sábado, 8 de fevereiro de 2014

entre

deslizo por áreas asseadas de uma exposição fotográfica
cuidadosa armação de uma estética armada
elaborada imposição de imagens atravessando o tempo
deslizo pelo faz-de-conta sofrendo de impossibilidades
olho apenas
sem tocar as peças imóveis e sem vida
olho apenas com os olhos vulneráveis do poeta
o mundo
recriado em preto-e-branco
fronteiras visuais bem demarcadas sobre o plano
estratégico
do papel
impostura neutra atravessada por linhas de segurança
apontando com dedos retos o abismo intervalar
fenda
funda
limites
e polaridades

meus olhos de poeta pensam a ingenuidade desses traços
meu pensamento de poeta fareja rastros de terror e medo
meus pés de poeta desviam das fotografias uniformizadas
e descalços
deslizam pela sujeira das cores
expostas no mundo vivo
no mundo das pessoas
vivas que caminham pelas áreas asseadas da imposição
trasngressores
expondo
suas tintas mescladas à aquarela dos sons
seus olhos molhados de tons
lágrimas coloridas que diluem certezas
corpos que se arriscam no precipício entre o sim e o não
e mergulham no talvez de um par de olhos verdes
que se confunde com outros olhos verdes e outros
azuis que se agarram à infinitos marinhos ou céu, clarinho
e vermelhos que mudam de nome para ser magenta
escarlate, púrpura, amarelo, dourado, cyan, branco
ou preto: cinza
dálias indistintas
lábios & vulvas
tudo
se confunde
no corpo vivo
poesia dos deslimites do coro
do coração
da música que não acontece nos desvãos do branco-e-preto
das teclas mas também delas e da madeira marrom da cauda
e engrenagem cinza e dos fungos invisíveis e do ferrugem acre
e dos dedos cor de gente

e de beijos sujos
de batom
sujo de outros batons e ainda outros e outros
colorido infinito de desejos em trans posição
numa vida que se confunde com tudo que é
e não é
vida entrelaçada à morte e ao seu ínterim
útero

porque todos os nomes guardam
o primeiro nome
                comum
                e inacessível

porque todos os nomes nasceram

d'um grito
vermelho

.

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