quinta-feira, 6 de março de 2014

hey

hey vem cá você... olha bem dentro dos meus olhos... isso olha direito... não não é pra essa daí que to te mandando olhar... ou você pensa que... pensa é claro que pensa... mas você tá muito enganado se tá pensando que essa aí do lado... é... eu to falando dessa aí azulescente do lado toda ereta toda cara e boca e braços em pose... ah se você pensa meu caro que essa aí do lado sou eu se é pra ela que você olha e sente ganas de alisar o próprio corpo pode tirar o cavalinho de pau da chuva meu bem porque essa aí do lado não sou eu não filhinho... essa aí é desvio bifurcação no meio do caminho beco sem saída acidente na rodovia... é subterfúgio evasão desespero da verdade... eu sou essa aqui... isso olha olha aqui no meu olho isso esse mesmo OLHO agora dois três feitos de palavra de som silêncio e gelatinoso espaço em branco... essa aqui sou eu: um monte de caracteres com propriedades imantadas ora se atraindo com urgência fatal ora se repudiando com asco... isso aqui sou eu: escombros de significantes amontoados uns sobre os outros tentando fazer sentido nesse mundo cheio de ruídos túneis sintáticos percorridos de ratos roedores dos próprios rabos... sim meu caro essa aqui sou eu e eu duvido que olhando pra mim assim tão cancrosa nudez de prosa no encalço de uma poesia impossível e inalcansável massa de modelar monstro marinho escorpião sem corda girando frenético no asfalto molhado mulher de três olhos aguados boca escavadeira de aterro municipal sete orelhas em leque rabo de pavão um aquário no peito e garras cortantes penduradas nas guelras vaginais mulher sem cabeça vinte e três olhos de gude suspensos e um todo de grude no meio da testa ah mas eu du-vi-do que olhando de verdade pra mim assim toda verdade na sua frente eu du-vi-do que sinta ainda mais com esse cheiro de morte que depreende junto com os gases dessa putrefação textual algum qualquer um unzinho que seja um estímulo nas partes algum desejo de toque carícia saliva engasgada espumando na língua... mas não não vira a cara não olha pra mim me pega no colo das mãos assim com cuidado pra eu não te escapar pelos dedos me pega e me leva pra cama assim do jeito que eu sou e me olha de verdade pro eu que de verdade eu sou... dorme comigo pelo menos até amanhã ou depois e mais dois dias só mais dois... acho até que você é capaz se uma esperança de azulescência de que tudo isso bem moldado passado na prensa e com um toque de grife gota de lavanda possa talvez possa vir a ser a ilusão disso aí do lado ou qualquer coisa que pelo menos lembre algo de índigo algo de anil algo de um não-eu em pirotecnia estereofônica... façamos disso então um risco: me leva... me leva e me olha... eu garanto... é me olha... só isso... m'olha e eu garanto que você vai chorar...


.

Nenhum comentário:

Postar um comentário