quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

luto

meu pai cortou a pitangueira mágica. 

estou triste. há uma vida tenho comido magia embalada em vermelho. não importava o dia que olhasse para ela, havia uma pitanga grande e gorda esperando por mim. por mim, não pelos outros. ninguém via as pitangas fora de época e eu gostava de me exibir entre os galhos secos e perguntar à minha mãe se queria uma fruta. ela ria e eu levantava as mãos e arrancava uma pitanga pra ela.

os homens vieram. cortaram seus galhos e depois o tronco. eu estive na janela por muito tempo e não me importei de me verem chorar. as raízes por último. foram elas que obrigaram o corte. meu pai disse que as raízes estavam ofendendo a casa, penetravam-lhe por debaixo do alicerce, forçando-o. eu imaginava que raízes fortalecessem a casa, mas...

ouvi dizer que há árvores com raízes que buscam água por 30 metros. não é o caso das pitangueiras. e o meu quintal é na frente da casa. pitangueiras mágicas vencem facilmente dez, doze metros. talvez se esticasse até meu quarto. eu dormiria bem dividindo a cama com suas raízes. é uma cama de casal e estou sozinha há tanto tempo... dormiríamos molhadas e embrenhadas. talvez não precisasse mais buscar pitangas temporãs no pé. talvez na cova das axilas me nasceriam pitangas pela manhã. e nas orelhas surgiriam suculentos brincos. no banho, duas pitangas surpreendidas nos mamilos. e exibiria bochechas coradas, lábios sumarentos, olhos sempre acesos de desejo.

tenho certeza de que nunca mais comerei pitangas. mágicas ou não. a partir de hoje, as pitangas serão uma lembrança embalando desejos. mas não ao alcance de mãos e braços. o tempo da magia se extinguiu. e francamente não sei se tenho raízes capazes de buscar tão longe. trago-as tão retorcidas e comprimidas sobre si. enfim... acabou o tempo e as gotas de vermelho sugou-as a terra.

minha casa está salva.
eu, não.


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