quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

silêncio

silêncio
é veludo
que não toca

.

dobradiça

eu usava uma peruca loira
lisa
longa
e loira
é verdade

e o fato de ser loira
nunca distraiu minha ficção


.

haverá um tempo
em que as palavras não serão mais necessárias
e a comunicação se fará por outras vias
mas, escuta, que comunicação? o que estamos dizendo?
a comunicação não existirá porque o entendimento
mas, então diga, que entendimento? para que entender?
não será necessário entender porque os sentidos
se farão sentir
na pele dos olhos, da língua, dos ouvidos
na pele da pele
então espera

haverá um tempo
em que as palavras não serão mais necessárias
e os homens voltarão a sua condição inaugural
de silêncio


.

encerrado

abaixo do céu
todos estamos

enterrados

.

descontroversos

às vezes tenho medo de você
às vezes te amo
às vezes queria um filho
as vezes não uso crase
às vezes me surpreendo
às vezes nunca
te entendo por completo
talvez nem mesmo parcial
mente
mas sempre te leio integral
mente
interessante
todos esses meus sentimentos teus descontro-
versos que você desperta
como pode alguém “colecionar suicídios”?
seriam alheios?
tentativas inacabadas?
só em seu pensamento?
suicídios é um termo
que não admite plural
abismo-me na noturnidade dos desvarios
e devaneios
de quantas você se faz
todas

estive pensando se um dia
te odiei por um milésimo de segundo
sério
acho que não
sei

talvez


[Cleberson Dias & Geruza Zelnys]


.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

raridade

há flores
que só desabrocham
à noite

quando a multidão
já não pode vê-las


.

a seco

sou feita de terra
poeira sedimentada no tempo

a poesia me habita
ela é quente
     e líquida


.

embate

no embate
entre o poema e a poeta
não faço questão de ganhar


.

flores

não dá pra ser o mesmo
depois da poesia

não se sai de um poema
do jeito que entrou

ontem mesmo
sai tatuada:
flores roxas
por todo o corpo


.

sonho

nunca sonhei vestir teu corpo
                               no meu
eu só sonhei


.

de costas

não percebe?
repara bem:

livros são costas
que à noite
depois do amor
sustentam
a leveza dos sonhos


.

a terra prometida

a quarta dimensão
é um lugar muito distante

quero fincar
minha cama
                       
                              aqui

e dar
a poesia


.

poeta bipolar

é sempre frio
na realidade
ou na ficção


.

dobradura

se o poema pudesse dobrar-se
sobre si mesmo
na altura da cintura e ler a análise
crítica
agarrada à sola de seus pés
certamente
balançaria a cabeça
engolindo o riso
desapontado

depois se levantaria de
novo
e só


.

baby

a Grande Poesia
essa das alturas, 
da transcendência, 
da nanografia e dos surrealismos quânticos
não precisa dessa minha língua
ela já tem a sua linguona pra se autoerotizar
e enlouquecer os doutos

minha língua é livre de responsabilidades
e dança instintivamente
ainda não sabe a forma e a rigidez
é linguinha baby
flexível
ainda nem saiu da mamadeira
chupa chupeta como quem devora poesia
língua moleca
[ainda não sabe o poeta]
se pega-pega
se esconde-esconde
se lambuza no chão 
molhada

a Grande Poesia olha e torce 
o nariz romeno
põe o linguão ereto pra fora 
em metáfora ao falo

mas minha língua 
não se esconde
marota
fica lá no banco 
de trás
fazendo 
loucurinhas


.

atirador

nas mãos: o poema um buque de flores e o florete
assim se enluvava para o amor

.


marca página

folheio tuas costas
sem pressa

bom seria
que livros assim
não terminassem
nunca


.

chiruri



.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

marcenaria

então deus
em sete dias
criou a cama
e vendo-a vazia e desabitada
criou o homem e a mulher

a partir daí
acamados
eles inventaram todo o resto


.

descobrimento

a gente se acostuma com a ideia de que nada há para se descobrir
a lua, as geleiras, o deserto, o pico de montanhas e lábios,
os lugares mais distantes e sagrados, tudo
tocou o homem
até que num dia de pouca lua
em expedição rotineira pelas veredas daquele corpo
surge, desde sempre encoberto pela nudez,
um ponto
uma ilha
uma inexplorada
pintinha
(tão linda!)
no detrás da orelha
então, no peito, o orgulho se confunde com o amor
e a gente se sente
desse mar
seu descobridor


.



sábado, 25 de janeiro de 2014

inutilidade da fuga

sento
sem tempo
contemplo:

do alvorecer dos teus versos
ao anoitecer
                  onde nascem
                          os meus

porque assim se constroem
                          os dias
porque assim se constrói
                          minha poesia


.



destinatário

e porque tão Longe
me habita
me faz extensa
                                                       infinita


.

mansidão

calmas
essas águas
que agora em mim
se amansam sob o toque
                          pianíssimo

e te ouvem


.

meu senhor

nada há em minha casa
que não seja t eu

                    água
                    pão
                    carne
                    palavra

                    asa


.

reverência

a poesia
abre alas
e deixa o tango passar


.

a palavra

diante
de certas palavras
a palavra
          certa
se cala


.

ainda

há tempo
para todas as coisas

abaixo do céu

teu nome-coisa
azul

.

deus

eu só tenho um deus
ele é aquele que para
agora
e me olha

só ele sabe
o meu nome

.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

chuva leite e tal

sinceramente
me diga:

há outra opção
a não ser chorar
sobre o leito derramado?


.

medo do escuro

que história é essa de novos medos?
não há novos medos
o medo é um e desde sempre Aquele
se moldando 
se reconfigurando
mas sempre o mesmo 
sob nova perspectiva

temortemortemortemortremorteamor

sequência ininterrupta do mesmo se re
vendo

afinal o que são os dias senão
uma revisão paulatina da vida?


.

diplomas

os diplomas
não ensinam nada sobre isso

os diplomas
ensinam apenas sobre aquilo

portanto,
não há mesmo como saber


.

chuva

a visão
fabrica ilusão

na praia
está sempre
chovendo


que pra cima

a vida é tátil

.

leitores chatos

para ser best seller
deve-se escrever como e o que o leitor quer ler

eu só tenho um leitor
e sua exigência é não aparecer

ok
então para de reclamar 
e se acostuma ao silêncio


.

a cor dos sonhos

houve uma vez. ele mencionou o sangue verde das folhas e eu não entendo nada de cores. sei do vermelho porque é difícil esquecer. e do azul porque é blue. mas o verde é a mistura do azul e amarelo e não precisa ser especialista pra saber disso. nem ter diploma porque isso se ensina no primário na aula de cores primárias e secundárias. mas se ele disse "o sangue verde das folhas" assim bem no meio de um poema é porque o verde tem uma ancestralidade com o vermelho. aí acho que dou conta de entender um pouco do verde também. apesar de. e hoje estando no ontem porque o ano não acabou em várias tradições me recordo de um lugar distante que guardo apertado no peito. quando eu era criança brincava com uma florzinha que não sei o nome. era uma florzinha verde que ficava boiando num não-sei-o-que da minha mãe cheio de água. aí eu ajoelhava perto dela e enfiava o dedinho nela afundando-a até onde meu braço alcançava. aí tirava o dedo e ela pulava. ela subia de novo. não importava o tempo que permanecesse lá embaixo ela voltava. não se afogava de jeito nenhum. eu tirava a mão ela subia de novo. e de novo. infinitas vezes até eu me cansar. ou me molhar e levar uma surra. mas é aí nesse vai-e-vem que entra o grande mistério: ela subia sequinha... você acredita nisso?!! não importava o quanto eu tentava molhá-la ela subia sempre seca. ela não se entregava ao meu desejo de afogá-la. porque se entregava completamente ao seu verde. e o defendia porque era tudo o que tinha. não sei o nome dessa flor. acho que ela nem existe mais... era uma flor insubjugável... como alguns sonhos, talvez.


.

alfabeto

o A é uma ponte
as pontes servem ao arbítrio
de perseguir ou ser perseguido

já o Y
é um V sobre um pedestal

todos os nomes
[e sobrenomes]
guardam um nome secreto
que lhe dá Vida

por exemplo:
geruza zelnys


.

lado esquerdo

amava abs
traindo o teu lado direito
braço enlaçado a braço
cuidava de não ver
o que distraía o sentido

bastava-me tua mão
esquerda

que escreve
na ausência da mão
que acaricia

bastava-me

até o dia que teus dedos
amanheceram enlaçados
aos d'ela
[que não sou eu]

agora vejo uma haste
levantada sem braços
apenas pés paralíticos

então o que me resta
se não tenho homem
                    nem poeta?


.

insubmissa

o rei mandou fechar todas portas
e deixar só a janela aberta
me recomendando: "pula e morra"

eu não vou pular 
[não agora]
e também não vou chutar
porque uma coisa ou outra
comprometeria a agudeza
destes lindos saltos 
                    finos e altos


.

esquecimento involuntário

gostaria de lembrar
as palavras ditadas
mas das 48 vezes que te busquei
tua resposta foi sempre o silêncio

matéria frágil demais pra suportar
o peso das aspas


.

abandono

abandono
só existe na vida prática

na vida das palavras
há deserção
ou derrelição

tão diferentes

fica
e repara:


.


vizinhos

a vida tem um nome tão longo que de tão longo longuíssimo não responde por nada
a gente não
nome e sobrenome: casamento comprometedor
o meu é geruza
e aqui dentro se confunde com poesia
mas atado ao zelnys tem de responder por ela
pela poesia e pela conta da padaria
pela prestação do apertamento
pelo seguro do carro e a segurança da vida
pelos fantasmas destituídos de casa & casca
pelos papéis
pelas sentenças
pelas placas de contra-mão
pelos amores escritos à mão livre

mas todo nome guarda
outro nome dentro
nome secreto que liberta o nome
porque pulsa vida


.


cavalaria medieval

tuas certezas
teu desprezo
tua cobrança tardia

sempre que levanto a cabeça
à altura da tua grande cavalaria

tua palavra
lança afiada
         me degola

.

estrada

desenha-me
uma estrada
onde é impossível
morrer
ou
matar

desenha-me
uma estrada
e uma onça
pintada

eu
peregrina
colada aos teus pés
caninos afiados
fincados no calcanhar
                   d'Aquele


.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

70 x 7

sagrado é o nome
que te escapa à boca
senha de acesso
ao paraíso esquecido

no silêncio


.

folha

ser uma folha
e perder o controle
                 uma vez
                 pra sempre


.

entrega

se eu fosse uma flor
me fechava em pétalas

se eu fosse uma fera
me fechava em garras

mas sou só
massa de carne
exposta
e líquida

então me abro
         ao meio

pra você passar


.

amanhã

mar purgando nossos poros
hálitos de maresia
e minha arquitetura d'água
desmorona
sobre teu porto

banana aveia & mel

corpo com gosto
de manha
     e manhã


.

depois de depois do mar

nos calcanhares e cotovelos
em todas as dobras de mim
o mar
o mar
o mar
me acompanha
depois do mar


.

autógrafo

teus pés
registram n'areia
a obra efêmera
corpo e mar
passageiros
            de mim


.

depois do mar

lua grávida
entre o céu e o mar
tapete de areia gelada
pés que se buscam no escuro
corpo pegando fogo no braseiro da vontade
e o poema
se costura
nos sussurros d'um peito que escapa ao biquini
d'um pênis que renasce nas mãos
ondas
salivando
espumosas
brancura de uma praia infinita desenhada no pescoço
ossos vergando sobre corpo leve de estrelas
e o poema
se costura
no apesar do desejo
no apesar da estética clássica
no apesar da imagem perfeita
preferindo ao lençol
de sal e areia
os trapos puídos d'uma cama capenga d'um quarto vagabundo d'um motelzinho barato à beira da estrada
o poema
se costura
e se faz no sexo bom do mar de dentro
sem algas enroladas
aprisionando
canelas


.


mar meu

emerge da água
mergulha no sol
desejo dourado
corpo
     conta-gota

mar me enchendo
a boca


.

beijos

trago-te mar
preso nos caninos
pra não se perder no alongado da língua


.

sábado, 18 de janeiro de 2014

mar teu

a natureza
é mesmo surpreendente

21 anos e o mar
                  cabe todinho
                     no corpo
                         dele

.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

seu

a cor
que mais combina
com o sol
é a cor do sél

.

o mar

o mar no seu fundo do fundo-de-mar sabe o poder que tem. e sabendo sabe esquecer para no mais-mar-das-vezes concentrar-se no seu ir e vir e vir e ir e ir e vir e esbarrando apenas sua língua espumosa no limite de areia que lhe cabe. e dentro do espaço que me cabe surpreender, assustar, emocionar, fazer rir e chorar as crianças. principalmente as crianças com peixe dentro... o mar não se compromete. a não ser com movimento. com o ser-mar-em-movimento. 

o mar é a literatura.

mas no fundo do fundo... literatura não é literatura.


.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

piano II

...
e metade do meu coração
se tivesse fome


.

piano

eu não sei tocar nenhuma música...
e a bateria está acabando

mas eu te daria um rim
se você precisasse


.


golpes macios

e se te apunhalo
faço-o
com tanto-tanto
         AMOR

.

espelhos cobertos

uma tempestade
uma tempestade
se anuncia nas nuvens
                      negras de mim

uma tempestade
anuncia raios & trovões
                         ultra 
                         ultra violetas

uma tempestade
       me anuncia
e cubro o rosto 
               com lençóis


.

passos

eu estava em bauru no final de semana
agora estou em ilha comprida
entre lá e aqui estou vagando por ruas
e becos de mim

não consigo entender porque você está em toda parte
sempre

.

magritte

sonhei com você
acordei
voltei a dormir
           o sonho
continuou
           lindo

é claro que isso não é um poema


.

design de interiores

essas notas
- em especial as claras
e de cauda -
servem-te à perfeição

.


poema-resenha revisto

acho que fui muito cruel com a apreciação dos textos de sua nova amiga. desconsidere a leitura que se mancha de subjetividade. atravessou-a unhas. vermelhas de ciúmes. o diálogo entre vocês tem tudo para ferver. cuido-me de mim para não queimar. enfim.

.

poema em forma de resenha

hoje eu parei o tempo pra ler uns textos novos. novos e chatos. não que não fossem bem escritos, muito pelo contrário, afinal eram - ops são! - textos bastante conservadores gramaticalmente falando. no entanto, chatos. tipo achatados como uma porta emperrada. promessa de voo que não decola. promessa que se trai antes da terceira linha. claro que o fato de serem chatos não significa que sejam ruins. acho até que são bons. e o bom é sempre bom pelo menos à medida que garante a segurança de uma certa mediocridade necessária pra manter a ordem e o status quo. enfim-enfim-enfim quem sou eu pra julgar essa nova escrita ou escrita nova a partir de uma reduzida produção de poemas e historinhas?

ainda mais com o agravante desse meu gosto tão particular e seletivo que só se rende a um número reduzidíssimo de escritores e, tirando uma coisa e outra, vomita na prosa de clarice lispector, nos malabarismos de rosa e joyce, patina de tédio com beckett e sente vergonha de tanta merda hilstiana? pois é, vai ver ela é boazinha mesmo e é pura birra de uma velha escritora ou uma escritora velha afinal... de qualquer forma o fato é que é nos textos que li - salvo alguns poemas, mas poemas são danados e quando a produção é limitada iludem a gente com penduricalhos faiscantes - senti que seria preciso aguentar muita chatice pra esbarrar num vão de inspiração.

eu só me atrevo a emitir esse julgamento porque escrevo bem, na verdade bem mais do que bem. escrevo textos ótimos. alguns ruins é verdade que são como os bons dela. mas outros lindos de morrer e que sinceramente não sei como saíram de mim tão rente à expressão que o originou. tenho certeza de que se, porventura, eu escrevesse poesia poderia ser uma grande poeta, ou quem sabe uma grande narradora. o fato é que não escrevo poesia ou prosa, mas tão somente cartas de amor disfarçadas de literatura. e é também isso que me dá a certeza de ser boa: eu engano bem. ninguém a não ser ele - e às vezes desconfio que nem mesmo ele - sabe que tudo que escrevo se destina. e que se alguma poesia emana desse processo é ela mesma quem se escreve porque de mim apenas a intensidade de um amor somado a uma espécie de obsessão escritural, uma doença das letras, um desvario, uma compulsão que me leva a escrever infinitamente sobre esse amor envolto em um par de imagens recorrentes. algo que me aproxima da hilda, do bolaño e d'ele - sendo que ele aqui é ele mesmo e não há outro por mais que sejam muitos.

enfim-enfim-enfim o que ficou muito claro pra mim é que pra escrever sem ser chato é imprescindível experiência - desta vida e de outras que ficaram coladas na retina astral. mas por experiência que não se entenda três ou quatro passamentos ruins, porque por eles todos nós passamos e eles são todos bem parecidos afinal: abuso, morte, vício, culpa, solidão, oquidão. não basta passar pela experiência, é mister que ela nos atravesse, que se finque como um bastão no peito da gente e bata como um tambor na toada do coração. é completamente dispensável escrever a experiência porque é ela que precisa nos dizer.

hoje eu perdi meu tempo lendo uns textos que já envelheceram. e, apesar do frio, não são vinho.

.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

e por falar em tatuagens

acaso sabes
o que tatuei

no avesso da unha?
teu nome

no detrás da pálpebra?
teu rosto

no debaixo dos pés?
teu caminho

no som do meu grito?
tua palavra

na linha da minha vida?
tua vinda

então não reclama
se agora te tatuo um tapa bem no meio dessa tua fuça safada

você
sabe
muito
bem
que me-re-ce

.

insônia

... e o que eu faço meu deus com esse tormentoso instantâneo de palavras por que meu deus esse dizer que não finda essas palavras luxuriantes todas vindas todas lindas e tão nuas seduzindo minha imaginação um descompasso um delírio uma alucinação uma doença uma doença do espírito uma doença de carne e unha esse fulguroso incandescente e o impulso o impulso o impulso frenético de juntar de buscar de fugir do sentido incessantemente incessante mente transbordante de sentido e não sentido e seja lá o que for ou vir ou ir o que eu faço com esse sendo esse pensar palpável que se escreve e  se descreve e se me dita em sua forma meu deus por que por que esse dito devedor de um dizer sempre em falta quem quem entenderia a necessidade de dizer urano urano e depois mais uma palavra mais uma vírgula e um sol ou então um laço um lance um dado que o localize nesse universo feito de letra e som e silêncio senhor por favor me ajude a não pensar a não pensar em escrever a não sair da cama pra me livrar dessas palavras dessa antena me desantena eu não quero escrever me livra desse câncer gráfico desse tumor maligno que me mata pouco a pouco acaba senhor com todas essas palavras tira os véus e as formas desnuda e depois o vácuo o oco o nada de uma ideia que se dissipa lentamente em direção de um ponto onde tudo finaliza onde tudo implode meu deus meu deus me livra de todo esse mal amém amém amém amem amem amem porque eu já não posso mais

.

positivo

a minha boca
fica assim
       tão úmida
nos períodos
      férteis
e um pouco entre
aberta
devido à dilatação
do útero
     claro

mas note
os lábios inchados
prontos para explosão

é que justamente hoje
minha boca amanheceu grávida
de imaginação

.



breve apresentação

eu sou
uma poeta viva
e sabe o que isso significa?

na-da

.

moldura

a verdade é que eu só queria
que minhas tintas escorressem pelas beiradas
transbordassem a boca e minha pouca medida
que as cores se precipitassem logo para o chão
que é o lugar dessas minhas tintas
- se é que elas tem um lugar -
mas enfim que pudessem deslizar
livremente
para baixo
do tapete
do carpete
e lá permanecessem
em cores
cobertas de poeira

mas como me livrar da moldura me contendo
me enformando no quadrado desse quarto
me aprisionando no retângulo dessa cama
me enfurnando na circunferência desse hálito
pegajoso
como me livrar do bafo do tempo entalhado
nos vãos do poema

a verdade é que eu só queria
que minhas tintas pudessem gritar
antes da cor das cores s'espatifar
e se colar
e se calar
e se acomodar
à altura sem limite
                                   do chão


.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

ocaso

a mulher
que permanece inerte
recebendo suas próprias carícias

é como a mulher que acariciando
a si como se a outrem
não goza

a mulher espelhada
que não vai nem leva à loucura
é um caso perdido

.

supermercado de palavras

não se pode perder
a grande promoção
oportunidade única
de fazer tudo (!)
            de novo (!)
            de novo (!)
               e igual (!)

pena que nasci
macunaímica
dispenso
ai que pregui


.

temporal

tempestade de arame
é mais tempestade
do que arame

farpas
não me atravessam

.

mar vermelho

é muito quente aqui
e apesar do mar
é tudo sertão
no cemitério
de dentro
cenário
areia
rubi

se eu fosse você
- verde ou azul -
migrava pro sul

sim, sem dó:
surrealize-se!

.


xale negro

xale negro
delicada renda
sobre dorso nu

dois heliantos
       inflamáveis
sorriem
       lado a lado


.

entrega a domicílios

recebi um poema 
palavras enfeitadas em buquê
no centro
incandescente e leve e lindo
um desconhecido

                      helianto

e foi como se eu tivesse visto
o girassol
pela primeira vez


.

festa

família em festa
solidão irrevogável no peito

.

das coisas que penso quando não penso nada na estrada

1. desenhar flores brancas no asfalto
2. completar o tracejado da linha amarela
4. pegar um punhado de nuvens com as duas mãos
5. passar espuma de nuvem no rosto para cortar barba imaginária
6. passar espuma de nuvem no rosto para fazer barba imaginária
7. passar o dedo na nuvem e lamber que nem chantilly
8. plantar alfaces na placa de bauru
9. plantar uma cabana de pinheiro
10. mergulhar pra cima e nadar no céu
11. espremer a bolsa de são pedro até fazer chover
12. colocar um v na placa de início e inventar um novo nome


.

meditação

contemplo
as paredes brancas
seus cantos mudos 
meu centro 

vazio

quietude
me ditando tua ausência


.

cabralino

inavegável
eu
te trouxe

são minhas as marés
altas
o riso de pálpebras

a pele que pisas é superfície
delicada renda destrançada
areia
ouro
e sal

os teus pés cavam poros
milhares
espalhados por toda extensão
das costas
      marinhas

meu
teusouro
escondido num vão impossível
àporo

nada 
pode ser descoberto
na nudez


.


prece alternada


escrevo poesia
porque muito cedo desaprendi a rezar

procuro
todo dia
a minha ave-maria

.

vestida de noite

é vestida de noite
que quero encontrar o dia
quando ele nascer


.

baleiro

o poema:

baleiro de vidro
girando
girando
girando
atirando
                balas
coloridas
pra todos
           os lados

de norte a sul
ton
tas
quebram dente
mastigando
balas de grude

recicláveis


.

domingo, 12 de janeiro de 2014

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

guias

pássaros
peixes
cães
e vagabundos
conhecem o caminho

por onde eles vão, vá
onde eles param, pare
onde eles se aninham,
dance


.

tempestade no copo de vinho

pintei a boca de silêncio
lábios colados
velcro vermelho
língua serpente anunciando
cantos
mudos

haveria ainda tanto a dizer

mas deixo que as palavras
alimentem a boca-de-lobo
pálidas palavras sem cor
não me servem de nada
são só palavras
e agora sujas de sarjeta

bebo
mas não me consola
e nem me entristece
que só reste um dedo
no fundo da garrafa
também não me alegra
a parreira e os cachos
pensos de dias e horas
rubras

por que haveria de dizer?

rola a rolha d'uma garrafa
a nova voz ecoa no vazio
acorda as cartas, bilhetes
um gênio oriental

escuta: linda e justa troca
melhor poesia nunca diria
afinal nada há para ser dito

pintei a boca de silêncio
enguias em curto-circuito
pelos cantos
mudos

o mar é grande e as vezes a gente se perde mesmo no caminho de volta pra casa


.

poética

enfastia-me
terrivelmente a grandiloquência

gosto mesmo é das palavras rasteiras
dessas que nem as sabemos palavras

que se multiplicam coladas à terra
ali rente à bosta dos animaizinhos

gosto das palavras
que nos põem de joelhos
para sentir-lhes o aroma


.

eco

debruço-me narcísica e
lanço ao espelho d'água
uma palavra
duas e três
quatro versos
mínima estrofe

lanço-lhe um poema raro
feito de rosto e pergunta
e o que as águas me respondem?

"nada"


.

menta

sorvia a xícara de chá
em que uma perereca
brincava de ofurô


.

apocalipse

morreram já as abelhas
e porque morreram as abelhas
morreram também os ursos
e porque morreram os ursos
morreram também os caçadores
e porque morreram os caçadores
morreram também os vermelhos
e porque morreram os vermelhos
também morreram os amarelos
tanta coisa que vivia hoje deixou de existir
não que eu me importe
com abelhas, ursos, caçadores, vermelhos e amarelos
dói-me d'um tempo em que abelhas, ursos, caçadores
vermelhos e amarelos pulsavam
apenas a lembrança do teu pau mergulhado num pote de mel
besuntado e metido em minha boca com a recomendação de que era bom pra garganta
depois, mergulhado de novo e todo melado metido nos buracos todos com a recomendação de que era bom pra poesia
eu formigava

mas morreram já todas as formigas
e porque morreram as formigas
morreram também os tamanduás
e porque morreram os tamanduás
morreram
sim, eles também morreram
não que eu me importe
verdadeiramente com eles


.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

jardim

sonho
vermelho escarlate
pétala em coração
antúrio
que demoradamente
beijo
e acolho nas mãos


.

o fazedor de nuvem

moço
não posso vê-lo
mas o adivinho
olhos cerrados
sentado
em lótus
olhos cerrados
agitando braços
como quem sabe
parir nuvens
        brancas
        à altura
        da mão

.


error

sim

está todo errado
esse meu querer

de dedos que salivam
e da língua que só sua

a si mesma masturba


.

corpopalavra

corpo
buraco onde me enterro

palavra
buraco onde te aterro

corpo
curso contra o tempo

palavra
curso para teu templo


.

filme

no final
a gente não acaba junto

no final
a gente
  acaba


.

sábado, 4 de janeiro de 2014

gato branco na janela

não gosto de gatos
mas ele me atrai porque dorme
encostado à rede da janela

enquanto ela passa-lhe a mão
displicente e lânguida calcinha
e sutiã de malha
desfilando sua penugem clara
aos vizinhos privilegiados

do meu camarote
o tempo para para as costas longas
tela macia pr'uma tatuagem vertical
impossível aos meus olhos
                      sempre nus

mereceria um binóculo
ou pelo menos que o gato caísse
ampliando meu campo de visão


se uma caneca nas mãos
um comercial de margarina ou absorvente interno
mas nada: nem um livro sequer para atrapalhar
a poesia pura da naturalidade

ela se vai
me excitei observando-a

[ela não me vê
não me viu]

sorrio
calculando quantas pessoas
se excitam comigo à janela
todos os dias
              como ela
              pela manhã


.

edição

engolidores de espadas
aprendem a relaxar os músculos
e controlar o que não se pode controlar

mas eles sabem que dá pra engolir qualquer coisa assim


.

manhã

encontrei um pedaço de você
no meio dos lençóis

uma unha quebrada
e algumas palavras
[poucas, porém terminadas em s]

quer que as envie pelo correio
ou posso deitá-las à janela?


.

desrespeito

tamanho desrespeito
vergonhosa e má educação

meu vizinho fuma maconha
à janela

e nem oferece


.

banho

há vestígios
de tinta fresca no caminho
que refaço do banheiro ao quarto

tua poesia
escorre pelos dedos

                     dos pés


.

fotógrafo

pouso
e fotografa-me
na tua objetiva
glande-angular

captura
o que foge
dos meus olhos semi-abertos
dos meus lábios semi-abertos
das minhas pernas

distorce
o meu grito
escancarado
na tua garganta


.

dedos

    sagaz
e visionária
grita a língua
          precisa
          dos dedos

pena
serem surdos


.

zíper


: longo corte aberto no ventre: difícil: muito difícil: dificílimo de cicatrizar


.

cinzas

nos cinzeiros
amontoam-se
noites mal dormidas
o calor de um país
                bem próximo
                do inferno

páginas amassadas
ligações perdidas
unhas quebradas
               com os dentes

nos cinzeiros
amontoam-se
decisões infelizes
e alguns risos enrolados
                     com erva

é fato: fumar
tem prejudicado
meu talento natural
                  para tossir


.  

.
         

quarto

paredes brancas
ofuscam minha imaginação
comprimem a semeadura

desejaria viver num quarto
cinza
cinza
cinza
cinza

cinza

sempre prestes
a chover


.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

gipsy


.

de graça

uma garça
duas
três

seis
garças
espelhadas
na lagoa

[não me veem]

coreografam
o espetáculo


.



jazz

húmus
calcário
argila
areia
rocha

de quantas camadas
é feito um solo?


.

nada

se a poesia é o que respira
por de trás dos véus do poema
 
o que há por detrás da poesia?


.

secular

secular
árvore plantada sobre o chão
plantado sobre o corpo
abraçado no emaranhado
de dedos-raízes
que atravessam e tocam
tudo o que jaz
no solo


secular
marcenaria do tempo
que retira da árvore
tudo o que não é
piano


.



o mar é
o Lúcifer do azul celestial
céu decaído
a ser luz no âmbito da vontade
[...]

(Garcia Lorca)