terça-feira, 29 de abril de 2014

me deixa

então fazemos assim: me deixa quebrar tuas paredes todas elas aí tão brancas e hospitalares... me deixa libertar essa tua loucura e curar-te da normalidade asséptica de dedos enluvados... me deixa te mostrar que a primeira parede é palha, é quimera, é dente-de-leão, não, não é nada não, é leve e cai de sopro, cai de costas, dá cambalhota e ri de dentuça essa tua parede, a primeira, aquela que só é porque uma vez a pequenez, a solidão, o riso e o insuportável... sim porque o insuportável pede parede pra sustentar braços... me deixa, me deixa soprar tua parede e então tombar de branco... me deixa depois te mostrar que a segunda parede é filha da primeira, é dor conjugada, espinho de ouriço camuflado em pata de tiranossauro rex, fogo de dragão, dente-de-sabre, monstro do lago nes, inexistências, misticismos enciclopédicos, parede vazada, máscara tragicômica, filha amputada do silêncio, rasgo de uma promessa de lua que minguou, abraço não dado que se deu então à essa tal parede primeira em respeito ao vermelho rubro dos tijolos, à dureza do cimento, à maquiagem branca da pele, então me deixa arrancar esse teu bicho-de-pé parede outra encher teu raso de vinagre e sal pra nunca mais inflamar esse vão... me deixa depois te mostrar que tua parede três, a terceira, a trindade profana fincada na terra é sem alicerce, cancrosa de furos, porosa toda ela essa outra, fruta madourada de sol, carcomida de verme, podrura das formas, gosma venenosa, estrutura esfacelada de romã sem vitral, de jaca desprotegida de jaca, vísceras expostas sem casca, me deixa abocanhar em três mordidas essa tua parede erguida com o ranço de um catarro amargo e cuspir de uma vez à lama essa alma suja de parede nada... porque depois me deixa mostrar que essa tua quarta parede nem parede é, é mais porta, pano de palco, passagem, era pra ser janela mas não porque janela é fim é sempre salto no nada, não, essa tua parede é túnel do tempo, é viagem de primeira classe, mas se não sabe continua parede espessa na composição poética, estrofe final, chave de ouro enquadrando teu pensamento, me deixa então chutar essa imagem, rasgar esse véu de unha e mostrar o lado do lá... me deixa mostrar que dos lados é céu porque telhado não tem, nunca teve, só não se atrevem os dedos a apontarem em riste aquele, então me deixa mostrar que nuvens te circundam e flutuam azuis ao teu redor no bailado dos dias, molhando o que nunca foi canteiro seco, promessa vazia, descuido da razão, simpatia de sete dias... me deixa destruir esse teu castelo ratimbum e te mostrar o infinito que cabe num passo e depois no outro... me deixa e não me deixa.

.

Nenhum comentário:

Postar um comentário