terça-feira, 7 de janeiro de 2014

tempestade no copo de vinho

pintei a boca de silêncio
lábios colados
velcro vermelho
língua serpente anunciando
cantos
mudos

haveria ainda tanto a dizer

mas deixo que as palavras
alimentem a boca-de-lobo
pálidas palavras sem cor
não me servem de nada
são só palavras
e agora sujas de sarjeta

bebo
mas não me consola
e nem me entristece
que só reste um dedo
no fundo da garrafa
também não me alegra
a parreira e os cachos
pensos de dias e horas
rubras

por que haveria de dizer?

rola a rolha d'uma garrafa
a nova voz ecoa no vazio
acorda as cartas, bilhetes
um gênio oriental

escuta: linda e justa troca
melhor poesia nunca diria
afinal nada há para ser dito

pintei a boca de silêncio
enguias em curto-circuito
pelos cantos
mudos

o mar é grande e as vezes a gente se perde mesmo no caminho de volta pra casa


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