terça-feira, 14 de janeiro de 2014

moldura

a verdade é que eu só queria
que minhas tintas escorressem pelas beiradas
transbordassem a boca e minha pouca medida
que as cores se precipitassem logo para o chão
que é o lugar dessas minhas tintas
- se é que elas tem um lugar -
mas enfim que pudessem deslizar
livremente
para baixo
do tapete
do carpete
e lá permanecessem
em cores
cobertas de poeira

mas como me livrar da moldura me contendo
me enformando no quadrado desse quarto
me aprisionando no retângulo dessa cama
me enfurnando na circunferência desse hálito
pegajoso
como me livrar do bafo do tempo entalhado
nos vãos do poema

a verdade é que eu só queria
que minhas tintas pudessem gritar
antes da cor das cores s'espatifar
e se colar
e se calar
e se acomodar
à altura sem limite
                                   do chão


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