quarta-feira, 30 de abril de 2014

garça

unhas 
plantadas 
aos pés dos dedos 
choram coceiras que não têm 

unhas
exiladas
catam letras 
palavra por palavra
roçando a pele do computador 

difícil a vida errante das unhas 
elas sofrem

e entregam-se
sem resistência 
à fome devoradora dos dentes


.

paisagem II

delicada é a garça que pousa 
no lago negro da noite

arranhando as costas 
douradas dos sonhos


.

paisagem

não tem garça

o rio
sem você


.

terça-feira, 29 de abril de 2014

sulamita cruz


Maneiras de uso de um escafandro quando nua
[Sulamita Cruz]

.

me deixa

então fazemos assim: me deixa quebrar tuas paredes todas elas aí tão brancas e hospitalares... me deixa libertar essa tua loucura e curar-te da normalidade asséptica de dedos enluvados... me deixa te mostrar que a primeira parede é palha, é quimera, é dente-de-leão, não, não é nada não, é leve e cai de sopro, cai de costas, dá cambalhota e ri de dentuça essa tua parede, a primeira, aquela que só é porque uma vez a pequenez, a solidão, o riso e o insuportável... sim porque o insuportável pede parede pra sustentar braços... me deixa, me deixa soprar tua parede e então tombar de branco... me deixa depois te mostrar que a segunda parede é filha da primeira, é dor conjugada, espinho de ouriço camuflado em pata de tiranossauro rex, fogo de dragão, dente-de-sabre, monstro do lago nes, inexistências, misticismos enciclopédicos, parede vazada, máscara tragicômica, filha amputada do silêncio, rasgo de uma promessa de lua que minguou, abraço não dado que se deu então à essa tal parede primeira em respeito ao vermelho rubro dos tijolos, à dureza do cimento, à maquiagem branca da pele, então me deixa arrancar esse teu bicho-de-pé parede outra encher teu raso de vinagre e sal pra nunca mais inflamar esse vão... me deixa depois te mostrar que tua parede três, a terceira, a trindade profana fincada na terra é sem alicerce, cancrosa de furos, porosa toda ela essa outra, fruta madourada de sol, carcomida de verme, podrura das formas, gosma venenosa, estrutura esfacelada de romã sem vitral, de jaca desprotegida de jaca, vísceras expostas sem casca, me deixa abocanhar em três mordidas essa tua parede erguida com o ranço de um catarro amargo e cuspir de uma vez à lama essa alma suja de parede nada... porque depois me deixa mostrar que essa tua quarta parede nem parede é, é mais porta, pano de palco, passagem, era pra ser janela mas não porque janela é fim é sempre salto no nada, não, essa tua parede é túnel do tempo, é viagem de primeira classe, mas se não sabe continua parede espessa na composição poética, estrofe final, chave de ouro enquadrando teu pensamento, me deixa então chutar essa imagem, rasgar esse véu de unha e mostrar o lado do lá... me deixa mostrar que dos lados é céu porque telhado não tem, nunca teve, só não se atrevem os dedos a apontarem em riste aquele, então me deixa mostrar que nuvens te circundam e flutuam azuis ao teu redor no bailado dos dias, molhando o que nunca foi canteiro seco, promessa vazia, descuido da razão, simpatia de sete dias... me deixa destruir esse teu castelo ratimbum e te mostrar o infinito que cabe num passo e depois no outro... me deixa e não me deixa.

.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

karma humano

ter braços
e não poder abraçá-Lo


.

serpente

é preciso ser
uma vida, talvez
duas ou três horas
pra saber: mostrar a língua
é fácil quando se é uma serpente

difícil é
abraçar



.

sábado, 26 de abril de 2014

elas

"minhas unhas têm fome"

ela disse
eu sorri
ela sorriu
eu disse

"suas unhas são grandes"


.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

meu quimono vermelho inventado

é agridoce o cheiro que me incenseia os dedos
amarelo
solaridade articulada depositada nos poços cem
milhões de poros depositados nas minhas mãos
colho açafrão na exata floração d'ouro vermelho
e então o vento empurrando o ritmo dos braços
e os espinhos rasgando primeiro a pele e depois
o sangue
cortado ao meio meu sangue sangra sobre a flor
pistilos escarlates
espinhos penetrando as plantas dos pés na pisa
madura do pó
pigmento de colorido rubro faísca pro fogaréu
guirlandas de cártamo cabeça de faraó açafrão-
bastardo que estranho amor é esse que machuca
e não sopra a dor
mergulha kusumba flores secas na água do chá
afundo as mãos me enxícara o cheiro vaporosa
tintura que me veste o Qorpo
quimono vermelho inventado
com frisos de ouro
que não valem nada


.

acumuladores

por mais que veja ozu
por mais que leia osho
que me entupa de filosofias orientais
pinte a cara de gueixa
decore-me minimalista
com retorcidos bonsais

ainda assim esses espaços de dentro
tão
tão
acidentais

bitucas de cigarro no chão
garrafas vazias nos cantos
roupas espalhadas na mesa
catchup esquecido na cama
quadro trincado na parede
panelas furadas no fogão

chaves perdidas no portão
cortinas gastas na janela
espelho embaçado na pia
gaveta rasgada de meias
ralos entupidos de papéis
e traças roendo o colchão

na hora da verdade pipoca
karate kid cocacola paixão
me entupo de mim mesma:

geruza

acumuladora compulsiva
do meu passado
           ocidental


.


para hilda [21/04/1930]


não importa para onde teus olhos se vão
a fumaça dos teus dedos
não importa teus dedos
a rigidez da tua pele, a seda dos cabelos
a umidade dos teus vãos já não importa
os vãos
o corpo
o porco
o pau
   oco

importa a fonte, o vale e a altura

à porta
o que perdura


.

bonsai

tem dias que me sinto
um bonsai

dois metros amputados
e um coração arrastado
rente ao chão

não qu'eu almejasse alcançar nuvens
só não quero de ter os meus sonhos
constantemente podados


.

detalhes

eu nunca vou te poupar
dos meus detalhes
              cabeludos


.

arte desnecessária

organizo uma semana
de arte
[sobre o meu corpo]
moderna

de linhas surrealistas abertas à visitação
cubos cúbicos públicos em expressionismos de ponta
instalações de dedos nonsenses nas extremidades d'um
palco bem no meio do umbigo teatro de arena livre
melodrama de máscaras nô manifestos pendurados nos bicos
pixo de piadas, idiossincrasias & outras antropofagias
genitais

desorganizo meu corpo
pr'uma semana de arte moderna
[já tão antiga]
bilheteria aberta & entrada franca
excursão de crianças do nono ano
divulgação boca na boca
mais nada

sobram-me os joelhos ralados e aftas
por debaixo dos lençóis e das línguas
uma coceira sem fim e uma cistite intersticial
diga-se de passagem: dificílima de diagnosticar


.


domingo, 20 de abril de 2014

veneno

eu engoli uma rosa
delicadas pétalas que me aqueceram a garganta
antes dos espinhos

eu engoli um pássaro
delicadas as asas que me libertaram a garganta
antes das penas
               e gaiolas

eu engoli um nome
delicada senha secreta que me abriu a garganta
antes das chaves
               
eu engoli uma canção
delicada melodia que dizia que o amor é um jogo
de perder
    depois

porque every rose has it's thor


.

veleidade

há um caminho:
tira os sapatos e segue tua mão esquerda


.



bobagem

abro
obra

rabo
roba

raro
boba

babo
oba?

.

dedos


mordo teus dedos

saboreando
letra a letra
o gosto do teu devir
                     unhas

ontem mudo
meu modo cotidiano
de morder

teu gosto me é outro


.




soberania vermelha

a dor
é elegantemente
estética


.

vermelho hidromel II

beijos vermelhos
m'escorrem
colados às pernas

um coração
aos pedaços
precipita-se
                ao chão

.

vermelho hidromel

meu coração
menstrua
        seus amores
abortados

.

intrusa

Noiva judia, Rembrandt
detalhe


.

sábado, 19 de abril de 2014

ór

escrevi teu nome
com o alfabeto das árvores

ouro refletindo
na pele das águas
o sentido suave dos ventos

.

altamira

nos surprenderam
um dia
fazendo amor nas cavernas
de altamira

dois grandes bisões
presos
paleolíticos
debatendo contra às paredes
frias

superposições de boca-a-boca
na boca da gruta grito-a-grito
guerra ganha cabeça-a-cabeça

dois grandes bisões vermelhos
quentes

há 13 mil de anos
morrendo de amor
e ainda úmidos de desejo


.

ergs de ouro

Gustav Klimt




.

sensibilidades

e se eu pergunto o que te faz palpitar
tremer, emocionar
e responde:
o meu trabalho / minha promoção
o meu deus / meu hino no coração
o meu filho / o sonho do meu filho
o meu casamento / minha casa / meu gato
a vitória do meu partido / do meu sindicat's

e não diz: a vida
as cerdas de escova roçando a gengiva
o verso licoroso de uma canção popular
o dia desde cedo ou então a lua de ontem
bolo de chocolate com calda de chocolate
um e-mail / obrigada / bom-dia / um beijo
a morte materializando o tempo / um ovo
as listras de uma abelha / asas invisíveis
do beija-flor / um banho/ um bom banho
de mar
       de chuva
                  de chuveiro
                                 de língua

ah que decepção você seria

[geruza, por favor
não me decepcione mais]

e vá à merda
com suas sensibilidades institucionalizadas


.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

stray

http://www.youtube.com/watch?v=ZqS2mC4WGi4&hd=1

momento

contemplo
a eternidade no movimento
                          da vida


.

espelho

não
sou
mais
do q'uma palavra

desespero

errante nos cantos
calados do mundo

desespero

à mingua

sugando água suja
saliva da sua língua

desespero

mete seus braços me abraça por trás
desespero

apert'os peitos invade válvula vagina
desespero

monta no tronco latino raiz dissoluto
desespero

sufoca o túnel labiríntico da garganta
desespero

esfaqueia a respiração beija na boca

meu
desespero
teu

.

mentira

o espelho me conta uma mentira
aprumo o tronco
             estufo o peito
sorrio enganada

e saio feliz
pra trabalhar


.

café da manhã

depois de uma noite escura
mais um dia começa no café
da manhã
ritual diário de reconstrução
do eu dissolvido em sonhos

então junto os cacos de uma instalação capenga
e frágil
um nome: amanda ou geruza, eduarda ou maria,
clico três fotos de perfil - clássica, descontraída
e/ou misteriosa
camisa gravata saia plissada de filosofias orientais
sobretudo adulta
              eficiente
              curtida
              exemplo 
              em edição de bolso

um último gole e o borrão de café prevendo o dia
de ontem atrás da porta

quem me vê assim: revestida toda montada na cola
tenaz
não sabe a matéria informe de arestas pontiagudas
completamente afundada na xícara de porcelanazul
que não acaba até o dia acabar

nome atrás do nome
sobrenome trincado:
desespero


.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

cuidado, por favor

se soubesse do que sou feita
tomaria mais cuidado
beberia menos
e ascenderia as luzes
pra não tropeçar em mim

no meio da noite

se soubesse que já estou
quase desfeita
beberia cuidado e
cuspiria palavras
com mercurocromo nas pontas



.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

aereo plano

pássaros 
de bico calado 

pássaros colados 

bicos 

terreno voo


.

ocular

eu me lembro / mesmo / porque podia ver tudo
enquanto ele arrancava à unhas minha miopia

uma gota de suor

desprendeu-se da sua testa plana e aterrissou
com precisão cirúrgica no centro da minha íris

desde lá meus olhos andam tão cansados e
suam
suam
suam
suam

litros de suor me salgam

mas as pessoas acreditam ainda que sofro

e choro


.



terça-feira, 15 de abril de 2014

ombros

dois ombros pesavam sobre mim
dois ombros
e as alças daquelas sacolas vazias
dois ombros
e as alças do sutiã cheio de peito
aberto meus ombros
                 também

dois ombros pesavam sobre mim
mas eu não sentia:
os cabelos bailavam sobre eles
e às vezes
com a força do vento
                               voavam


.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

cor-de-pele

calcinhas cor-de-pele
calcinhas cor
             das peles
calcinhas de cor
                  as peles

o amor
natural como o vento
e bruto
como a superfície lisa
das pedras


.

erupção

a erupção de uma boca
assim no meio do hoje
da sua barriga
uma boca
vulcão
irrompe a minha / manhã
cem mil pétalas de rosas
vermelho agora o asfalto
dessa pele traço a passo
lava lavo a nuvem vapor
rosa entre dedos o anel
dois sóis saturnos negros
num raio muito próximo
de quatrocentos milhões
de poros cuspindo gotas
e as cinzas coloridas fa /
íscas de fogo seus olhos
pingando doce / no meu
vulcão
uma boca
na minha barriga
assim no meio do hoje
a erupção de um vulcão

amantes ((refugiadas))
na falha
tectônica d'um sorriso

.

domingo, 13 de abril de 2014

objectualidades


claustrofóbico é o quarto
escuro dentro do claro
enigma de roupas suicidas
abandonadas à geometria
de cacos sobre o chão
não diz nada o criado-
mudo essa cama-muda
espelho-mudo a planta-
muda o tapete-
mudo a gaveta-
muda a janela-
muda o lençol-
mudo a porta-
muda o lustre-
mudo o bilhete-
mudo o criado-mudo
mudo o criado-mudo
mudo o criado-mudo
mundo-mudo criatura-
muda

muda a luz precipita
a mudez das coisas


o telefone fora-do-gancho
grita
seu desesperado silêncio


.




quinta-feira, 10 de abril de 2014

amoral

gosto
do modo como
a onda lambe meus calcanhares
sem pedir
permissão
sem perguntar
se sim ou não a
onda mete seus dentes na jugular
dos meus tornozelos e s'espuma
depois se afasta
mas me leva tam
bém volta e arremessa seu peso
no meu corpo coberto de onda

a moral da onda não tem nome
a moral da onda nasce no mar
e é a mesma do tubarão


.

once



.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

domingo, 6 de abril de 2014

inumana

estendo-me
corpo sobre à mesa
de dissecação


canibalismo avesso a lençóis
abro-me: sou guarda-chuva
amparando garoa garota g.
fina e grossa e grossa e fina
saliva na ponta do estilingue
bilíngue


bonecacriança: trocatroca
braço perna perna abraço
uma cabeça lançada longe
olhos pintados de azul
nada de branco apenas
nudez de plástico duro
duro enrolado em digitais
meladas de bala
chita
na agulha

anatomia moderna os
sos fragmentados de-
formados ao grau 0
macaca caca prazer

o corpo acéfalo falo
entalado até o talo
na garganta escarro
catarro & pétala &
porra me enchendo
o jarro

o corpo sem gente é
a medida da minha fá
bula inumana
sem sombra
sem dúvida
sem crente rente sente

o cão me olha: com-
paixão e fome: lato
por dentro da lata
oca d'eco metálico
risco de ferrugem
nos vapores duch
ampi
anos-luz no escuro
dilaceramento vital
da incons-ciência
inexat

entendo-me corpo
deslocado à beira
da maca
da cama
da lou
da cura
da minha
da tua
petite mort im-
possível


.

o corpo impossível

são corpos que meus dedos encenam
margeando o caos
de um palco vazio

a metade de uma lua se impõe ao dia
sem nuvens
a metade de uma lua enterrando a lua
pela metade

a geografia íntima indisfarçável ao vento
o ragnarök pessoal / genocídio de todas
as flores / sujas / de terra / as unhas cav
ou / cão / guarda-roupas rasgado / mad
eira de lei / beiras / que ainda sangram

dedos à procura:
                          do corpo impossível

eros alegórico
desfile de traças arquivadas no tempo
corruíras corruptas corrompendo valas
escuras à exceção do estado de vaga-
lúmens extirpados às folhas de outro
outono
reciclado em rolos oriundos de restos,
de pedaços e de fibras reaproveitadas
para compor o baixo custo do papel-
                                         jornal


.




sexta-feira, 4 de abril de 2014

último capítulo

seis meses depois:

tudo estava como
a seis meses antes

.

paralelas

trilhos elétricos trilham linhas sobre a linha
azul

próxima estação:
liberdade

acesso pelo lado:
                 
[acesso negado]


.

I saved the rest for you

THE QUIET WORLD
Jeffrey McDaniel

In an effort to get people to look
into each other’s eyes more,
and also to appease the mutes,
the government has decided
to allot each person exactly one hundred
and sixty-seven words, per day.

When the phone rings, I put it to my ear
without saying hello. In the restaurant
I point at chicken noodle soup.
I am adjusting well to the new way.

Late at night, I call my long distance lover,
proudly say I only used fifty-nine today.
I saved the rest for you.

When she doesn’t respond,
I know she’s used up all her words,
so I slowly whisper I love you
thirty-two and a third times.
After that, we just sit on the line
and listen to each other breathe.


.

silêncio

queria escrever um poema
antes de bater
                          o sinal

tenho palavras guardadas
entre os vãos dos dentes
tenho uma pasta com rima
semântica
e um título grande
na mochila

queria escrever um poema
mas me falta


silêncio

quarta-feira, 2 de abril de 2014

não

mastigo

a língua
            seca
a boca

entristecida

me é impossível
sem a tua saliva
engolir o
não comprimido
no silêncio vazio
do nosso adeus

fina lâmina entre lábios capsulares


.

terça-feira, 1 de abril de 2014

tempo

caminho sob nuvens de chumbo
previsões temporais me sustam
e assustam
do guarda-chuva só restam hastes
do corpo, só as marcas indeléveis
de granizos

.

merda

o álcool me bebe de um gole
                                  só
e trôpego sai
                       pelas
                                ruas

fazendo merda
com meu nome


.