sábado, 29 de março de 2014

o poeta não kria

a medicina criou a doença
a sociologia, a sociedade
a história criou as estórias
a vigilância criou o medo
a economia criou a fome
a religião criou o herege
a justiça criou a desigualdade
a publicidade, os desejos

agora espera-se que a máquina consiga dar um jeito nisso


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sexta-feira, 28 de março de 2014

na toca

[shiko]

ali no lugar onde já zz
não há nada a dizer
é possível tocar
a MÚSICA
impossível

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quinta-feira, 27 de março de 2014

inspiração

devorava
aquele desejo insaciável
de papel


.

desejonecessidade


colados
na primeira mordida
da fome


.

queixumusa

e então eu ardo
quando tua língua queixosa
                            lambe as despalavras
                            que me escorrem do pescoço

eu ardo
pingando fogo
gotejando chama

chamo

Paraíso do engodo
                 gozo & dor


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terça-feira, 25 de março de 2014

A resposta que guardei. Ou: uma ficção de blog.



Resumo: esses são comentários inventados à banca, inspirados na leitura inimiga (não do inimigo) da minha tese. Leitura de enfrentamento, que inspira o amor e a disposição para defender o direito às ideias de serem participadas ao leitor. Mas esse texto não é artigo, é ficção complementar do outro, face-a-face atravessado pela imprevisibilidade. Ficção da ficção porque nem é a resposta inventada, mas comentários inventados à ela. Ficção porque a interlocutora é uma personagem ao modo do Orientador que ela leu. Enfim: não sendo artigo, desnecessário resumo. Fictício, portanto. Introdução verossímel para certa ficção de blog que desde o meio precisa inventar um começo.

1. Talvez você tenha começado no meio dizendo Barthes já falou sobre suicídio há 40 anos e melhor porque avançou, enquanto esta tese patinou sem sair do lugar. Entendo. Mas não sei se posso ficar feliz por ele ter avançado nisso. A verdade é que a ficção de Barthes não é melhor do que a minha. Só é outra. Então um brinde: vida longa ao sucesso do suicídio de Barthes! E ao fracasso do meu.

2. Barthes também foi o nome do meu cachorro. Só que eu não tive cachorro. Barthes, que na verdade era o cachorro da minha irmã, dividia comigo o prazer do texto. E e um osso. Duro de roer.

3. Continuo com Barthes, citado para negar a ideia de que toda linguagem é expansão de uma fala inaugural: o eu-te-amo. Barthes-você crê na comunicação que nasce do eu-não-te-amo. E eu fico imaginando o que pode ter acontecido a ele para que dissesse algo assim tão terrível... Eu, Geruza, não posso conceber uma relação entre dois que floresça num não. Porque mesmo que haja o não, ele necessariamente teria de vir depois de um sim. Exemplo: você disse não à tese, mas só depois de aceitá-la. Mas não é a minha tese que importa aqui. O que me parece terrível é preferir construir toda uma teoria da comunicação pautada no eu-não-te-amo ao invés de no eu-te-amo. Sim, terrível! Talvez seja essa a origem do seu suicídio (de Barthes). Difícil comentar algo tão duro e blindado. Calo-me em nome de sua dor. Provavelmente tão grande quanto a minha. Brindo à nossa dor? Ou aos diferentes caminhos que escolhemos para combatê-la?

4. Essa querela entre eu-te-amo e eu-não-te-amo pode dar a impressão que escrevo pelo segundo. Imagino isso com base no que disse e também porque minha leitura se faz dissimétrica. Queria fazer saber que só escrevo porque amo. E que todo autor escreve por amor. Mesmo que as consequências dessa escritura pareçam negar isso. Por amor, o autor é culpado. Escrevo porque sou culpada pelas quatro noites que ficou sem dormir por causa da tese. Como autora não estava lá para fazer algo por você. Tento fazer aqui, sempre no risco de estar promovendo noites de paz ou outras, de insônia. A tese sabe-se em dívida: você sofreu por ela ou, como frisou, se aborreceu com ela. A tese tem um ponto final. Eu não. Tendo restituí-la nessas justificativas. Também eu me faço insone: em gratidão velo teu sono contando-lhe essa história de blog.

5. O acontecimento. Você tocou no acontecimento da tese. A tese é sobre isso. Também é isso. E outra coisa. A tese aconteceu-lhe. Deixou-a quatro noites sem dormir e posso imaginar o quanto tenha sido ruim. Fiquei quatro anos. Quatro anos e, agora, mais quatro noites. Essas, por você. E ficarei mais quarenta se precisar. Aconteceu-lhe a tese. Impacto. Algo não esperado ao qual não se sabe responder. Porque não vem com pergunta. Por isso, desestabiliza. Impossível manter-se distante porque nos mergulha. Impossível manter-se crente porque dissolve referentes. Num átimo, estamos mergulhados no deserto. Enterrados sob o céu. E aborrecidos. Foi exatamente assim que me senti quando aconteceu-me. Dois corpus atravessando minha pesquisa. Eu me aborreci. E chorei.

6. Foi muito difícil ver encenado o acontecimento na banca. Não queria mostrar-lhe. Não podia dizer-lhe que o que se passava ali era da ordem do terrível. Embora todos, você mais do que todos, estivessem cegos a ele.

7. A cegueira segue o acontecimento. Mas também toda leitura já que a escritura sempre utiliza dois códigos, mesmo que tente apagar as marcas de um deles ou que fechemos os olhos a isso. Dois códigos. Realidade e ficção. Estrutura bisagra que se sustenta no duplo. Aporia da duplicidade que lhe fortalece e fragiliza. Então, oculta-se um código em favor do outro. Império de força. Para ver os dois é necessário piscar o tempo todo. Processo doloroso cortado pelo silêncio. Ato falho: pelo escuro. Ou vazio? Mais fácil escolher entre um deles e seguir de olhos abertos buscando o que aquele código tem a oferecer. Ainda assim um agravante: como saber a leitura que se faz do código? Qual a garantia que esses códigos estejam sendo lidos da mesma maneira por pessoas diferentes? Exemplo: a incomunicabilidade entre nós duas nascia do fato de que o que você lia como pertencente ao real (tese, resultado, corpus, método, contribuição) para mim era ficção; já o que você lia como ficção (suicídio-metáfora, vida-entubada, sobrevivente, Orientador-personagem, amor) para mim era o real. Desacordo de origem. De origens. De posição. De posições. Político.

8. Ser doutora é a mesma coisa que não ser. Mas “ser” me investe de responsabilidade infinita perante aqueles que não sabem ou não acreditam nessa igualdade. Ser Geruza é a mesma coisa que não ser. Mas Geruza me investe de responsabilidade infinita perante aqueles que sabem ou acreditam na diferença.

9. É essa responsabilidade que obriga a escolher. Enganou-se ao dizer que não fiz nada na tese porque não sai do lugar. Manter-me naquele lugar foi uma escolha política e consciente. Ilha na liquidez de uma tese processual. Desde aí a responsabilidade de responder-lhe mesmo quando a resposta não é solicitada. Mesmo quando nem há pergunta. Mesmo quando tudo isso não passa de ficção. Porque o risco de que tudo seja ficção coloca-me frente à possibilidade de que a ficção seja uma coisa de fato bem séria.

10. Não seguir suas orientações de qualificação pode ter muitos motivos, mas chamá-la para prestar-lhe contas, assim como aos demais colegas que me sugeriram caminhos, é responsabilidade política. Entre os caminhos que me propuseram havia outro de igual peso acenando para mim: o meu. O diferente daqueles que me apontaram. Onde escreve-se o dever de aceitar os caminhos traçados pelos outros a si? Mas entendo seu aborrecimento: havia uma expectativa com relação ao que viria a ler na defesa final. Mas estamos falando de um acontecimento e os acontecimentos são naturalmente aborrecentes porque quebram qualquer planejamento. Também eu havia planejado muitas coisas para mim nesses anos de doutorado, na vida e na arte, mas aconteceu-me sair dos trilhos. A vida quebra expectativas. E quando se tem de improvisar, qual caminho pode ser melhor do que o único possível? Ou aquele em que acredita? É, eu também me aborreci muito...

11. Mas fico surpresa do seu aborrecimento ter origem nas orientações sobre o que eu deveria fazer. Na hipótese de que perdeu tempo só porque não fiz o que me pediu. (Ou mandou. Não lembro o verbo usado na arguição). Fico me perguntando se em todas as bancas que participa os candidatos fazem o que se planeja para eles. A mim isso explicaria porque, como disse, algumas defesas são um “saco”, afinal seria como riscar um croqui e dois anos depois ser chamada para vistoriar a obra pronta. Entendo, porém, que haja estranhamento quando se é exposto a uma situação em que se quer ouvir algo e outra coisa se diz. Mas o que se diz não elimina o que não foi dito, de algum modo ele está ali às margens. A margem fala. Fala, só que é preciso ouvidos para ouvi-la. Então não perdeu tempo – dois dias? duas semanas? - escrevendo seu roteiro para mim: depois dele passei dois anos e meio escrevendo para você. Por isso, chamei-a à banca. Para o diferente. Para o presente.

12. (Mas os tempos de dois são muito relativos e nunca proporcionais. Exemplo disso numa banca: dois meses para elaborar as questões versus dois minutos para tentar elaborar as respostas. De algum modo estou também tentando restituir isso aqui: o tempo no eco daquelas falas em mim.).

13. Porque uma fala precisa ressoar depois de soar. Em dois tempos se faz o diálogo. É claro que não falo do diálogo da banca. Aquela é uma cena de estrutura ficcional, óbvio. Falo do diálogo entre mim e meu Orientador que se fez durante esses quatro anos e que, por se tratar de uma tese sobre seu processo, foi explicitamente incorporados à escritura. Sua leitura transformou meu Orientador num personagem, depois o destruiu dizendo que não era “meu” porque de tantos outros. Sua negativa parecia recair sobre o pronome possessivo. Então eu lhe pergunto se, em suas orações, ao pedir ajuda divina, assim se expressa: “ajuda-me, deus-dos-outros”. Porque se é assim que o chama, não teria nada a dizer. Mas, se o chama “meu Deus”, então lhe diria que quando Deus falta – e ele falta todo dia, especialmente em dia de acontecimento – é a um Guia, um Irmão, um Orientador horizontal que a gente pede ajuda. E, quando precisei, o meu orientador nunca me faltou. Possivelmente você leria isso como metáfora, mas essa é a parte real da minha tese.

13*. Mas paro ainda aqui e convido-me a pensar: porque meu orientador nunca faltou? Acaso possuía disposição incondicional ou sua presença foi ordenada? Envolveria-se espontaneamente na tese se ela não o tivesse envolvido? Incluído? Retirado o véu que o encobre? Cobrado e recobrado sua voz? Não sei. Não saberei. Já não importa. Ele esteve presente. Porque ser orientador de outros além de mim não diminui sua responsabilidade perante mais esse eu: meu. Talvez que, diante da responsabilidade da presença, erga-se a responsabilidade do chamado. Convocação. Orientação ao apelo da tese. Orientação que não se faz em mão única. Via dupla. Troca. E se essas perguntas nunca serão respondidas, a resposta impossível faz com que continuem ecoando. Responder não é dar resposta. Responder é se apresentar. Perguntar é chamar à presença. MEU é se colocar, ora atrás, ora à frente, de uma letra muda.

14. Você disse que só eu chorei na tese. Reclamou as lágrimas que não chorou. Mas eu desejaria saber se queria chorar comigo, por mim ou por você? Porque as lágrimas da tese são as lágrimas daquele que feriu-se: está ferido mas também foi o causador de sua ferida. É ativo e passivo de lágrimas. Eu nunca tive a intenção de fazer chorar, de causar feridas. Sei que tem as suas. Todos temos. É um estranho, mas bonito desejo esse o das lágrimas. Mas se elas lhe faltam não serei eu a plantá-las em você. Pelo menos, se puder evitar.

15. Tentei mostrar a estrutura espelhada entre a vida e a arte. A estrutura espelhada entre o acontecimento da tese e o acontecimento da vida e, em alguma medida, o acontecimento da banca. Entre a ficção e a realidade. E a fragilidade da estrutura. E por ver e mostrar isso, pedi perdão. Enquanto você dizia“eu”, assim como eu fiz na tese, toda sua fragilidade se expunha para mim como expus a minha para você. Ás vezes, entre a urgência de responder suas questões, me perguntava: por que ela está me dando a oportunidade de matá-la? Por quê? Para quê?  Estou (me) defendendo (d)o quê? Por quê? Para quê? Será que isso é uma armadilha? Será que ela deseja que eu a violente com a violência que tendo combater? Como faço para não matá-la? Como faço para não morrer? Será que ela está vendo tudo isso como eu ou como eu está cega?

16. Não, não quero as respostas. Elas pouco importariam porque diriam respeito só a mim. Mesmo porque viver e morrer são modalidades com significados diferentes para um sobrevivente. Para dizer respeito aos outros, aos vivos principalmente, só preciso mostrar que existe a possibilidade das perguntas. Deixo a ficção das respostas definitivas para aqueles que gostam de procedimentos mais radicais dentro da universidade. Para aqueles que preferem ocultar a estrutura bisagra que sustenta uma instituição alicerçada no código.

17. E fico imaginando se algo mudaria no script caso o cenário da banca fosse outro. Penso numa encenação onde o personagem-candidato ao doutoramento não tivesse de se sentar numa mesinha, apartado da grande mesa dos arguidores, ou com um ar-condicionado estranhamente posicionado em cima da sua cabeça, ou uma janela com grades às suas costas. Penso numa mesa redonda onde coubessem todos. As perguntas, ao invés de lançadas de uma ponta a outra, circulariam. É claro que sei que se trata de um ritual, por isso usei as imagens de tribunal e júri para definir o ambiente. Mas seria ilegítimo ou indelicado pensar a respeito? Fiz essa mesma pergunta à minha mãe e ela disse que numa mesa redonda haveria o risco de que o ritual perdesse o caráter de seriedade e importância. (Ela gosta mais do modo como é). Eu compreendo e concordo que há mesmo esse risco. Mas também não haveria em igual medida o risco de que os encontros em mesas redondas – também eles originariamente ritualísticos – readquirissem esse caráter de seriedade e importância perdidos no uso cotidiano?

18. Qual a porção de rebeldia admitida no quadrado da disciplina? Espero que o suficiente para se pensar a disciplina. E ver a transparência das regras. A opacidade dos deveres. Tudo o que quis com essa tese foi silenciar respostas para poder fazer ouvir as perguntas. Se algumas vezes esse silêncio provocou silenciamento ou violentou é porque trabalhava com uma matriz ambígua e fazia questão de mostrá-la. Toda a tese foi também um pedido de perdão por isso. Mas outra forma de silenciamento violento seria responder com mais-do-mesmo. De perguntas e respostas mais-do-mesmo, a universidade está cheia. Posso não ter chegado a um resultado que salve da indignação, mas tentei nessas páginas que não saíram do lugar esboçar um pensamento da indignação. Tentativa de reconstrução da dignidade humana. Começando pela minha.

19. Uma tese (do) acontecimento. Uma tese (de) sobrevivente. Uma tese “entubada”, como você disse. E vejo que sua leitura inimiga leu o coração da minha tese. Sim, entubada. Não só a minha tese, mas também a minha vida está entubada. Como a de muitas pessoas, afinal. E isso não é só porque mantenho dois corpus sobrevivendo no peito, mas porque a universidade está ela mesma entubada. Uma ideia de universidade está vegetando e permanece respirando com a ajuda de aparelhos. Entre a vida e a morte.

20. Como decidir pela morte do que se ama e se acredita? Eutanásia ou cura? Do acontecimento restou-me a busca pelo impossível. Cura. Mesmo que só como promessa. Acontecimentos paralisam ou fazem o caminhão andar.

21. O problema está armado. O diagnóstico: negativo ou positivo? A tese foi aprovada. A tese desobediente. A tese que não fez nada. (Nem sorrir, nem chorar). Corajosa. Covarde. Mas o que significa essa aprovação? A tese-doutora que nada fez é exemplo do que se faz ou do que se deixa de fazer na universidade? Da seriedade ou falta de?

22. Acho que meus comentários inventados podem parecer ressentidos, principalmente porque se dirigem à leitura de choque, de confronto. Não sei. Sei que são, sim, muito sentidos. Todas as arguições foram sentidas e valorizadas. Mas, evidentemente, responder à leitura não concorde é instigante porque obriga a um exercício de reflexão no qual se aprende muito sobre o próprio pensamento porque é preciso persegui-lo nos seus pormenores. Já o exercício dirigido às ideias aparentadas constrói elipses de raciocínios que se pensam compartilhados e de conhecimento comum, diminuindo o esforço intelectivo da busca por se fazer compreendido. Pelo outro e por si mesmo. Ficar (res)sentida e optar por não esconder isso - uma coisa relativamente simples de se fazer - é o meu modo de dizer que me importo muito. É o meu modo de mostrar que também fiquei aborrecida por não ver a leitura das coisas que me importavam, mas, ao invés dela, aquilo que importava ao outro. O que, vejo agora, é bastante normal.

23. As perguntas que faço aos estudantes que, porventura, leiam essa tese são aquelas que também faria à mim: por que uma tese assim se escreve? Melhor: por que uma tese assim se escreve quando quem escreve tem plena consciência do que está fazendo?  Quais as demandas que o gênero já não pode suprir? Se há algo que o gênero tese não abarca ou o transborda, então o que é? O que autoriza supor que o que se lê não é uma tese? A tese é o único produto/bem palpável da universidade? Como mensurar o valor dessa mercadoria? É possível articular tese e fetiche? Quem lucra com a forma fixa? Que zonas de segurança são abaladas com a mudança da introdução para a página 125? Essas perguntas me fazem pensar que talvez precisemos de certo distanciamento desse texto. Respirar. Tomar fôlego. E, um dia, reler sem o sentimento de ameaça que ronda esse tipo de situação. Quem sabe se algo mais dali... escorresse... das minhas mãos para as suas e das suas para as minhas...

24. Enfim, essa ficção de blog, destinada ao blog, já tem quatro páginas: uma para cada noite insone. Desejaria, com elas, poder expressar minha gratidão pelas leituras, mais ainda, desejaria pagar minha dívida pelo aborrecimento. Impossível. Pagá-la ou apagá-lo... Desejaria que no lugar do aborrecimento sobrasse apenas uma história bonita que pudesse ser intitulada como Barthes & eu, por exemplo, Geruza.


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sexta-feira, 21 de março de 2014

anjo distraído

anjo distraído de mim
mergulhado em anseios estelares
suspenso nos prazeres alados da altura
encantado das línguas angelicais

anjo distraído de mim
entranha-se, poliglota, na língua do mundo
pensa-me em raiz latina
na terrena hora em que me basto
no momento mesmo em que não te penso
pensa-me no agora em que mais careço:

molhada de mundo
distraída
                                            de nós


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quarta-feira, 19 de março de 2014

sorriso

rosto riscado de boca
cicatriz de desespero

preso às bordas
o equívoco amargo de café

escorro pelo talho do teu peito
fenda incoagulável que todos os dias tenta estancar

quem
se não você
reconduzirá minhas lágrimas ao mar?


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blue velvet




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BMP (perfis poéticos)

provas cruzadas
de pernas
            & olhos

compatibilidades
atestadas na língua

punção nas veias:

tua insanidade correndo acelerada na minha

misturados em duas seringas de azul metileno


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terça-feira, 18 de março de 2014

café

é no de tarde que me anoitece
e sento
     sem tempo
             nos braços
                         do sofá
                              eu
                              rito
                              aliso

e então cravo
os dentes nos lábios
                    de baixo

sopro
o hálito de uma letra
primeira do teu nome
q'eu trago
pra dentro da xícara
garganta que abriga
           
[me obriga]

nome quente
nome forte
movimento cor de café
aromatizando meus designs
                           interiores

                               

jardim

dois olhos
de manjericão
incensando a minha fome


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segunda-feira, 17 de março de 2014

orchis blue


exposição de orquídea:
 Ice Cave, de Georgia O’Keeffe
Greta na Groenlândia

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pomar



         
         

bífrida & híbrida
laranjas sanguíneas
em fúria 


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jogo

jogos abertos
liquidificador triturando segredos
regras intravenenosas
corrida de marcapasso
sem pódio de chegada

garrafa de champanhe vazia
                              não
                              estoura


.

zoo

eu não gosto de cão
não gosto de gato, de rato
tubarão, escorpião
nem do passarinho eu gosto

pra mim é tudo metáfora
fácil, pretexto de poesia

eu gosto é de gente
o que é muito mais difícil

e raro
de se encontrar


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mineração

dedos hábeis

equipados nas pontas:
                lanternas de mineiro
                terceiro olho na escuridão

busca paciente
por rimas ricas
no meu verso esticado & branco

à sete chaves
          de ouro:

[escondo]


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engenho e arte



a poesia tem língua própria
nômade e estrangeira
vagabunda
dançatriz
errante
viva
oral

oral
viva
errante
dançatriz
vagabunda
nômade e estrangeira
a poesia tem a sua língua

   imprópria

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domingo, 16 de março de 2014

destino


[destino: autor desconhecido]

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linhas

decifra, amor
os sonhos desses meus pés ligeiros, ciganos & brejeiros
que me sobem pelas canelas, joelhos e janelas de pernas
abertas

decifra, amor
as tatuagens úmidas de dedos viajeiros, de poros e pelos
decifra esse meu futuro
                        estrangeiro

rasura, amor
a escritura dessas mãos fechadas
transcreva, amor
meu destino em código de barras


aventura secreta de palmas
recodificada no ruído branco
                     de linhas telefônicas


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sábado, 15 de março de 2014

sexta-feira, 14 de março de 2014

cão

te amo
com teus pés de cão
com tua orelha de cão
com teu focinho de cão
com tua fidelidade de cão

te amo
com tua vida de cão
com tua fome de cão
com tua língua de cão
com tua palavra de cão
com tuas plumas de cão

te amo
com teus olhos, não



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decoração interna

cerca de bambu
[37 estacas bem amarradas]

protege o pássaro vermelho
inventado

                     doce criança
                     mamando feliz
                     na minh'aorta


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quinta-feira, 13 de março de 2014

rede

no alto do edifício mais alto
                            ergue-se
                            o crânio
paredes de força
ossos resistentes
                            cujo destino é
                           (ou deveria ser)
                            sustentar
                                        redes


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a coitada

abraço a Solidão
que sofre sozinha

sei-la:
precisa de mim
para fazer-lhe companhia


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perdoe-me

perdoe-me se em algum dia por amor eu te odiei
perdoe-me se em algum dia de  amor eu te odiei
perdoe-me                            amor
perdoe-me          algum dia



                                          amor
                        algum dia


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riscos

a página me encara
muda

arrisco-me
nela


de ponta
            a ponta


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quarta-feira, 12 de março de 2014

peixes mecânicos



peixes mecânicos
enferrujam
e se desarticulam



em contato 
co'as águas

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[imagem de Vincent Cacciotti].

vazão

 
[imagem desconhecida]


evasão
ao revés
reconstitui O olhar

 .

reverberação

o piano
sabe o som
          sabre

o piano
sabe o silêncio
          sobre

o piano sabre
           sobre
           sabre
           sob
           som

           [silêncio]

duplo piano
        piano
        marfim

ano a ano
    amo

piano
rara gaiola
      muda
      antiga
      harpa
      secreta
      tábua
      sacra
    
sacrifico
      fico

corda trancada
calada a caixa

           houve





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sábado, 8 de março de 2014

vampiras vegetarianas

vampiras
       curitibanas
               vegetarianas
                            anêmicas

alimentando-se de tinta guache
exibindo aos holofotes a gengiva amputada de caninos
presas de plástico removíveis do politicamente correto
1,99 na lojinha da 25 com expediente das 8h às 18h
sorriso listerine
talco na língua
incisivos roedores
             ratazanas de papel
                                 presas laboratoriais
                                           comedoras de fungos e

pequenos in-ver-te-bra-dos
expulsos da casta:

nossa Sociedade Secreta de Dentes Lâminados fareja-
dores de sangue

Insaciável e sanguinária
Vampira
Adoradora de aortas em extinção

c'est la vie

procura feita de dedos no escuro
à caça d'olhos afiados nas pontas
busco o poema d'eterna juventude
palavra pulsante uivando pra Lua

toda lista
toda fome
toda ataque
toda dentes sugando tua Poesia:

                        grossas gotas
                        em vermelho rubro
                        manchas sobre papel
                        alimentando gostoso minha ideia


                        tua língua canina
                        em dança frenética e alcoólica
                        queimando cachimbo na minha jugular


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Wislawa Szymborska



Ambos estão certos
de que uma paixão súbita os uniu.

É bela essa certeza,
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes
nunca havia se passado nada entre eles.
Mas e as ruas, escadas, corredores
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

Queria lhes perguntar,
se não se lembram -
numa porta giratória talvez
algum dia face a face?
Um "desculpe" em meio à multidão?
Uma voz que diz "é engano" ao telefone?
- mas conheço a resposta.
Não, não se lembram.

Muito os espantaria saber
que já faz tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado
para se transformar no seu destino
juntava-os e os separava
barrava-lhes o caminho
e abafando o riso
sumia de cena.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Quem sabe três anos atrás
ou terça-feira passada
uma certa folhinha voou
de um ombro ao outro?
Algo foi perdido e recolhido.
Quem sabe se não foi uma bola
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas
onde a seu tempo
um toque se sobrepunha ao outro.
As malas lado a lado no bagageiro.
Quem sabe numa noite o mesmo sonho
que logo ao despertar se esvaneceu.

Porque afinal cada começo
é só continuação
e o livro dos eventos
está sempre aberto no meio.


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show



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quinta-feira, 6 de março de 2014

hey

hey vem cá você... olha bem dentro dos meus olhos... isso olha direito... não não é pra essa daí que to te mandando olhar... ou você pensa que... pensa é claro que pensa... mas você tá muito enganado se tá pensando que essa aí do lado... é... eu to falando dessa aí azulescente do lado toda ereta toda cara e boca e braços em pose... ah se você pensa meu caro que essa aí do lado sou eu se é pra ela que você olha e sente ganas de alisar o próprio corpo pode tirar o cavalinho de pau da chuva meu bem porque essa aí do lado não sou eu não filhinho... essa aí é desvio bifurcação no meio do caminho beco sem saída acidente na rodovia... é subterfúgio evasão desespero da verdade... eu sou essa aqui... isso olha olha aqui no meu olho isso esse mesmo OLHO agora dois três feitos de palavra de som silêncio e gelatinoso espaço em branco... essa aqui sou eu: um monte de caracteres com propriedades imantadas ora se atraindo com urgência fatal ora se repudiando com asco... isso aqui sou eu: escombros de significantes amontoados uns sobre os outros tentando fazer sentido nesse mundo cheio de ruídos túneis sintáticos percorridos de ratos roedores dos próprios rabos... sim meu caro essa aqui sou eu e eu duvido que olhando pra mim assim tão cancrosa nudez de prosa no encalço de uma poesia impossível e inalcansável massa de modelar monstro marinho escorpião sem corda girando frenético no asfalto molhado mulher de três olhos aguados boca escavadeira de aterro municipal sete orelhas em leque rabo de pavão um aquário no peito e garras cortantes penduradas nas guelras vaginais mulher sem cabeça vinte e três olhos de gude suspensos e um todo de grude no meio da testa ah mas eu du-vi-do que olhando de verdade pra mim assim toda verdade na sua frente eu du-vi-do que sinta ainda mais com esse cheiro de morte que depreende junto com os gases dessa putrefação textual algum qualquer um unzinho que seja um estímulo nas partes algum desejo de toque carícia saliva engasgada espumando na língua... mas não não vira a cara não olha pra mim me pega no colo das mãos assim com cuidado pra eu não te escapar pelos dedos me pega e me leva pra cama assim do jeito que eu sou e me olha de verdade pro eu que de verdade eu sou... dorme comigo pelo menos até amanhã ou depois e mais dois dias só mais dois... acho até que você é capaz se uma esperança de azulescência de que tudo isso bem moldado passado na prensa e com um toque de grife gota de lavanda possa talvez possa vir a ser a ilusão disso aí do lado ou qualquer coisa que pelo menos lembre algo de índigo algo de anil algo de um não-eu em pirotecnia estereofônica... façamos disso então um risco: me leva... me leva e me olha... eu garanto... é me olha... só isso... m'olha e eu garanto que você vai chorar...


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discovery

houve uma vez e foi ontem de madrugada em que eu me apaixonei pelo leão imponente da caixinha de chá-mate. ficava horas lá olhando pra ele sem pensar em nada enquanto bebia o chá com um pouco de limão e com o vapor embaçando meus óculos ah eu não uso óculos há pelo menos cinco anos desde que fiz uma cirurgia de miopia à qual tive o desprazer de assistir na íntegra... eu queria me casar com um leão mas pra isso seria preferível ou pelo menos mais adequado ter nascido leoa e as leoas são feras submissas e isso é muito engraçado porque leoa não é nome de um ser submisso é nome altivo que se levanta de cara no éle depois tem o e e o o e o a que são letras fibrosas e calcificadas... leoa tem uma coisa meio vem pra cima vem pra briga e em nada se parece à submissão inscrita no nome de uma hipopótama ou uma pata, por exemplo, e tudo isso é muito interessante porque uma leoa tem status linguístico de leoa bem antes das garras, antes dos dentes eximiamente amolados na pedra, antes da juba volumosa do seu macho e, inacreditavelmente, ainda assim se submete ao leão seu rei seu inimigo e marido, predador futuro de seu filho de seu príncipe... ah mas como entender o instinto animal afinal eu queria ser uma leoa mesmo que submissa e acho até que essa submissão é que mais me atrai nessa onda de carinhos leoninos dourados e peludos tanto que tenho ganas de ir pra floresta com urgência uterina à caça de um animal bem desses de grande porte tipo uma girafa um elefante um girafante ou um daqueles bois de cifres imensos e retorcidos que passa na dicovery channel e voar minhas asas invisíveis pra cima da presa com pressa calculada e astúcia noturna e meter logo meu dente afiado no pescoço dela até sugar seu ser em vida pra dentro de mim e aí então arrastar aquela carcaça ainda fresca quase fria quase gelada pra nossa casa de campo pra nossa grande casa de campo sem paredes e janelas e na infinita cozinha fatiar a carne temperar com louro e alecrim e servir pro meu leão todo rei todo ele ali no seu reinado de carne desprovida da gente animal dela carne congelada frigorificante bem ao alcance das garras cegas retorcidas engruvinhadas pra dentro da própria pele garras desabilitadas do escrever... e então no depois da mesa posta olhar como quem aprende como quem apreende a espera feminina esperando o que me cabe ruminando a vida que já me coube daquele jantar de tantas vísceras mortas... é... mas eu não sou uma leoa sou só uma geruza uma geruza entre tantas geruzas e o meu leão é esse aí vegetariano não não é nem isso... o leão que me cabe se reduz a um punhado de erva mate mato processado dentro de uma caixa que é o seu RG cor-de-abóbora o meu rei é esse aí no papelão exposto nesta foto 3x4 de leão leão assim... meio borrado...



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00h16

agora são meia-noite e dezesseis dezessete agora, senti um pouco de medo e olhei pra trás... bobeira não há nada a não ser um pouco de medo e a flexibilidade natural do corpo que permite até ao serhumano mais sedentário do mundo um leve mover-se, no caso mover-me... acho que estou ficando louca de novo o que é bem natural em termos de mim e de quando em quandos... hoje parece que está acontecendo alguma coisa porque há um zumbidinho nos meus ouvidos, um zumbidinho vindo de bem longe tipo do zimbabwe ou algum outro lugar exótico e cheio de girafas... então aí no quando que isso dá sinais de acontecer sempre faço um teste: pergunto-me o que me apavoraria mais se entrasse no quarto agora: 1. uma barata (ou uma rã, um grilo, uma lagarta verde peluda, uma cobra coral fininha como a que entrou no meu sapato quando eu era criança ou uma tarântula de dois metros, enfim bichos perfeitamente comuns de aparecerem no quarto da gente no meio da noite), ou 2. um tubarão (ou uma anêmona alienígena, um gremlin, um tiranossauro-rex, um pelicano branco em migração como aqueles do filme a grande beleza, um godzila, ou seja, animais que em hipótese alguma poderiam bater-me à porta, pelo menos não numa hora dessas aqui na casa dos meus pais, afinal essa é a casa dos meus pais numa pacata cidadezinha de 32 metros quadrados desenhada de giz na calçada do mundo)... bom, então eu faço o teste pra mim mesma e eu tenho de pôr um xis em pensamento em uma das opções: no quando em que eu assinalo 1. eu to normal, quer dizer to numa normalidade de sobrevivência; já quando eu me respondo 2. é porque o bicho vai pegar e vai pegar literalmente porque essa bicharada do item 2 não fica de bobeira esperando minha mãe acordar com meus gritos e vir de havaiana em punho pra cima deles toda vez que isso acontece eles vêm pra cima com tudo e me estraçalham com os dentes e enfiam as garras na minha jugular e chupam todo o sangue depois quando eu já to morta eles matam minha mãe, meu pai e minha irmã nesta sequência depois seguem pro resto da cidade e acabam com tudo e eu só sei disso porque um dos meus olhos sobrevive pula da cabeça esmagada e se esconde embaixo da cama e de lá fica observando tudo sem poder piscar... hoje pra dizer a verdade eu acho que to normal porque sinto que teria mais medo de uma barata mesmo, principalmente se essa barata for do tamanho dessa que eu to agora pressentindo atrás de mim e que eu sinto que vai me abraçar e me apertar no seu paletó de asas e enfiar suas antenas no meu cérebro e me sujar com mensagens de esgotices e depois cuspir nos meus cabelos aquela gosma branca clariciana que vai deixar um grude que só e eu vou levar um milhão de dias para conseguir tirar os nozinhos e penteá-los novamente... pronto, agora acho que passou o fim do mundo... e começa o medo.


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