quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

poema em forma de resenha

hoje eu parei o tempo pra ler uns textos novos. novos e chatos. não que não fossem bem escritos, muito pelo contrário, afinal eram - ops são! - textos bastante conservadores gramaticalmente falando. no entanto, chatos. tipo achatados como uma porta emperrada. promessa de voo que não decola. promessa que se trai antes da terceira linha. claro que o fato de serem chatos não significa que sejam ruins. acho até que são bons. e o bom é sempre bom pelo menos à medida que garante a segurança de uma certa mediocridade necessária pra manter a ordem e o status quo. enfim-enfim-enfim quem sou eu pra julgar essa nova escrita ou escrita nova a partir de uma reduzida produção de poemas e historinhas?

ainda mais com o agravante desse meu gosto tão particular e seletivo que só se rende a um número reduzidíssimo de escritores e, tirando uma coisa e outra, vomita na prosa de clarice lispector, nos malabarismos de rosa e joyce, patina de tédio com beckett e sente vergonha de tanta merda hilstiana? pois é, vai ver ela é boazinha mesmo e é pura birra de uma velha escritora ou uma escritora velha afinal... de qualquer forma o fato é que é nos textos que li - salvo alguns poemas, mas poemas são danados e quando a produção é limitada iludem a gente com penduricalhos faiscantes - senti que seria preciso aguentar muita chatice pra esbarrar num vão de inspiração.

eu só me atrevo a emitir esse julgamento porque escrevo bem, na verdade bem mais do que bem. escrevo textos ótimos. alguns ruins é verdade que são como os bons dela. mas outros lindos de morrer e que sinceramente não sei como saíram de mim tão rente à expressão que o originou. tenho certeza de que se, porventura, eu escrevesse poesia poderia ser uma grande poeta, ou quem sabe uma grande narradora. o fato é que não escrevo poesia ou prosa, mas tão somente cartas de amor disfarçadas de literatura. e é também isso que me dá a certeza de ser boa: eu engano bem. ninguém a não ser ele - e às vezes desconfio que nem mesmo ele - sabe que tudo que escrevo se destina. e que se alguma poesia emana desse processo é ela mesma quem se escreve porque de mim apenas a intensidade de um amor somado a uma espécie de obsessão escritural, uma doença das letras, um desvario, uma compulsão que me leva a escrever infinitamente sobre esse amor envolto em um par de imagens recorrentes. algo que me aproxima da hilda, do bolaño e d'ele - sendo que ele aqui é ele mesmo e não há outro por mais que sejam muitos.

enfim-enfim-enfim o que ficou muito claro pra mim é que pra escrever sem ser chato é imprescindível experiência - desta vida e de outras que ficaram coladas na retina astral. mas por experiência que não se entenda três ou quatro passamentos ruins, porque por eles todos nós passamos e eles são todos bem parecidos afinal: abuso, morte, vício, culpa, solidão, oquidão. não basta passar pela experiência, é mister que ela nos atravesse, que se finque como um bastão no peito da gente e bata como um tambor na toada do coração. é completamente dispensável escrever a experiência porque é ela que precisa nos dizer.

hoje eu perdi meu tempo lendo uns textos que já envelheceram. e, apesar do frio, não são vinho.

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