quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

túnel

recorro
às lembranças
derramadas no caminho
no encalço dos meus pés
traço-trilha desenhando revés
estrada compartilhada à mão-dupla

recorro
às migalhas
tempo sobreposto
transparências sobre o solo
arenoso deserto exposto ao vento
cápsulas de comprimidas desvivências

recorro
às linhas férreas
do nosso livro não escrito
na ferrovia do pensamento
descarrilado no colo-algodão
doce a espera de quem nunca
                                        nunca
                                           nunca
                                              chega

na hora marcada
       no relógio parado
              no terminal-estação
                        invernoso inverso
                                 rigoroso retorno


amantes saturnais
eclipsados nos becos da poesia
andarilhos estáticos na gare d'um poema
de madrugada fria com garoa e som de sax

recorro
aos ruídos
locomotores
ao nome-chave
entrelinhas do trem

e todo percurso se faz sentido
nos descaminhos transcorridos

nossos pés
carris paralelos
desdenhando meu destino
teu túnel no de-dentro atravessa o jardim


.

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