saber tanto se tornou professora. ensinou português no japão e na china, índia e nalemanha até. um dia cansou: tava arrancando o sapato e o salto lembrou de casa. da mãe, do pai, das avós que nem conheceu só de nome. o nome... então kitty lembrou de uma creuza quitheria que era ela. e foi a saudade de um chamado assim com te-agá que a trouxe de volta. gritaram todos no aeroporto e o coração não disse hello disse foi 'ai minha nossinhora que saudades!' e kitty desapareceu de vez. agora ela toda assumida na professorice dando aula de brasilidades. na rua todo mundo grita diz que conhece toda genealogia e a parentada de trás pra frente. uns dizem que creuza era a mãe da mãe e outros que quitheria mãe do pai era. e ela corrige a silábica 'é com te-agá faz favor'. anda tão disputada essa dona professora que todo mundo pensa em botar creuza quitheria pra vereadora.


.

sábado

filosofia
de quinta
dentro da cesta

sábado é dia de poesia


.

sábado

chama a manicura
pra arrancar no alicate essa palavra
encravada no dedo
debaixo da cutícula
depois uma demão
de esmalte na carne

por dentro é tudo vermelho mesmo


.

beijo

desejo
de dar um nó na tua língua
e enforcar todas palavras
que não me disse
                      no silêncio


.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

desamarelo

ela é uma terceira pessoa que não queria mais amar. elo difícil demais de desatar. então a menina pessoa terceira não queria mais amar porque sabia dentro dele - do amor - uma espreita de inevitável desamarelo. conhecido dela por isso o medo, mas não do desamar esse de desamada porque desamado todo mundo acaba sendo ou tendo sido, era o tenebroso desamor desabrochando no de-dentro que temia porque isso já era uma vez. demais da conta de doído o desamor quando toma a gente não deixa nada. desamada ainda sobra o tanto de amor na gente que pouco ou muito se transforma em carinho amizade raiva ou ódio e antes de pronto tudo isso junto em mistura desigual. ruim mesmo é quando se desama. aí não há o que faça o fundo lustroso da gente sem nada, vaziez que uma vez vista no chocante saber que se encher é pra esvaziar de novo na nova vez. e aí não há que fazer.

porque se o amor do outro a gente não controla mas quer, imagina o desejo de controlar o que parece coisa da gente. ilusão que amor não tá na força do humano. transcendança giralouquessente. ou no dizer do veredeiro d'ave palavra: amar é a gente se querer se abraçar com pássaro q'avoa. ou isso.

então que amor pra ele é pássaro e não tá colado na gente, mas pousado. não se faz na morada dentro, mas no fora que se namora. e bem porque não se ensina pássaro a ficar a não ser gaiola. domesticado nenhum é. avepalavra não é coisa de letra só o sentido sem sentido interpretado na sentença. mas se amor é todo ave! nem tod'ave é amor. que se ensina palavra picada a papagaio que repete o eu-te-amo a custa de nunca mais seu avoar. o te amo empoleirado um tempo até que é bom mas no depois se cansa do sentar. impulso verticalizando corpo montanhoso. todo de novo e avante noutra direção. às vezes só no seu em si.

mas sei não porque será que o amor se pega na mão? assim com todas as asas e penas e bico torto pra concertar? depois de desamado o amor, pra mim, ele virou é vento. não que nunca tenha sido talvez sempre que seja o amor o vento que traz o pássaro. o vento que o pássaro traz. assim essa impossibilidade de gaiola porque voo sempre a despeito de asa. brisa vento e vendaval bravo ventania vento e brisa fria depois nada. nada não é nada é só outra coisa que ficou no lugar de onde o vento dissipou. vaziez às vezes que vazio é a possibilidade de cheio. e isso é bom não fosse o conhecimento do movimento no copo. no corpo. então que não cabe a mim. não cabe em mim. nem em ninguém. nem a alguém.

sei não. mas se esse vento soprasse de novo eu queria que vento ou ave ele pousasse em você. de novo. delicada brisa ou vendaval pleno de tempestade. mais uma vez em você dentro do nada que ele deixou. plenitude de um eu em amarelo.

mas que bobagem toda é essa? amor não é pássaro nem vento. amor é coisa que nem amor nem nenhuma metalinguagem é capaz de explicar. amor fica pra depois. no quando em que não se puder evitar.

ou levitar.


.

a menina que abandonava livros

sim, alguns eram roubados. mas não todos. uns ganhados, outrocados. comprou alguns, embora livros não possam ser possuídos, nem quando a gente brinca que é dono. eram na verdade todos, sem exceção, emprestados. porque vindos da biblioteca maior. a menina sabia disso e se abandonava numa leitura boa e despreocupada dos dias. do livro dos dias...

mas essa história não é só da menina, é da menina e do menino-dos-olhos tristes e aguados de insônia. a madrugada alerta e seca. mas mais ainda a história é dos livros que eles se leem: livros infinitos que no mais nunca terminam e às vezes não, mas às vezes sim, que precisam terminar. terminar antes do fim se é que estou sabendo escrever uma história que ainda é no apesar do peso chumbo de papel.

e ele não ainda mas ela sim sabia que um livro não merece gaveta nem estante. que deitado ou ereto, fechado o livro adoece. e essa historia nem é ainda dela e dele, mas dele e dela com eles separados porque ele lendo outra história e agora ela nenhuma ou uma que é leitura de esticar na vida. mas ele ali com seu livro só na cabeceira marcador de página empoeirado e redondo de boca de copo em descanso na capa. e a menina que sabe porque um dia também ela soube depois de insaber que essa coisa de leitura a gente tá sempre escolhendo se continua ou se não. porque a leitura ou se abandona ou abandona. 

e se parece estranho por causo de amor e tal, nenhuma leitura é igual. se o livro desapeteceu de um o outro nele se agarra e mais tarde que cedo os olhos colados e de joelhos depois deitados no rodapé. sim que eu bem sei que é porque a menina é leitora assídua de doer. mas ele ainda não sabe que nunca teve de saber e mastiga palavra goma e gruda no capítulo que nunca sai e se avança retorna logo pegajando pelo rabo o fio da meada que lhe escapou. mas ela no seu canto não sabe dele decantando lá e se soubesse não adiantaria o dizer 'larga esse livro' que esse livro não é seu e nem é obrigativo que livro é sempre delícia de se lamber, desempresta ora! devolve que é maldieza claustrofóbica mantê-lo acorrentado assim se.

mas como saber se depois de desencalhada a nau dos olhos a viagem recomeça margeada da infiniteza do horizonte translúcido véu cascateando im possível? fácil: não se sabe. nunca se sabe se. palavrinha ordinária que aprendeu a algozia das correntes em condicional. é tudo risco. e rabisco. faz assim vai no lendo até a página 54 que 54 é 27 mais 27 e se no 27 primeiro as coisas estão mal arranjadas ainda tem tempo igual pra tentar ordenar. então mais 27 e chegou 54 ponto em que se abandonou só pra ver o que acontece e aconteceu porque o tempo do passado também mora nos livros. o infinito deles é no pra frente e no pra trás que só no aqui ele para. 

então marca remarca bem e para: se faz feliz continua, se faz indiferença, abandona... porque abandonar também é ato de amor e de respeito ao outro. ao outro livro. ao livro outro. que é sempre outro sendo ele o mesmo só esquecido disso o leitor e o livro no querer ser um, porque isso também é história contada mal da carochinha. o bom leitor que nem por isso é ou deve ser leitor bom interpreta no ar a labareda do fogo queimando lençol d'água no debaixo da terra: não é nada honroso manter fechado um livro quando já não se perde nem quer se perder na leitura...

então abandona porque todo livro tem o direito de ser abandonado. 

todo livro tem o direito de ser deixado ali no balanço do parque, no caixa do banco. o livro esquecido no banheiro público. um livro esperando ônibus no ponto. na mesa do bar. todo livro tem o direito de ser livre. de ser encontrado assim por acaso no metrô. num encontro suave, imprevisível, pulsante, olhos colados na surpresa um do outro. livro livre louco pra se perder. ou encontrar. ou se encontrar. que a vida dos livros é toda feita de encontros.

todo livro tem direito 
a uma nova história. 

a menina sabia. 
o menino viria 
             a saber.


.





quarta-feira, 11 de junho de 2014

Andrew Bird - The Happy Birthday Song (TED Talks 2010)

livro

o frio me anoitece
cubro-me c'uma pá de cal
e espero novo amanhecer

porque tudo se encova
no correr dos tempos
corpo coveiro aprende
o ofício

menos o sábio

quando exumaram o corpo do sábio
tudo já era o nada só
a cabeça guardada dentro do crânio
ainda cheia de miolhos
                        castanhos
                        negros
                        verdes
                        azuis

intactos
e
curiosos


.

segue

segue cego a vida que arde de tão bonita...
segue cego a vida que arde
segue cego a vida
segue cego
segue
se

sigo.



.

sapos

então deu de comer sapos. o primeiro, difícil de engolir: gordo demais, rugoso demais, verde demais e feio. mas foi aprendendo o sabor. sabor de sapo, que até ia bem com catchup & mostarda, shoyu & raiz forte, molho madeira ou inglês. depois já nem sentia mais o peculioso que a língua é encerada na manteiga. por fim, freguesa. 

todos na repartição estranhavam a iguaria morta na marmita. ela não, acostumara-se. e ainda economizava no vale-refeição, que trocava com seu zé da farmácia.


.

semente

das frutas apetecia a semente
sonhava pitangueira retorcida
crescendo-lhe dentro

então trabalhava nos cabelos
um projeto labareda
que marcasse quem nem gado
a mão marmanja que tocasse
nos lábios, o gosto de ferida
partida temperando os beijos


.

aquele

chegava com cheiro de mulher tatuado no corpo
rescendendo lavanda e um grude doce de puta

ela mandava já pro banho pra ver se dava jeito
limpo: deitava na cama, subia no corpo dela e
metia fundo

ela não sentia mais nada.


.

fato

eram as palavras não-ditas se juntando umas às outras agarradas em desditosas sentenças num trançado firme de corda enroscada à garganta e o nó difícil nó trêmulo de dedos sufocado noutro nó ainda mais esse de desespero... sim, foi isso que o enforcou.


.

morte

a morte se veste de branco
pra acompanhar os festejos
do nascimento já marcado
pra morrer

que gato nenhum tem sete
vidas, tem sete mortes
e uns intervalos vivos
pra doer


.

cego


como cão às voltas com seu próprio rabo
o homem
perdeu a cabeça e nunca mais encontrou
seu corpo
      delito


.

morada

dentro da menina
moravam duas meninas-dos-olhos
tristes
elas m'espiavam
por uma fresta no espelho


.

àporo

porque o corpo é todo trabalhado de orifí
cios, impossível vigiar

tapo boca e ouvidos, vagina, ânos e nariz
mas fazer o que se um exército de diabos
bem pequeninos e vermelhos invade-me
pelos
poros


.

artesã

ela enfia a mão assustada
a boca
ela não, que mão é calma
enfia ainda mais e puxa 
o fio infinito de lã cinza

novelo que se avoluma
à garganta

e tricota cachecóis para o inverno


.

recado à porta

desculpa se não abro a porta
a quem me bate
ando ocupada carpindo uns de-dentro

tarde se faz o tempo
do plantio: chuvas benfazejas ame-a
                                                  çam
                                                      cair



.

das coisas

éramos nós
ali sobre o aparador
moldura que para conter sorrisos

depois, só quadro


.

epitáfio no ar

eu toda cinza
aos pés da pitangueira
adubando futuro de lá
bios vermelhos


.

tatuagens

levava a sombra de um gato
tatuado no braço
e as linhas definidas do cão
colado ao tornozelo


.

ciência

para contar o que contam as lágrimas, preciso
medir na linha, pesar na balança,
olhar na lupa, preservar in vitro
e inventar um denominador
comum


.

grito

tomada de dor e lápis
a menina agacha
uivando fundo à lua
um dois três
desaba nuvem
quarto crescente
e o grito pari
o pai


.

milharal

branco amar
elo manteiga

na garganta espigosa
palavras
pipocam


.

puro deleite

a criança corada
mama gordo nas tetas cheias da mãe
sugando histórias
              deleite


.

batismo

a mãe batizou-a
Nada
em terra nunca foi
até que pulou
              na água

.

jogada

deito a cabeça sobre as costas duras
do baralho
que dorme esticado sobre a cama

não preciso ver os naipes
adivinho que esse jogo
é de perder


.

cor

nem cinza nem verde
a minha saudade nem é turqueza
nem anil

a minha saudade é cor
                                 ajosa


.

domingo, 8 de junho de 2014

Otis Redding-Sitting on the dock of the bay

cova

mergulha na palma da minha mão
e cava nela
um destino


.

dureza

dureza de vida
essa do corpo
que amortece
o golpe


.

ensinamento

para matar: soco, tiro, paulada, palavra
não importa:
escolhe o lugar onde dói menos
                                         na gente


.

Remédios

era mulher de muitas dores. nunca sarou. desde o batismo.


.

equilíbrio

sobe pelas tranças do meu corpo
e entra

a vagina
tenho-a
no
maisalto


.

alguma coisa

sempre acontece


alguma coisa


.

frida

à noite
todos se vãos

fecho o guarda-roupa
palavras e sentenças
pendurada no cabide
entre-dentes um grito
re-talhado na gaveta

na cama,
me calo


.

limiar

mãos encharcadas de sangue
seguro a corda que do umbigo me ata
ao umbigo
do mundo


.

frio

é frio
abro a janela para o sol
translúcido entrar

ideas me cobrem


.

g ávida

a Terra se arredondava
ao seu carinho

agora mãe
gestando o mioma


.

a velha

importa que todos os dentes lhe caíram
se a gengiva secular tão
afiada no morder?


.

lugar

o amor está no fim
d'um sopro


.

bufólico

balançando à sombra de uma árvore frondosa
pergunto-me quantas voltas
essa tua língua ainda
há de dar
ao meu
pesc
osso
antes
do
fim?


.



noite clara

uma insônia molhada
de peixe

m'observa
observá-la


.

dentição

era um javali
com dentes de criança
                       javali


.

acertos

quisera eu ter comigo essa conversa
em menina:


.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

base

ramos & rendas
pelo
pele
feno lã
algodão & flores
corrente
mornura
de velas
algemas
mudez
suada
bunda
colada
coxas
aéreas
leve o corpo
pira colchão
de água

meu estrado
é laico


.

na

morada dos pássaros
não há
portas


.

G'spot

gengibre toda subterrânea
ardência picante na língua
mel
medicinal &
gostosa


.

o

se houvesse ainda tempo
para o amor
adiaríamos até o último
                         moment
                                  o


.

cachimbo

penduro-me nos teus lábios
desafio o veneno de dentes

exploro teu silêncio molhado
de vermelho

desesperado é o trajeto
rumo ao pico 
da montanha


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entre dentes

toco macio
teu poema
meus dedos de chuva
e haveria seca dureza
                     na boca da noite
                     mesmo que dia?
quando?
calcinha de algodão
                  sobre a ferida
                  nada
estanca o que é vermelho
fenda
no asfalto pubiano gastura
de estrelas ca
                dentes
mordida funda pracura paz
de cachimbos
quando? todos os quandos
são amar
   elos
azuis cosmoagônicos
                           adiam
a morte do gozo


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lâmia

santiago caruso

e se prometi despir-me é porque por debaixo da pele outra pele guarda debaixo dela aquela que ainda outra e outra e outra e nunca eu mesma nua despida da casca dura e se jurei não comer teus filhos é porque teus filhos não são teus que não pertencidos antes meus mãe de todas as criaturas dona da vida tua então esforça-te para ver o que sem esforço algum eu vejo a fé engolida pela loucura ruminoso desejo de asas pousado em escamas frio arrepio de dedos sobre lembrança ainda vermelha no amanhã e se prometo descanso é porque te sei cansado também eu te sei rendido à boca também eu concedo que de mim conheças a única nudez possível sem pele e sem freio dos dentes


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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Ike and Tina Turner-I Can't Believe What You Say-1964

janela 3

um cigarro queima soprando a fumaça espiralada que gira gira gira no centro da sala beijando móveis colados às paredes, toca suave o bailado da girafa no piano e se espicha na tentativa dissipada de invadir a janela 4


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celulares

celulares não deixam cheiro nos dedos
celulares não causam câncer
[pelo menos não no pulmão]

celulares matam
sem deixar vestígios


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janela 6

um filtro dos sonhos balança pesado apesar de não ter vento. ao lado do computador um pote de nutella e uma colher esquecida do regime divide espaço com a ponta de um baseado


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janela 4

duas mulheres nuas pintadas de confetes desaparecem desabando na altura do umbigo, uma garrafa de jack daniel’s sobrevive na mesinha perto do sofá com um girassol todo bobo e plastificado fincado no gargalo


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gozar

&
engolir

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flores

vania zouravliov

me vejo flores
em você

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terça-feira, 3 de junho de 2014

The Lumineers - Morning Song (Fuel/Friends Session)

sashimim

ele espeta o hashi
e besunta com wasabi
a ferida de carne ainda fresca

emaranhado em surrealismos de rabanete & cenoura
no centro da mesa meu coração vermelhoverde
                                                               arde


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segunda-feira, 2 de junho de 2014

outonais

há tempos não lhes regam chuva
abandonadas nos canteiros outonais
pupilas queimam


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agulha

dizem que ela morreu
com uma agulha de tricô fincada no peito

mas por que uma agulha de tricô?


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chuva

a chuva corre ligeirinho
sobre as calhas

elas sabem exatamente
onde querem ir


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táxi

eu queria entrar num táxi
e dizer: vamos porque meus pés estão cansados

para onde?

ora, que pergunta besta!
para o lugar onde descansam os pés cansados


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combate

onde
no de-dentro de mim
primeiro

cessa o combate?


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toc

dizem que o destino bate à porta
três vezes
toc
toc


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poço

cavei primeiro
à unhas depois a dentes, um poço
nos confins do útero

poço fundo extravasando lágrimas
nascente no peito

óvulos natimortos boiam
em conserva de água salgada


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chuva

chuva torrencial
que sobre meu corpo
luz


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domingo, 1 de junho de 2014

veio

sementes peregrinas
no vento de um veio

no canteiro calcinado dos meus olhos
brotam duas pupilas
                 exóticas


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revisão

porque a gente
nunca aprende
conjugar razoavelmente
o verbo to be


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campanha: abandone um cachorrinho

era uma vez um cachorro desses de estimação chamado bilu ou pitoco ou totó não sei o nome mas sei que ele tinha nome e acho até que sobrenome. devia de ser III ou IV na ordem do reinado. ele era um desses cães bem alimentados. era um desses cães que usam roupas. um desses cães com coleira. desses cães como gente. cães que tem dono. era uma vez um cão... 
agora era essa coisa toda estranha toda peluda às vezes escova, no verão bem rente. essa coisa sem lugar ou com lugar definido e certo pra fazer cocô. com hora pra comer e hora pra engordar. castrado e limpo. um cãozinho porque todos ficam inhos quando são amadinhos. e bem-aventurados os filhos dos homens. protegidos mimados coisa e tal... tal coisa.
nunca ou se por pouco tempo ele nem sabe ou lembra porque desde sempre parece adotado por uma criança com família, certidão festa e biscoito de soja. depois já de casa e agora viaja junto no final de semana. cadeirinha, cinto e vento na estrada. comercial de margarina e liberdade. ração porque a gastrite a pressão o colesterol e exames de rotina. o dia no spa comemora os cinco anos. o bolo de carne fura a dieta. parada no posto pro xixi e músculos esticados. passeio no colo vestido de lã. quase carneiro. quase humano. quase cão. quase nada... uma gota de dó pinga dos olhos caídos. duas de piedade, nas orelhas caídas. não é basset mas todos caídos são. 
uma noite comichão de uivo. inspiração de lobo. rascunho borrado lá na paisagem daltônica do sonho. mas se nem a lembrança de cão. nem esperança. só uma história. só uma lenda esquecida de cão idioma perdido entre um au e outro.
quem foi que disse? quem foi que inventou que sina de cão é ser gente? quem foi que roubou o cão dele? quem foi que fez campanha pra tirar do bicho seu animal? e a rua? o rabo em riste? lata revirada? espada nas garras? saliva pingando corrosiva do dente afiado? quem foi que roubou do cão a sua mordida? a liberdade da fome? o cio inchado? o vento de verdade e o pelo hippie? quem tirou dele o abandono? todos os caninos? a chuva e o frio? a solidão e a força? o sol esticado e a primavera? a oportunidade de ir e de voltar?
ah quem foi que inventou campanha pra fazer do cão gente? domesticado e obediente? deficiente?dependente? endividado? agradecido? barriga cheia? será?
não sei... deve de ser quem fez campanha pra fazer cachorro da gente ... é... pode ser... já nem me lembro disso também... tal coisa... coisa e tal.


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