quarta-feira, 5 de março de 2014

mulher fecundada por semente

era uma vez eu num dia assim como hoje ou ontem ou amanhã quem sabe talvez em que me amanheci assim também desregrada de todas as cores, inclusive o vermelho que é pai de todas as regras. amanheci meiomãejá dourada consciência girassol latejando na ideia iluminando e expandindo o corpo dividido agora entre mim e o devir que me veio poesia. 

e daí que então na noite clara de ontem, hoje ou amanhã quem sabe talvez eu nua toda lua em prateado abismar de redondo o ventre toda cheia germinando semente. e me alisando saliências seios fartos sopro brisa da memória campo coberto de flores cercadas de dentes-de-leão e eu então deitada entre verdes e amarelos e azuis crepusculares e as pernas abertas ao encargo do tempo soberano se alimentando lambendo infinito de fome minhas vestes da alma. 

e não foi que eu sei o girassol embora ele eu também o quisesse nem a belladona nem o lírio ou o jasmim nem o meimendro-negro ou a papoula mas sim sim o dente-de-leão, ele sim o amor-de-homem, que se abduziu no mais recôndito escuro de mim. uma constelação chovendo e eu explodindo num vácuo líquido estelar. síncope reanimada pelo ruído de um mim mesma transcendendo o túnel tortuoso do ventre à garganta. depois pés em corrida dançante calcinha de algodão molhada de mel e o peito tambor descompassado de esperança esperança esperança... 

e agora eu toda meses quatro estações abdômen em cheia lunar perfumosa nas partes leveza aromática de todos os poros comungando de heras e abelhas moldando colmeias à espera de hoje, ou ontem ou amanhã quem sabe talvez em que me deite e deito um grito seguido de dor seguida de alívio seguido de riso: um buquê um lindo buquê prematuro oitocentas gramas verdinhas trezentos dentes-de-leão deslizando entre as pernas arranjados em celofane embailado em lindo laço colorido. 

e então que o recebo nos braços e choro eu porque buquês não sabem chorar e cumpro a minha sina de mãe mamando o filho a minha sina de mulher fecundada por semente e cumpro a promessa ao vento soprando lastimosa todas essas inflorescências brancas e amarelas brilhantes disseminando no vento redemoinho sibilino de sílabas sons sentidos de ais e 

ai se uma dessas cai aí nas suas pernas abertas ou abertos ouvidos e tímpanos abertos olhos e íris abertos dedos e unhas porque ninguém ninguém mesmo sabe direito por onde se faz o caminho dos úteros e os lugares onde eles se aconchegam melhor.


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2 comentários:

  1. ... e, de repente bebo o vinho, mesmo no periodo de morte, mato o leão e dou a Princesa Cubista o dente para Ela escrever na sua pele uma história vermelha...

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  2. :D
    lindeza de imagens vc plantou nos meus ouvidos Curupira! obrigadaaaa!

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