quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

autorreflexão

você acha mesmo que eu caibo nesse espelho
de dimensões elevadas ao quadrado
do mundo?

GZ

[você cabe?]


.

desejo

o pecado
amarrota meus lençóis
bagunça a minha cama

me estico
me ajeito
e me queimo na pista de patinação do teu peito


.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

devires

[The bloody nuptials, Apollonia Saintclair]

devir-cósmico
Kafka devir-animal
Van Gogh devir-girassol
Castañeda devir-molécula
Artaud devir-índio
Melville devir-baleia
Pessoa devir-outro
de tanto devir
devir-devir
geruza
deveio-poema
 


desálogos

você vai perguntar
a um crocodilo
como está a palestra?

ora, você sabe a língua
do crocodilo?
ele entende a sua
                       língua?

pensando bem

a única coisa a fazer é tocar um tango argentino

ou observá-lo
    observá-lo


.


literatura

o que é literatura
senão um estado
      de exceção?

o que é literatura
senão um estado
        de direito?

o que é literatura
senão um estado
      de espírito?

inconceituável

o espanto:
algo acontece
                           explosão
                           fragmentos
                           vítreos
                                               e continuacontecendo
estalactites
estalagmites
estilhaçadas


li                          ter

         atura

vel                       mente



.

inscrição

grade
grade
grade

na minha busca por liberdade
abandonei telescópio
olhos colados no microscópio

minúscula célula respira
                         com ajuda
                         de aparelho
hiatoplasma
       nada
       no vermelho

esperantocus aminoacidus


.
                                                  

expedição

as cavernas estão
habitadas demais
habituadas demais
iluminadas demais

multidão invade o túnel do metrô
corpos se comprimem
vagina invadida por picas anônimas
passantes zumbis
na porta do útero raso e infértil

escura
só a cova
fechada a sete p'almas

não as covas dos cadáveres exumados
etiquetados e embrulhados de presente
mas a única cova que ainda mete medo:

cavo
a guardiã futura
desse nosso segredo


.

perdas

perdi
no fim do futuro
o começo do passado



.

fino

eu me equilibro num verso
                               teia de aranha
                               fino

eu me equilibro num verso
                               fio de cabelo
                               fino

eu me equilibro num verso
                               salto agulha
                               fino

eu me equilibro num verso
                                corda de slackline
                                fino


eu me equilibro num verso
                                rastro de fumaça
                                fino

eu me equilibro num verso
                               verde bembolado
                               fino

eu me equilibro num verso
                               linha de fuga
                               fino

eu me des
             equi
                   livro


.

sem título


penso um poema
que não quer ser


penso um poema
que não quer ser poema

penso um poema
que não quer ser palavra

penso um poema
que não quer ser imagem

penso um poema
que não quer ser o traço

penso um poema
que não quer ser som

[muito menos silêncio]

penso um poema
que não aceita o verso

penso um poema
que não se rende
ao impensamento



carga azul
de caneta bic
estourada entre os dedos


.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

roupão

sob o roupão azul felpudo
uma ideia
                   toma corpo


.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

58 s

rega meus olhos
regala meus olhos
arregalados pra t'enquadrar na minha liberdade

papoulas brotam
no céu da língua
não ligo: papoulas são lindas assim orvalhadas

boto a língua pra fora e exibo meu canteiro poético:
meus sons aromáticos incensando a gira dessa ode
onírica & olírica
orquestra de flashes
fosfenos & mickey mouses
cintilantes opiáceos flutuantes

boto a língua pra fora e teu canto me caminha sobre botas
excitando papilas daninhas
pisoteando papiros inúteis
em arriscado snowboarding
por gargântulas negras
                   e nevosas

rega meus olhos
regala meus olhos
arregalados pra m'enquadrar nesta tua liberdade
                                                           nervosa


.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

teletipos

tão próximo
que quase toco as letras
como teletipos que escapam em desordem
da boca, atropeladas por palavras pronunciadas ao alto
letras que escorrem despreocupadas de sentido e que me apresso a juntá-las
apanhá-las com as mãos e levá-las ao quente do colo, olhar para elas e acariciá-las de leve
descansá-las no peito até que o dia comece, ou recomece mais uma vez com sol ou chuva, mas sempre contigo
e então com linhas e agulhas invisíveis costurar-te-ei um novo poema com as letras roubadas, ainda teu, mas feito do que não foi dito
ou foi
em segredo
guardado no fundo do som


.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

luto

meu pai cortou a pitangueira mágica. 

estou triste. há uma vida tenho comido magia embalada em vermelho. não importava o dia que olhasse para ela, havia uma pitanga grande e gorda esperando por mim. por mim, não pelos outros. ninguém via as pitangas fora de época e eu gostava de me exibir entre os galhos secos e perguntar à minha mãe se queria uma fruta. ela ria e eu levantava as mãos e arrancava uma pitanga pra ela.

os homens vieram. cortaram seus galhos e depois o tronco. eu estive na janela por muito tempo e não me importei de me verem chorar. as raízes por último. foram elas que obrigaram o corte. meu pai disse que as raízes estavam ofendendo a casa, penetravam-lhe por debaixo do alicerce, forçando-o. eu imaginava que raízes fortalecessem a casa, mas...

ouvi dizer que há árvores com raízes que buscam água por 30 metros. não é o caso das pitangueiras. e o meu quintal é na frente da casa. pitangueiras mágicas vencem facilmente dez, doze metros. talvez se esticasse até meu quarto. eu dormiria bem dividindo a cama com suas raízes. é uma cama de casal e estou sozinha há tanto tempo... dormiríamos molhadas e embrenhadas. talvez não precisasse mais buscar pitangas temporãs no pé. talvez na cova das axilas me nasceriam pitangas pela manhã. e nas orelhas surgiriam suculentos brincos. no banho, duas pitangas surpreendidas nos mamilos. e exibiria bochechas coradas, lábios sumarentos, olhos sempre acesos de desejo.

tenho certeza de que nunca mais comerei pitangas. mágicas ou não. a partir de hoje, as pitangas serão uma lembrança embalando desejos. mas não ao alcance de mãos e braços. o tempo da magia se extinguiu. e francamente não sei se tenho raízes capazes de buscar tão longe. trago-as tão retorcidas e comprimidas sobre si. enfim... acabou o tempo e as gotas de vermelho sugou-as a terra.

minha casa está salva.
eu, não.


.

figo

sonhos
de infrutescências
frescas:


se abre delicada
frágil figo fresco
à língua madura

procura
imersa em lilás

figura!


.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

verdade

espera
eu vou ali buscar uma verdade
uma verdade absurda é verdade
mas ainda assim uma verdade
girassólida e dourada
e ela virá vestida de idioma neutro
latim empedrado, talvez, pra suportar tanta leveza
talvez, friolandês pra refrescar esse ardor amarelo
de verdade assim recém colhida ali
vou ali e
já volto
num sopro trago essa verdade
todinha pra dentro do pulmão


.

deixe


[jean lecointre]



só os peixes morrem afogados


.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

onírico

pequenos poços
os poros
vertem sentidos
inscritos
na memória
da pele

superfície
lembrosa
de dedos
que vêm


.

a vida



a vida
acontece
no deserto

finíssimo
grão de areia


cercado por miragens

.

la vida

http://www.youtube.com/watch?v=LV7XKLXxpFs#t=139

.

vestida de chuva

primeiro
uma gota
seguida
de outras
seguidas
do risco
seguido
dos ris
      con
      tínu
       os
       de
      chu
       va
        !
 
exclamações de água
sulcando
a pele terra molhada
de cheiro
o asfalto
nos pés


a chuva
me veste
de aspas

agora ainda
nuvens
densas
em floração


.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

papel-máquina

desassossego
urtiguento no de-dentro
calorão de lua
cheia de janelas
mudas avenidas
vazias de ruas
sem saída
piscinas
de ar

veludoso
desassossego
urtigas mordiscando o corpo

hormônios vestem metáforas
pr'eu respirar


.


.

palavra em calda

receita doce de palavra em calda

ingredientes

1 ou 2 maços de parágrafos com orações e frases inter-caladas
1 xícara e meia de paciência e/ou amor
2 xícaras de atenção
1 pitada de respeito
   essência a gosto

modo de preparo

1. usando um recipiente não muito pequeno (para evitar acidentes) leve os parágrafos ao fogo baixo mexendo delicadamente até desempelotar toda a sintaxe;
2. mantenha o fogo aceso até que as conjunções e preposições derretam por completo, sempre com  muito cuidado para não queimar no fundo, ou nos lados;
3. apague o fogo;
4. acrescente a paciência e/ou amor e toda a atenção, aos poucos, junto com a pitada de respeito;
5. derrame-se toda a essência;
6. depois de tudo bem misturado, acenda novamente o fogo, mexendo sempre por mais algumas horas;
7. deixe esfriar, mas nunca completamente;
8. mergulhe as pontas dos dedos delicadamente e prove-os um a um;
9. mergulhe as mãos, com cuidado, lambendo-lhes toda a palma, a parte superior e os vãos dos dedos;
10. feche os olhos e sonhe.


.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

conto

no final
era uma vez
só mais um conto de fardas

mas as trasnparências
enganam


.

abismo

eu queria mais do que essa planitude de sentidos achatados, acamados na aridez de lençóis freiáticos levemente adunados num breve tremer luminoso de folhas
eu queria um

abismo
pra me arriscar

a perder

^ncora

.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

entre

deslizo por áreas asseadas de uma exposição fotográfica
cuidadosa armação de uma estética armada
elaborada imposição de imagens atravessando o tempo
deslizo pelo faz-de-conta sofrendo de impossibilidades
olho apenas
sem tocar as peças imóveis e sem vida
olho apenas com os olhos vulneráveis do poeta
o mundo
recriado em preto-e-branco
fronteiras visuais bem demarcadas sobre o plano
estratégico
do papel
impostura neutra atravessada por linhas de segurança
apontando com dedos retos o abismo intervalar
fenda
funda
limites
e polaridades

meus olhos de poeta pensam a ingenuidade desses traços
meu pensamento de poeta fareja rastros de terror e medo
meus pés de poeta desviam das fotografias uniformizadas
e descalços
deslizam pela sujeira das cores
expostas no mundo vivo
no mundo das pessoas
vivas que caminham pelas áreas asseadas da imposição
trasngressores
expondo
suas tintas mescladas à aquarela dos sons
seus olhos molhados de tons
lágrimas coloridas que diluem certezas
corpos que se arriscam no precipício entre o sim e o não
e mergulham no talvez de um par de olhos verdes
que se confunde com outros olhos verdes e outros
azuis que se agarram à infinitos marinhos ou céu, clarinho
e vermelhos que mudam de nome para ser magenta
escarlate, púrpura, amarelo, dourado, cyan, branco
ou preto: cinza
dálias indistintas
lábios & vulvas
tudo
se confunde
no corpo vivo
poesia dos deslimites do coro
do coração
da música que não acontece nos desvãos do branco-e-preto
das teclas mas também delas e da madeira marrom da cauda
e engrenagem cinza e dos fungos invisíveis e do ferrugem acre
e dos dedos cor de gente

e de beijos sujos
de batom
sujo de outros batons e ainda outros e outros
colorido infinito de desejos em trans posição
numa vida que se confunde com tudo que é
e não é
vida entrelaçada à morte e ao seu ínterim
útero

porque todos os nomes guardam
o primeiro nome
                comum
                e inacessível

porque todos os nomes nasceram

d'um grito
vermelho

.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

p&b

vaso delicado e raro
ao alcance das mãos
tua cabeça envolta
pelas linhas da vida
minha vida
emaranhada
aos nós dos teus cabelos
claros

claro
deixa os lábios tocarem
a música inaudível
do silêncio
num molhado de hortelã
deixa acender o fogo
faísca gelada escorrendo
enérgica pelas pernas
que tremem
       depois dançam

.

detalhe


as jabuticabas

não são
        maduras


.

best seller

quem
roubou
o meu queijo?


.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

cotidiano

eu tenho tentado comer alface, beber água, olhar pra cima à janela, ler algum livro sem bocejar, assistir novela com meus pais, sair de casa, ir ao cinema, ao supermercado, ao banco. eu tenho tentado matar o dragão, empunhar uma espada, cantar, beijar a lua, ouvir as estrelas, estar com pessoas, deixar as pessoas estarem, tenho tentado gostar de alguém, tenho tentado deixar que me amem, que me beijem, que conheçam meu corpo, tenho tentado acordar meu corpo, não usar esporas, cortar as unhas, aparar espinhos, tenho tentado tomar remédio, dormir nua, me embebedar, fumar maconha, não parar no meio do poema, escrever algo bonito, não escrever nada, não escrever cartas bestas, ficar longe, estar perto, não me render, me entregar, não me magoar com o piano dissonante empenhado em roer meus ouvidos. eu tenho tentado. algumas vezes consigo. outras, tenho tentado abandonar. não consegui. nenhuma vez.

.

Imany



.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

10 anos

Hilda, 

ao lado da tua, ergueremos a Casa da Lua e eu que nunca me fui farei-me loba, e dos meus gemidos tecerei uivos, do vazio, tácida espera, do meu quarto minguante, antes, plenitude e maré cheia... 

e viveremos juntas, irmãs siamesmas, dentro d'um grito trespassado por aguda flecha de silêncio...

e no quintal, junto aos cães, duas rosas, feridas de espinhos, plantadas num duplo uivo, profundo e de roldanas, lançado à lua de dentro.



.

jabuticabas

subo pés
e tronco
no alto teus olhos

duas jabuticabas
me olhando
gulosas


...



.

...



.

tauromaquia

as páginas vermelhas do meu livro-arena
são capas de toureiro
driblando os sentidos
investindo contra a bravura de um leitor
que não se intimida com giros circulares
dessa lide espanhola
encarnada no tango
o tempo se refaz a cada giro origem e
fim que recomeça e começo do meio
justa à ideia-desejo
diferindo-me
golpes
agitada no detrás para a frente e vice
verso que se emenda na encomenda
da tua palavra final
distorcida e esticada e m'espelhada
imagem que só tem lugar no intervalo
instante ampliado
neste para sempre
de dedos que não são ilusão do papel
e revidam a ordem
e buscam o caos de uma frágil memória
as páginas vermelhas dessa arena-livro
são a capa curtida
dourado escarlate
sudário de toureiro
sacrifício à tradição
de palmas e uivos
ao reso
luto
   uro
que
      o
ali
men
     
ta


.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

becos

ouvidos cegos
às vogais e ao murmurinho de lençóis e vielas

seguem

é impossível criar
sem algum tipo de limite


.

lí quem

nevoeiro dentro
lanterna vacilante
oleoso de digitais
no escuro
dessa tinta qu'es
corre em a
               casos

perguntaria
a quem sabe
quem és
quem sou

vulcãovalo
é só forma

geruza
é só nome o
culto
nas sombras
d'um quebra
cabeças
horizontal

perguntaria
se qualquer
resposta
bastasse
não
pergunto


.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

origami

absolutamente
não me importo com tuas mulheres
muito menos ainda com tua mulher
todas como eu
sem exceção: uma a uma nuas
estiradas sobre a mesa: seres
de papel
isógonas, polígonas ou poliglotas
ainda assim papel
papel de seda
papel crepom
papel manteiga
papel de pão
papel presente
papel vegetal
papel vergé
papel couchê
papel dobradura
papel reciclado
papel higiênico
papel sulfite
papel jornal
papel sem papel
nos papéis que lhes cabem no teatro
de tsurus amarrados há tantos anos
pelos pés e aos pés de um papelão
sim não me importa essas mulheres
as como eu
como a mim
papel de arroz
              doce
papel comestível
escrita em guache
inscrita na cana e no mel que devoras
senha secreta do teu livro por vir
e virá papel-nome
traçados-ângulos escher infinitos
escondendo a origem: origami
mulher desdesdesdobrável
poesia que antecede suporte
pássaro-suspiro que voa linda
imagem colada ao cérebro de dedos
beijo-penumbra na pele da pálpebra
não não me importo
com tuas mulheres
nem com tua mulher
como eu não há
papel impossível
de se esconder sem deixar rastros

acredita

os melhores esconderijos estão além mar
onde só é possível chegar numa garrafa
ou dentro
d'um papel cartão
                  postal

.

margens

margens

o poema só 
permite mergulhos

para voar
impreciso enfrentar

margens



.

encadernada

qual é a hora certa de sair
do livro?


.

mãos cheias

espera lenta
cadáveres silenciosos
aguardam sonolentos
o artista de mão-cheia
ocupado demais
com pás vazias

.

textura

a textura do papel
me faz sonhar
teu tato
porque é assim que te imagino
livro
ilustrado
páginas duplas
perturbando a leitura


.

impressão

pincelada forte
impressa no coração
monogâmico
monodrama
oleoso
repelindo água
nome em cyan
cintilando no céu
nonsense
da minha vida


.

almejando

eu quero
que venham
as grossas chuvas
acumuladas na estação
fortes fibras de piaçava d'água
varrendo e alvejando o betume do passado
os asfaltos de dentro separados por faixas de esparadrapo
brancos e amarelos tatuados do vermelho de dois corações
partidos
e rins
e fígados
e pulmões
corpos & cabeças
amor
em calda
e aos pedaços


.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

descalça

pés ainda
nos encharcados
d'um murmúrio-memória
e o terror de não temer raios
nem trovões:

esse jazz de pássaros
e gentes

.

peixe

o peixe
mora-me
dentro
apiranha-me
sentimentos
nada-me
alma funda
o peixe
deságua-me

sede

eu seca
seco
escamas
brilhante
no varal
o vento
voa
dentro
ainda
peixe


.


garganta

mas
por mais
que me agache
e me arraste rente
às pedras do chão
tua palavra
pousada à Altura
dos ombros
bicando orelhas
subindo escadas
para o canto
finíssimo
teu tom
perfura tímpano
e sagra o ouvido
sangue
deslizando
apenas
por outros
caminhos
curvaturas
ascendentes
destinadas
à garganta

é lá
que teu canto
canta
escalando lábios
envolto à saliva
cuspido à terra
colada à boca

minha horta
de papoulas
vermelhas


.



sábado, 1 de fevereiro de 2014

livro

abro
um livro
abro o livro
é o mesmo livro
é o único livro na prateleira de 200 metros
é o único livro que vejo na prateleira de 200 metros
é o único livro que me interessa na prateleira de 200 metros
[como assim prateleira? o que estou dizendo? deveria dizer na estante talvez]
abro-o à página 100
não há nada ali
apenas meus dedos
colados ao pé da página
e as palavras de uma história
que não me pertence
mas ainda assim
nos tocamos
mas ainda assim
nos sabemos
mas ainda assim
só temos
um ao outro

mas o que é isso que estou dizendo?


.