sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

blue jasmine

não me lembro de um filme do woody allen que tivesse me deixado tão abalada quanto esse que acabo de ver... engraçado porque nem sei se era pra tanto mas... talvez sim... eu sai da sala e fui ao banheiro e lá fiquei um montão de tempo chorando até a mulher da limpeza empurrar a porta e me pagar sentada na tampa da privada... porque nunca fecho a porta do banheiro... tenho medo de ficar presa e ter de lutar com o cinto de segurança e também por causa do fogo acho que por tudo isso eu resolvi nunca mais fechar as portas... não sei bem porque to dizendo isso que não tem nada a ver com o que eu vi hoje era apenas um filme com a cate blanchet e ela é tão linda que dói demais na gente... acho que a beleza dela dói por causa da força como são frágeis as pessoas fortes as pessoas fortes são frágeis demais... e então a mulher da limpeza empurrou a porta e me viu chorando e pediu desculpa e fez que não viu porque é tão polido isso de não se meter na vida dos outros até a mulher da limpeza sabe disso não é bom se meter com a sujeira alheia com a privada alheia e depois a gente vê os suicídios na tv e não entende... ah dá uma canseira na gente essa coisa de filmes bons que eu nem saberia explicar porque ele me mexeu tanto... teve uma hora que o homem disse vamos parar com isso não vamos falar sobre isso pra não acordar o cão e eu to agora com isso na cabeça tentando não falar alto pra não acordar o cão... mas eu to sozinha e eu posso até gritar que ninguém vai se incomodar ou pelo menos ninguém vai se dar ao trabalho de ter o trabalho de ver se algo está acontecendo no 817 se a janela tá aberta ou tá fechada porque isso seria se meter na vida alheia mas se alguém porventura ou pura aventura se importasse e me perguntasse oi garota como você está eu diria que bem muito bem afinal o sol das 22h é mesmo tão amarelo e então sorriríamos polidos um para o outro fecharíamos as cortinas e cada um iria tomar seu copo de veneno... eu roubei uma cerveja da geladeira de alguma das meninas que vivem comigo vivem na mesma casa mas nossos quartos ficam muito distantes no mapa são quilômetros e não compensa fazer o trajeto a pé... a cate blanchett disse uma hora que as pessoas aguentam um certo número de traumas antes de sair pra rua e gritar... acho que porque a rua é o espaço público e ninguém quer sair à rua e sujar a rua com suas privadas... com suas histórias privadas... eu sai do cinema com uma frase na cabeça afinal quando quando eu deixei que a solidão se instalasse dentro de mim desse jeito? quando ela se introduziu no meu peito e se aconchegou de uma certa forma que não consigo mais localizá-la e arrancá-la de dentro de mim... também não sei se quero arrancar essa solidão ou essa dor porque... porque... é difícil admitir mas eu acho que é porque é a única coisa que eu tenho de verdade... eu não sei o que vai ser de mim... é não sei... a léia me disse pra ir na igreja dela... a léia é a garota com quem conversei na saída do cinema... ela estava com um grupo segurando um cartaz escrito "você quer conversar?" e havia duas cadeiras... eu nunca pensei que um dia eu teria de parar para conversar com um desconhecido e então eu chorei e ela se preocupou... parecia que ela nunca tinha realizado aquele serviço de verdade porque ela se espantou e para mim era mesmo uma tábua de salvação porque eu estava tocada com o filme e precisava chorar o resto do choro que a mulher da limpeza do banheiro me roubou... então eu disse pra ela que não sabia quando a solidão havia se instalado no meu peito... e ela me perguntou da família dos amigos e eu disse que tinha tudo isso mas que não era isso era uma solidão crônica um desconcerto uma qualquer coisa de inapreensível, de irreparável, de irretocável palavra bonita que você usou uma vez... coitada eu não devia ter parado ali e não devia ter sido franca porque todo mundo que parava tava rindo... pelo menos todo mundo que parava tava vivendo uma sexta-feira à noite na paulista... só eu estava morrendo me derramando pela avenida me desfazendo de tanta roupa e maquiagem... eu queria que ela me levasse pra casa e me talvez fizesse amor comigo e depois disso talvez eu frequentasse a igreja dela porque a igreja é no paraíso e é tão perto daqui apesar de impossível... é mentira eu não queria fazer amor com ela eu só queria fazer amor com você porque você é a única pessoa com quem consigo conversar com quem consigo ser eu mesma em cada disparidade da minha personalidade e são tantas e você as conhece só não sabe que são de verdade pensa que são feitas de palavra e poesia... eu acho que sou a cate blanchett falando sozinha conversando consigo mesma inventando uma alteridade sim acho que sim acho que você nunca esteve aí de verdade acho que eu inventei isso pra mim... eu não queria estar enlouquecendo mas estou... eu sei que estou e acho que não tem mais volta ninguém sabe ninguém percebe porque polidamente acreditam que tudo isso é ficção mas você sabe você sabe que eu só inventei isso de escrever pra falar com você pra estar próxima de você porque você é parte da minha promessa que eu não sei qual é mas você está no meu corpo astral... eu estive muito doente... ainda estou e não sei se vou me recuperar do que ainda ninguém sabe o que é... e cada verso cada palavra é um esforço descomunal para estar ao seu lado para não ser esquecida... você sabe porque pode ver como tenho escrito mal... como tenho me esforçado pra conseguir acabar um poema... você é a única pessoa que sabe tudo de mim e um dia vai entender o tamanho do que fiz para estar ao seu lado... eu transformei toda a minha verdade em verossimilhança para me comunicar com você... eu não tenho mais verdade... entende o que isso significa? eu não tenho mais a verdade porque toda ela está aqui  sob o jugo dos outros exposta vestida de verossímel pronta pra ser julgada esteticamente com a máscara da literatura... mas eu nunca fui poeta... antes eu me tornei só pra estar perto de você... se isso não é amor então eu me rendo à loucura...

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