quarta-feira, 28 de maio de 2014

black tie

lá em cima do piano...

é o mesmo piano
é o mesmo veneno
é a mesma tecla

                           ... que toca
                           meus dedos


.

suspeito

suspeito
daquele pardal pousado
no mais alto do mais alto verde
da mais alta árvore azul

passeriforme pardal-doméstico
empoleirado no cinza vulgar
das suas chaminés humanas

aquele pardal é deus
ele nos olha de cima

ele vê tudo

mas também não pode fazer
nada


.

terça-feira, 27 de maio de 2014

bucólica

paralítica
toda janela
que não se abre
à possibilidade de um

                       suicídio


.

Loli Phabay - Satra [HQ sound]

das coisas que não disse


ou só as abelhas ou
viram

.

vermelho

comi quase todo o esmalte
de tanta fome
de você


.

sopro

insuspeita
sobretudo
abro meu casaco de pele
o espelho fecha cúmplice
seus olhos

grossa cicatriz de ponta a
ponta entalhada no tronco
descosturadura demorada
na cintura

grossos os fios e a agulha
lã nevosa sobre os trilhos
túnel de carnes rochosas
faz se trilha entre cânions
vermelho

branca colina abismada
alicerce parede calcária
no fundo a gruta engole
o golem
sagrado

cúmplice o espelho não vê
braços agarrados a braços
de barro agarrado aos pés
do pescoço e peito e boca
eu toda envolta

em argila de mim própria
criação é o teu nome: ae-
maeth soprado
na minha testa
 'guarda dentro tua volta



.


sem título

o banho esfria dentro da xícara
enquanto ratos roem o esmalte
                              vermelho 
dos meus dedos 
dos pés

alerta

sonhos e suores noturnos
me encontram com falta
de uivo


.

domingo, 25 de maio de 2014

cumplicidade

do que falam as flores
quando um vento, um vaso, um evento
as-aproxima?

falam as flores de antigos voos?
falam as flores de um tempo
em que suas raízes
cresciam
pra cima?


.
[nota:
eu queria colocar essas interrogações pra cima, mas não sei como fazer isso]

hálito

mais do que as palavras
é o hálito
que se desprende delas
na fricção do teu poema
na minha língua


.

sabedoria do pé

ser descalço
dentro do sapato


.

sábado, 24 de maio de 2014

de brincadeira

o amor é um brinquedo
que a gente ganha que
brado

justamente pra ficar brin
cando o tempo todo de [se]
ajustar


.

vidrados

[natalie shau]


ele abre a gaiola 
leva meus olhos de vidro pra passear

paga sorvete
lê histórias antigas
fala do céu do mel da areia e do mar
vermelho

depois aperta a coleira na irís
desenha um osso, um poço
e pede pr'eu não me perder


.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

destino

tatuei fogo no meu corpo todo

meu destino é arder


.

cicatriz

uma fenda, um vão, um abismo, um buraco
no tempo da carne
corte afiando desenho a bico de pena hiato
feito o mar vermelho entre um lado e outro
das costas

tinta cor de nota zero ficcionando verdade
pus eu líquida de mim mesma invertendo-
me perdendo-me nas pétalas do girassol

pele brotando dedos tentativas de entre-
laçamento em abraço caloroso e delicado
pele agarrando pele acolhendo apertando
protegendo ferida acesa vela tremeluzindo
sangue 
tornado à casca no passo lento da cicatriz

um buraco, um abismo, um vão, uma fenda
na carne do tempo
suave costura retalhos no tabuleiro xadrez
eu de novo inteira nas duas partes ponte
de costas

foi o meu corpo que me ensinou o amor


.

sem título

ela também queima nos teus dedos
antes de morrer?


.

aquarela

uma pintura de gauguin
assinada por van gogh

quanto vale?


.

lamparina

quero comer tua mão 
e um punhado de poesia frita 
no azeite


.
     

lua

viajante
abaixa sua lança
minha lua não tem dragão
lua líquida laguna na palma da mão

nada
nada em círculos
nada na superfície
nada pro fundo
nada


a minha sereia
espera

no canto


.

"Canção à Lua", da ópera "Rusalka" - Dvorák

van gogh

atravessa portões flancos encosta
campo de trigo vigiado por urubus
planície tempestuosa judeia semita
caos tibetano treze labaredas azuis
e queima

marcha descalço o deserto de pele
come uma a uma as unhas da mão
fortalece corpo afia os teus dentes
finca o dedo desprovido de garras
e rasga

dessa tela as minhas costas ao meio
flor torturada paisagem apunhalada
lambe as pontas dos dedos penetra
e toca

não o rosto roto os perfis pérfidos
de van gogh o suicida açougueiro
floresta serenada de doze estrelas
circuncidando o enigma de chapéu

toca no mais fundo
vermelha é a flor de tinta vermelha
convulsionada enraizada perpétua
no peito o blues amarelo girassol
que van gogh não pode suportar:

seu coração

pulsando no meu


.




quarta-feira, 21 de maio de 2014

cadência

toca a flauta
noite alta o céu
da minha boca
festeja

tua estreia
cadente e doce
de fogos


.

o dia d

talvez um dia
a gente possa se encontrar

talvez um dia
depois da guerra fria
           da grande guelra
           da grevermelha
           da garoalta
           da garotarada
           da gatança
           da gota d'água
           da garrafina

talvez no dia d
a gente possa se encontrar
quando tudo que começa
com g
acabar


.

concentração

especialização mestrado doutorado
em literatura
não ajuda ninguém a ler a própria sentença


.

loira

pintou os cabelos de vermelho
e mergulhou no inferno
astral


.

terça-feira, 20 de maio de 2014

silêncio

[zhu yi yong]


.

escuro

o escuro fica maior
quando dois vagalumes se apaixonam


.

conto

era uma voz
há muito tempo atrás


.

distorção

canecalon
boneca loira
vestido voal de glitter

presa dentro da bolha

na banheira de espuma
boiam distorções do feminino
corpo pequeno inflado nas partes
cílios postiços cortinando lentes lilases
lábios besuntados no vermelho chama acesa
em garras decoradas nas delicadas geometrias
sombras e ruges e colares sobre a pele de porcelana
fria

a água escorre sem manchar a tela
pintura decorativa arte rupestre no buraco fora do tempo

na unha lascada do dedinho do pé
guardada como relíquia dourada:
a fantasia impossível
de uma sexualidade


.

desesconderijo

qual é o espaço que me cabe
sob a tua palavra?

o limiar entre estrado e chão?

vês que sou gorda e grande
boteriana toda anca e carne
extrapolo botão e braguilha
sou king size reinando abso-
luta na cama
não caibo 
na xícara de chá
no bolso surrado do jeans
na carteira de couro gasto
escondida 
camuflada
mascarada
apertada
entre as folhas finas do teu caderninho de anotação 

sou grande demais pra caber no de menos
no muito menos
não

.

domingo, 18 de maio de 2014

sábado, 17 de maio de 2014

cigana

cega a cigana m'enlaça
e emenda uma a uma as longas linhas da direita
depois a esquerda: treze voltas coloridas ponto
saliva no buraco da agulha: demanda demorosa
na costura do mapa
em palma aberta mar
bordado com todas as flores e os sete cheiros
do mundo

nó cego segue a cigana cega: sete
um sobre o outro feito feitiço
equilibristas amarrados pelos pés
e as mãos atadas
suadas
coladas na oração

siamesmas e ensimesmadas
minhas mãos
           suas são


.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

depois das 10

minha vida acorda tarde
descabelada 
e de pijama

diz que está cansada de mim
e volta a dormir


.

bobagem

dou um passo e já estou
do lado de lá
                          é aqui


.

✿ღ♥ ✿PAPUSZA BRONISŁAWA WAJS ✿ღ♥ ✿

estrelas

já ouviu um boi
mugindo numa noite de estrelas?

eu já:
parece saudades


.

casamento

me visto de neve
e aceito:
                o sol

tatuagem

tatuei na pele finíssima do ar
geruza
descalabro vivo d'uma ferida
assombreada
no azul


.

tempo

encontre-me na estação das chuvas
é no mau tempo que dou a conhecer
o meu melhor


.

evangelho

no evangelho
segundo a serpente:

'arrasta a barriga demorosa
no chão
tua asa
em carne viva'


.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

livro

o meu livro
é cinema de autor
encadernação branca & frisos dourados

edição limitada
costurada com grossas linhas vermelhas

o meu livro não tem fim
vive aberto nos meios e não usa marca-
dor de página


.

assassinatura

meu nome
azul ajoelhado aos pés da página
pede perdão

não foi bem isso que eu quis dizer
acima


.

fim de tarde

levo pés pra pisar areia
pretexto pra catar ondas: uma, duas, dez...
lavo e enrolo uma a uma num macinho
depois enfio no bolso do jeans e volto
pra fumar em casa

.

sonhos



.

tortura

os cravos vermelhos me brotam ao revés
os cravos m'escravizam

.

terça-feira, 13 de maio de 2014

harmônicos

os bicos do meu seio
ovulam


.

Parov Stelar - Clap Your Hands (official)

do que me seduz

mulher voyeur
mas detalhista

uso lupa
      nas mãos


.

Down in Mexico by The Coasters

deduza

sim, cobras escondidas mas não
nos cabelos

insufilmada película anti-refletora
tudo se guarda no buraco aberto
da fechadura

à ponta dos dedos pequenas lupas
agigantando
[segredos]


.



língua

salamandras atadas aos tornozelos
bruxa
dizem

.

lábia

planto abelhas nos canteiros
da boca

zumbidos de melancolíngua


.

dedos

os dedos descansam das pedras
folheiam a neve do livro outonal

viro a página

lambo indicador colado ao papel
tem gosto de pedra
e dedo


.


 

celebração

no caminho estendido da tarde
levo olhos pra passear no chão
eles latem

mas meus dedos catam pedras
e silêncio


.

insufilme

movimento
aprisionado no vitral

sobre ele a luz
                    dança


.

sábado, 10 de maio de 2014

re-trato 2

queria posar pros teus dedos me escreverem na água em azul cordillac pingando três voltas ventadas nos arredores do pescoço canteiro cachalote de crochê tricotado no ego schiele cacharréu você ah desajustado papel polifônico estereoglota demais de azuizado siso ausente crepom desembainhando endereço com cep de futuro na porta da frente. entre. ah seliga e faça assento decolo no sofá cansado cena de novela protagônicos eu ela ele você dentro do nós cegos visionários em nuvem de fumaça verde sempre verde ferrolhos de asa aberta boca de cigarrilha formigosa de inverno já nela fechada. eslavo as mãos e os pés vermelhos de poeira e ciganices afoitas nos paralelos parapeitos desabitadas as palavras de cerberos. tridentes coloridos alfinetes fincados na pedra e - claro - se me entende sabe o braile aquecido no fogão sabe o corrimão nervoso serpente de cabelos bicicleta aleijada roda no infortúnel da máquina do tempo singer cantando enviesado caminho de centro pra mesa trigosa de pão felino fumegatos erva mata e a morte ajuda a viver. vem me ver. vermevem. agora com pérola em ruído de escombros de ostras ruinosas de assaltos altos de camurça carapuça safado vício de toc corda quebrada de baixo flying v fenda e buraco brumoso asfalto ausência noturna licorosa nos teus pesadelos diários de bordo batom pelos cantos cigana pulseira pulsando três dados moedas e cartas baralho barulho de amor. não me falte. beija-flor esquecido no fogão colibri coberto no colo de pernas pro ar cadafalso de signos germinosos e oblíquos divinais. todas as palavras são só palavras. todas as palavras são iguais. me escreve com teus dedos desavisados azuis de não contar dinheiro. me escreve diluída formal in formol em retrato amarelo de pão. eu posso. eu poso. eu pouso. à francesa. 


.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

olho

de quem é
esse meu olho
que me cont
                 e
                  m


.

re-trato

eu quero posar pra você
me escrever

                      na água


.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

London Grammar - Maybe - Animation: A Shadow of Blue

viés

emaranhado de galhos
e espinhos
cortinando o céu azul

olhos
girassolares

.

"ela estava febril em seus braços..."

havia mel
nos dedos que escreviam
beijos
ao redor daqueles lábios
depois
pescoço, pernas, seios e
língua
doçura sorvida desmedi-
das palavras
impossíveis:

lesão incicatrizável + visão comprometida + amputação do pé direito + insuficiência renal +
lá se vai o pé esquerdo + 2 ataques cardíacos seguidos de + 1 derrame
cerebral

em cama
em coma
a diabética racionaliza
inocências e alencares


.

terça-feira, 6 de maio de 2014

lanterna

para
de me vasculhar por dentro
apaga
essa tua maldita lanterna
tateia
meu túnel escuro de musgo
intimidade, eco & lama

me chama

            quando se perder


.

sábado, 3 de maio de 2014

"Memory Lane" by Mark Ryden

cacos noturnos

cacos comprimidos d'uma xícara
esquecida no aparador
me espiam
noite e dia
drummond & dormonid
emudecendo lábios ins
ones





.

inclinação

ouço apitos d'um trem
sobre os trilhos d'água

ouço os gritos da água

uma ponte
pênsil
abisma-se

caos refletido no cais

a ponte pensa
suspensa
acorda
cai


.

o pintor

ele a pintava:
delicado traço negro sobre a tela fria
manhã suspensa na brancura nevada
asas oleadas d'um pouso estratégico
sombras amarradas
pés e pescoço tatuados com pérolas

ele a pintava:
delicada fruta pendurada a primavera
galho, copo de leite, pétala embebida
vinho ventando degradee gota-a-gota
moça naufragada
madeira sem lei cortando a natureza

morta





.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

base

tem dias que me sinto
uma xícara

pousada
no pires

à espera

duas
    asas
        adiadas


.