quinta-feira, 6 de março de 2014

discovery

houve uma vez e foi ontem de madrugada em que eu me apaixonei pelo leão imponente da caixinha de chá-mate. ficava horas lá olhando pra ele sem pensar em nada enquanto bebia o chá com um pouco de limão e com o vapor embaçando meus óculos ah eu não uso óculos há pelo menos cinco anos desde que fiz uma cirurgia de miopia à qual tive o desprazer de assistir na íntegra... eu queria me casar com um leão mas pra isso seria preferível ou pelo menos mais adequado ter nascido leoa e as leoas são feras submissas e isso é muito engraçado porque leoa não é nome de um ser submisso é nome altivo que se levanta de cara no éle depois tem o e e o o e o a que são letras fibrosas e calcificadas... leoa tem uma coisa meio vem pra cima vem pra briga e em nada se parece à submissão inscrita no nome de uma hipopótama ou uma pata, por exemplo, e tudo isso é muito interessante porque uma leoa tem status linguístico de leoa bem antes das garras, antes dos dentes eximiamente amolados na pedra, antes da juba volumosa do seu macho e, inacreditavelmente, ainda assim se submete ao leão seu rei seu inimigo e marido, predador futuro de seu filho de seu príncipe... ah mas como entender o instinto animal afinal eu queria ser uma leoa mesmo que submissa e acho até que essa submissão é que mais me atrai nessa onda de carinhos leoninos dourados e peludos tanto que tenho ganas de ir pra floresta com urgência uterina à caça de um animal bem desses de grande porte tipo uma girafa um elefante um girafante ou um daqueles bois de cifres imensos e retorcidos que passa na dicovery channel e voar minhas asas invisíveis pra cima da presa com pressa calculada e astúcia noturna e meter logo meu dente afiado no pescoço dela até sugar seu ser em vida pra dentro de mim e aí então arrastar aquela carcaça ainda fresca quase fria quase gelada pra nossa casa de campo pra nossa grande casa de campo sem paredes e janelas e na infinita cozinha fatiar a carne temperar com louro e alecrim e servir pro meu leão todo rei todo ele ali no seu reinado de carne desprovida da gente animal dela carne congelada frigorificante bem ao alcance das garras cegas retorcidas engruvinhadas pra dentro da própria pele garras desabilitadas do escrever... e então no depois da mesa posta olhar como quem aprende como quem apreende a espera feminina esperando o que me cabe ruminando a vida que já me coube daquele jantar de tantas vísceras mortas... é... mas eu não sou uma leoa sou só uma geruza uma geruza entre tantas geruzas e o meu leão é esse aí vegetariano não não é nem isso... o leão que me cabe se reduz a um punhado de erva mate mato processado dentro de uma caixa que é o seu RG cor-de-abóbora o meu rei é esse aí no papelão exposto nesta foto 3x4 de leão leão assim... meio borrado...



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