quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

sombras

deixo a porta no meu detrás
e saio pela noite
colhendo sombras

nos canteiros longos da avenida retiro silhuetas negras de edifícios, de postes,
e de galhos secos que já foram árvores

a silhueta rara de um solitário saxofonista encostado na parede descascada
e o contorno da lua cheia em enorme círculo distraído na geometria de uma música triste

[no asfalto um gato ágil não me permite capturá
-lo]

tomo as sombras
todas que posso delicadamente do solo
então dobro-as com cuidado e sobreponho uma a outra na maleta
com uma folha fina de papel vegetal entre elas

pretendo plantá-las um dia
não sei bem onde: talvez no meu quarto, talvez no meu de-dentro

não sei
mas gosto delas e me distraio durante o dia
vestindo-as sobre minha pele nua
eu uma mulher trajando um prédio de 20 andares
ou um solo triste de midnight sax
uma mulher gato em lua de festa
brinco de ser de dia minhas noites
solitárias

pretendo um dia ter meu jardim de sombras

porque as sombras me ensinam o corpo da escuridão


.


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