terça-feira, 31 de dezembro de 2013

me perdoe

me perdoe
se te amei 
        tanto

todos
os dias
todo o ano
me perdoe
se te amei

prometo
mudar isso
amanhã

por enquanto
me perdoe
      se te amo


.

poema número 1

se eu te amo?

eu só te amo.


.

piano

procuro no piano
mudo seu tom

silêncio

você se lembra que
lá em cima do piano
tem um copo
             de veneno?

silêncio

toca-me
ou bebo


.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

anfíbia

delicada é a mão que me fura
três pequenos pontos
queimados de incenso
pequeno triângulo no ombro
esquerdo

sangue misturado à fumaça
ela deita a massa sobre a ferida
no murmúrio de rezas e orações

os fatos terminam aí

o que começa é um corpo
caleidoscópico
inexprimível em palavras


.

madureza

aproveita o tempo
das palavras doces
daspalavras no ponto-de-quase
delas assim em delicados carmesins

que preclaro e raro se faz o tempo
do por vir
do passo impulso
da batida à porta
do alô ao telefone
da gota que anuncia a tempestade

depois a madureza fixa
seu púrpura mais puro
encouraçado no ser em si que só
a si se basta
na suspensão de um tempo total
dentro da mais efêmera brevidade

eternuridade
é o nome desse tempo
que o agora
já em mim
    me faz

.

fruição

geme

um bandolim
atravessado por sete pássaros
de ouro

com quatro cordas
amarradas ao pescoço


.

deslocada

atormentada pelos ruídos da rua
apertava duas grandes conchas
rente aos ouvidos

no som espiralado
a melodia de casa
aquietava
escamas

e mergulhava
longa cauda entre lençóis
azuis


.

certas coisas


certas coisas
tão erradas
na minha vida


.

certas questões

regressa
não é tempo de derrubar impérios

deixa intacta a peça de xadrez

monta teu cavalo
risca a neve

deita teu corpo
        e coração

espera a estação

ela sabe o tempo
das folhas
e dos trens


.

confia

animal
seguro
na mão
firme
força grade
        de dedos
        depois
        se aninha

cansados

.


bala

leve planar de dedos
sobre tez aveludada

cheiro suave de terra
secura da boca sede
de peitos surfando a
alta maré

lua
tua bunda e a minha
morena
nua

decolo
    hálito
alaska

todos lugares são céus

pés
pequenos
encurtam o caminho


.

sábado, 28 de dezembro de 2013

local

não é meu estômago
       que rosna sua falta
não é meu sexo
       que lateja essa súplica

são os meus neurônios

os meus neurônios
tremem com fome e sede
de você


.




juízo final

retraída face
boschiniana expressão
                    de horror

minúsculos dentes
contemplando a nudez
                    da paixão

a recusa ao meu amor
a recusa à amizade
a proibição aos meus pés
            [que te seguiam]

gritam-me em silêncio:
vadia


.


viagem

viagem interdita
num trançado de ocos
teus vazios de vãos
teu corpo-couraça

violenta perversão
d'um caminhar
infinito que me leva
a lugar nenhum


.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

verão

e se da minha boca
ainda só conheces a palavra
saiba que ela saliva
aguada

da tua boca
não conheço nada
além do que inunda a língua
cospe
então

tuas palavras secas
sobre a palma suada da mão
e molha

mas não escreva
não, não escreva

toca apenas teu sax

toca sem pressa
        à mão livre
a origem pulsante de toda ideia


.

encarnação do verbo

não diga nada
apenas
abra a tua boca

e receba isso que em mim se faz mistério
gozoso

não diga nada
apenas
abra a tua boca


.

impossibilidade

impossibilidade do poeta
manter fechada
a arca da boca
conter a serpente
             de versos
                    que
deslizam
deixando a mata
e rastejam para a mata


.

lua

vivo
dentro d'um grito
trespassado
pela flecha do silêncio

rosa-ferida
plantada no uivo
lançado
à lua de dentro


.

te pensei II

te pensei corpo
e não cadeira vazia entre as gentes
te pensei palavra
e não silêncio agudo entre dentes
te pensei prensado
apertado num abraço de pernas
agudeza de investida
corpo-palavra
eco-emoção

te pensei aguada de ideias
molhando o lençol
com meu suspiro
fundo


.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

porque respiro

o que pode o tempo?
o que pode o espaço?

se eles se diluem
            no ritmo
d'uma respiração
           conjunta


.

meia-noite

meus planos
de estourar um cigarro
e tragar a taça espumante
é meu modo
silencioso de comemorar
                    tua presença
                           distante


.

ceia

seios
aguardam
         lábios

teus

.

festa

visto-me de festa
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
aguardo
  tua vinda

.

mel

todas as manhãs
o Poeta
toma uma colher de mel

lambe-a com vagar
cuidando para adoçar
toda a extensão da língua
e a abóboda do céu da boca

entre os dentes
abelhas atentas
aguardam com seus ferrões embainhados


.

ficções

no muito alto
uma gaiola
rente à parede
finge pertencer à Altura

solitária e triste
uma maçã
equilibra-se
no poleiro

fingindo também


.

Vida

apesar desse eu-quase que sou
palha
fiapo
lasca
retalho
gota

abatida e gasta de coronhadas
teus punhos fechados sobre mim
mínima

ainda assim
é no teu colo, Vida
que deito minha cabeça
fecho os olhos cansados e sonho

como se...


.

vontade

sei
vou morrer aguada
dos mares
das chuvas
dos poços
e dos desejos

que inventei


.

te penso

nos vãos
   da evidência
       dos cálculos
           das equações
                da matemática
tua presença-ausência
prova inquestionável
de pura
poesia


.

[fnpvvqeoma]

.


RECEITA DE SONHO POLVILHADO

mergulha teus sonhos num balde d'água
afunda-os até encharcar do meio às pontas
estenda-os para quarar em orvalho e ouro
enxague-os numa infusão de alfazemas 

então, ainda úmidos, enrole-os nos pés
e saia caminhando
no ritmo da tua hora


quem disse que lugar de sonhos é na cabeça?



.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013


VI


VI

Se mil anos vivesse
Mil anos te tomaria.
Tu.
E tua cara fria.

Teu recesso.
Teu encostar-se
Às duras paredes
De tua sede.

Teu vício de palavras.
Teu silêncio de facas.
As nuas molduras
De tua alma.

Teu magro corpo
De pensadas asas.
Meu verso cobrindo
Inocências passadas.
Tuas.

Imagina-te a mim
A teu lado inocente
A mim, e a essa mistura
De piedosa, erudita, vadia
E tão indiferente.

Tu sabes.
Poeta buscando altura
Nas tuas coxas frias.

Se eu vivesse mil anos
Suportaria
Teu a ti procurar-se.
Te tomaria, Meu Deus,
Tuas luzes. Teu contraste.


©Hilda Hilst
In Poemas Malditos Gozosos e Devotos, 1984

domingo, 22 de dezembro de 2013

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

chão

não confia:
a Altura está sempre pronta a trair

confia no Chão:
ele suporta o peso de teus passos
ouve os lamentos dos teus rastros
os suspiros prevendo o em-frente
o chão não pode cair
           não pode derrubar
o chão nunca vai trair

o Chão é mudo


.


entorno

exaustiva
escalada
de uma montanha
plana

girar aleatório
sem garantia
se
se sobe
se
se desce

pés
estáticos
contemplam

topo
impossível


.

bifurcações

engole isso
que em mim
            mar
            não
            me
        contenho

.

encontro de marés

estranho mar o teu
onda-espuma

língua-saliva
que me lambe

que me lava     

que me suja
             de mundo


.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

expectativa

ninguém precisa mais esperar por nada:
nem quem vende
nem quem compra
engole o desejo a satisfação

findou-se
o tempo
da espera

apenas o Amor
se mantém
                                                    
em expectativa


.


passos

caminho
       sem pressa
               porque sei
                         exatamente
                                   onde você está
                                                   no meu futuro


.

bukowski

das grades d'uma sintaxe retorcida 
o pássaro azul 
do bukowski escapou 
                         e pleno de poesia
pousou seu voo 
nos galhos retorcidos 
do meu corpo-raiz 

pássaro sem cor 
pássaro sem canto 
na gaiola do mundo 


[com Nicholas & Matheus]


.

carta aos anfíbios

a.
Surpreso a quanta terra
não me pertence, que
engraçado descobrir (mais
uma vez) que trocar de país
não significa trocar de corpo
e a mudança
de língua
é acompanhada pela permanência
da produção da
mesma saliva.

b.
esta ilegalidade do meu corpo
desaloja-me a comida no
estômago
que permanece em ângulo
suspeito, a boca
arqueia-se, tesa -
e o barbante frouxo dos braços
a nenhum peito estreita-me,
esta pele estrangeira,
este cheiro novo.

c.
a certeza finalmente
de que a mão é incapaz
da linha reta,
os ouvidos mais atentos,
as pontas dos dedos
mais ativas, despertas,
os ombros caídos, menos
por cansaço que por pesos
acumulados ao longo
de outros sonos;
quando as noções
de segurança
e cidadania
desaparecem e resta-nos
a condição.

(Ricardo Domeneck - 'Carta aos anfíbios')

peregrino

pássaro peregrino
o que tens para me contar?


.

paciência

toda travessia
só se completa na noite


.

metamorfose

de rainha à serva
de fada à bruxa
de asa à lagartixa

caminho entre mundos
com o instrumento mágico de transmutação
segredado nos dedos

metáforas
protegidas por unhas


.

angelus novus

queres conhecer se meu pássaro é real?
procura a trilha
           de penas azuis
                        planadas no mar
                                      segue-as rumo
                                                     à ondulante
                                                                 linha-horizonte

asas abertas: meu pássaro aguarda conhecer tua realidade
confiadas
à tua vinda


.




magritte

no olho do mundo
o globo
repleto de pássaros
protege amoroso
delicada e incerta
rosa-dos-ventos

pupila
poupa
papiro
movimento


.


frontispício

espelhos cruzados
em alto frontispício

olhos que os olhos
adentram
rumo a si mesmos


.


pássaro-guia

pássaro-guia
me mostra teus vales de dentro
pontilhando sombras nas fronteiras do alto
imaginário, pássaro-guia
me conta teus ventos de dentro
ressalgando com a maresia a crista do mar
aberto, pássaro-guia
me imprime tuas penas de dentro
desenhando em voos panorâmicos a alma
rasante, pássaro
                    guia meu caminho
                                          alado
                                                ao teu lado

                                                 em serena
                                                  revoada


.

ombros

se meu amor tivesse
asas
pousaria-as
sem pressa
sobre teus ombros

descansaria
sobre ele o peso
dos dias calados

e sopraria
à altura dos ouvidos
um silêncio de amor

vento afiado cortando lascas de ossos

se meu amor tivesse
asas
pousaria-as
sem pressa
sobre teus ombros


.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

dansando

dansa
deveria ser grafada
assim em s

não é necessário
explicar o sentido
               da mudansa


.

jovens

no metrô
a adolescente ruiva
abre-me um sorriso
                 metálico

prefácio à língua
                 impossível
                      dos jovens


.


mansa

substância mansa
meu desejo
domesticado

a língua sentada
sobre o rabo
observa o mundo
pelas grades
         dos dentes


.

ponto

bolear o pão
co'as duas mãos
em movimentos
         para frente
para trás
encontrando
 o ponto
no ponto

minha vida
consumida
artesanalmente


.

herdade

minha língua
se adapta
à variedade

mas preza
a  herdade


.

embriaguez

na pisa
os pés
embebedam
a boca
   seca


.

lar

telescópio
triste à janela
procura tua alma
vestida de corpo
                estelar


.

céu

o céu desaba
soterrando a terra


.

balão

colorido e lindo
balão
no céu suspenso
anuncia incêndio

todos aplaudem


.

mente tranquila

tranquilamente
ando
enlouquecendo

um pouco por dia

todos os dias
tranquilamente

.

destinado

                           prego
                emprego
desemprego
                           prego

previsão 2014

vidente vesga
lança olhar dissimétrico
ao futuro
ampliando possibilidades
inclusive
díspares



.

sábado, 14 de dezembro de 2013

brigada militar

incauta
mordi uma palavra tua
                        dura
dessas de quebrar dente
me
partiu ao meio
quebrou a coroa
abriu um sulco fundo
cavou a raiz agora exposta
na gengiva

lateja
lateja
lateja

minhas palavras
posicionam-se estratégicas
nos caninos
e aguardam
ordens da boca
para o contra-ataque


.

alma minha

alma minha
senta aqui e sorve comigo
esse vinho que me venta os cabelos
licoroso éter sobre a pele que reveste meus pelos

alma minha
enlaça-me os braços
dança comigo o turbilhão de veneno
incorformado à velocidades dos giros do tempo


alma minha
prova do gosto da papoula
não poupa os pés do chão pisa no sereno
molhada é a noite que desaba sobre o peito do dia

alma minha

não se tranca
alma minha

exterioriza tua vinda


.

sina

procurar
procurar
e nunca encontrar
o tempo
perdido

no mal-entendido


.

convite

eu tenho uma garrafa
de amor
na geladeira

safra antiga
aguardando
o momento especial
pra ser aberta

sinto que esse momento
                         é você






.

leque

as palavras
se abrem como um leque
entre meus dedos: tenho-as todas à mão

abano-as


.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

arbítrio

a vida quer que eu morra
mas a morte não

a morte quer
a minha vida


.

sálvias

eu já fui vermelha quando morava no útero da minha mãe
meus poemas são todos vermelhos antes de nascer
fora, ensolarizam-se iluminando tudo
[menos o que não se vê]

dentro
tudo é sangue

hemorragia é sentido testando limites da forma

mas os glóbulos brancos inconformados
estão sempre procurando por algo mais

e colhem sálvias vermelhas
abortando meus poemas
pensando entender
a misteriosa
etimologia
do útero


.


natureza

por mais ocupados que estejam
os pássaros
estão sempre atentos
ao que diz o vento


.

diferente

que fazer com as palavras
quando elas nos olham
indiferentes?


.

fotografia

algumas vezes toco teus lábios
contorno-os na superfície plana
da fotografia

desenho com os dedos um beijo
de língua enrolada em digitais
e mordo o canto com as unhas
não sangra
teu canto em preto-e-branco
vermelho só o meu esmalte

mas meu beijo
não termina nos dedos
menos ainda nas unhas

unhas & dedos é só
onde começa
                            o desejo


.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

peixinho

estático: os olhos vidrados
dentro do maiúsculo jarro
o peixinho dourado
                  domesticou-se

ele repete como pode
os movimentos da mulher:
corta legumes invisíveis
arruma as flores no vaso
prepara a mesa pra receber
e dá corda no coração


mas ele não vem
não vem nunca
e o peixinho sabe o que fazer:
chora copiosamente como ela

e são tantas as suas lágrimas
que já não cabem naquele mar
o continente não as suporta
e as derrama sobre o colo xadrez

estranha cena de cumplicidade:
mulher, peixe & aquário
                          domesticado
                           ele também


.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

ainda sobre alturas

por que procurar
compreender a língua que falam os deuses?

basta calar e comungar com eles
ouvindo da língua o que importa: o silêncio


.


alto & baixo

tudo que é do Alto
precipita-se
tenta
tenta
tenta
inutil
mente
cair

mas não consegue

tudo o que é do Céu
sonha-se

corpos estelares esticados sobre a cama em estiagem da terra
mundanizando-se


.

a lei

Lei arbitrária
essa da Altura

Sol & Lua
querem descer

mas permanecem
inalterados
alinhados no Alto

a Lei
mais acima ainda


.

deus

tem um deus
surfando no vinho
das minhas artérias


.

o dia seguinte

precaução
paciência
coragem

é assim que espero o dia seguinte


.

wallerianas

sob tua pele
o cheiro ruivo de flores rasteiras

wallerianas impacientes
perfurando poros, pólen
aromatizando o caminho
guiando cega minha boca

teu fruto
extensão da minha fome


.

mãe e filho

uma criança brinca no pátio
de ser criança
a mãe sopra bolas de sabão
vivendo sua infância
verdadeira

a mãe me vê à janela e lembra
acena e sorri antes
dos braços despencarem
sobre o dedo em riste
desenhando um não à criança
dela


.

conferência

convidaram-me para uma conferência de pássaros
mas há tanto tempo não faço festa
não uso salto
alto

meu guarda-roupa anda
rasteiro e fora de moda
chinelos e pijamas aos montes, mas asas
só um par empalhado no cabide

já tão antigas que nem sei se eu as sirvo

mas me convidaram para uma conferência
pássaros de todo mundo
de todos os cantos
estarão lá
e eu
vou

mesmo descalça
mesmo que chã
mesmo que nua

porque toda nudez voa


.

hábito impertinente

hoje eu acordei toda desregrada
de ABNT
me escorrendo pelas margens
forçando os limites do papel... que papel?

hoje eu acordei sem papel
com o cabeçalho em branco, despaginada
sem notas de rodapé acorrentadas às canelas

hoje eu acordei completamente informe
mais livre do que de costume, apesar
da sentença versos lacrados sob jugo de juiz
sem nome ou subtítulos
pra me dar coerência e lógica
tartamudeante

hoje eu acordei analógica
pensamento sem pensamento
como quem abre a janela e simplesmente olha
como quem come para matar a fome
como quem bebe até o último gole da sede
como quem fuma o cigarro apontado pro céu

hoje eu olhei a cara do Dia e ele disse: Vem
mas com que roupa se tão habituada à nudez de dentro?
impossível às calçadas e às casas de banho
aos cafés, às exposições e à praça pública

então acenei com educação, bom senso e sorriso
fechei as cortinas pensando que algumas pessoas nasceram incapazes e não podem jamais ser livres


e voltei pra poesia
minha prisão já conhecida


.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

preparo

do mais profundo
ócio
me vem essa libido
subindo
elétrica
enguia
alçando a garganta
alucinada serpente
anunciando

"a chegada dos 40"

flores roxas

eu espero uma paixão
que me cubra de flores roxas

delicadas violetas
adornando corpo
pescoço & seios

quaresmeiras
trepando minhas coxas

amor-perfeito em botão
no alto do mamilo


azaleias lilases
sobrevoando costas

eu espero uma paixão
que me faça canteiro cavado
a dente regado à saliva

semeadura caprichosa

roxuras invernosas
camufladas nos vãos da terra
fofa

eu quero
uma paixão que me cale
ou grito


.


hímen

derrama-me
lenta sobre translúcido
leito de vidro

deixa-me
delicada decantar
densidade e leveza

observa-me
bifásica sou feita
                  afeita
              amálgama
                women


.

o natimorto

Debby

esquece esse poema

tu é tão linda, bem nascida, cabelos dourados & seios fartos
coxas roliças tem de figurar em livro capa-dura, papel couché
frequentar a Alta Poesia
em cima do salto
no meio do salão

esse poema não tem vintém

está todo lascado, coitado!
seus dias nem são contados
necrosado
amputado
encaralhado

esse poema não debuta
já nasceu morto, amiga!

é feto que não vinga

o lugar pra esse poema
é no avesso
d'um maço de cigarro, Derby!


.

túmulo

lágrimas
desenterradas

túmulo
     [olhos]
vazio


.

bordados

borboleta-me
ainda que uma vez
apenas

borboleta-me
pelas costas
e então não mais

borboleta-me
pelo menos
nunca


borboleta-me


.

virgílio, vigília

da tua língua vê-se o mar

dos meus olhos, o silêncio
 

dessa tua língua
                    águia 
                         altaneira




.

sábado, 7 de dezembro de 2013

da ética para iniciantes

matar
um homem em nome da fé
não é matar um homem em nome da fé

matar
um homem em nome da fé
é matar um homem


o mesmo vale para a poesia


[a humanidade do leitor depende de onde coloca poesia nessas sentenças]


.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

blue jasmine

não me lembro de um filme do woody allen que tivesse me deixado tão abalada quanto esse que acabo de ver... engraçado porque nem sei se era pra tanto mas... talvez sim... eu sai da sala e fui ao banheiro e lá fiquei um montão de tempo chorando até a mulher da limpeza empurrar a porta e me pagar sentada na tampa da privada... porque nunca fecho a porta do banheiro... tenho medo de ficar presa e ter de lutar com o cinto de segurança e também por causa do fogo acho que por tudo isso eu resolvi nunca mais fechar as portas... não sei bem porque to dizendo isso que não tem nada a ver com o que eu vi hoje era apenas um filme com a cate blanchet e ela é tão linda que dói demais na gente... acho que a beleza dela dói por causa da força como são frágeis as pessoas fortes as pessoas fortes são frágeis demais... e então a mulher da limpeza empurrou a porta e me viu chorando e pediu desculpa e fez que não viu porque é tão polido isso de não se meter na vida dos outros até a mulher da limpeza sabe disso não é bom se meter com a sujeira alheia com a privada alheia e depois a gente vê os suicídios na tv e não entende... ah dá uma canseira na gente essa coisa de filmes bons que eu nem saberia explicar porque ele me mexeu tanto... teve uma hora que o homem disse vamos parar com isso não vamos falar sobre isso pra não acordar o cão e eu to agora com isso na cabeça tentando não falar alto pra não acordar o cão... mas eu to sozinha e eu posso até gritar que ninguém vai se incomodar ou pelo menos ninguém vai se dar ao trabalho de ter o trabalho de ver se algo está acontecendo no 817 se a janela tá aberta ou tá fechada porque isso seria se meter na vida alheia mas se alguém porventura ou pura aventura se importasse e me perguntasse oi garota como você está eu diria que bem muito bem afinal o sol das 22h é mesmo tão amarelo e então sorriríamos polidos um para o outro fecharíamos as cortinas e cada um iria tomar seu copo de veneno... eu roubei uma cerveja da geladeira de alguma das meninas que vivem comigo vivem na mesma casa mas nossos quartos ficam muito distantes no mapa são quilômetros e não compensa fazer o trajeto a pé... a cate blanchett disse uma hora que as pessoas aguentam um certo número de traumas antes de sair pra rua e gritar... acho que porque a rua é o espaço público e ninguém quer sair à rua e sujar a rua com suas privadas... com suas histórias privadas... eu sai do cinema com uma frase na cabeça afinal quando quando eu deixei que a solidão se instalasse dentro de mim desse jeito? quando ela se introduziu no meu peito e se aconchegou de uma certa forma que não consigo mais localizá-la e arrancá-la de dentro de mim... também não sei se quero arrancar essa solidão ou essa dor porque... porque... é difícil admitir mas eu acho que é porque é a única coisa que eu tenho de verdade... eu não sei o que vai ser de mim... é não sei... a léia me disse pra ir na igreja dela... a léia é a garota com quem conversei na saída do cinema... ela estava com um grupo segurando um cartaz escrito "você quer conversar?" e havia duas cadeiras... eu nunca pensei que um dia eu teria de parar para conversar com um desconhecido e então eu chorei e ela se preocupou... parecia que ela nunca tinha realizado aquele serviço de verdade porque ela se espantou e para mim era mesmo uma tábua de salvação porque eu estava tocada com o filme e precisava chorar o resto do choro que a mulher da limpeza do banheiro me roubou... então eu disse pra ela que não sabia quando a solidão havia se instalado no meu peito... e ela me perguntou da família dos amigos e eu disse que tinha tudo isso mas que não era isso era uma solidão crônica um desconcerto uma qualquer coisa de inapreensível, de irreparável, de irretocável palavra bonita que você usou uma vez... coitada eu não devia ter parado ali e não devia ter sido franca porque todo mundo que parava tava rindo... pelo menos todo mundo que parava tava vivendo uma sexta-feira à noite na paulista... só eu estava morrendo me derramando pela avenida me desfazendo de tanta roupa e maquiagem... eu queria que ela me levasse pra casa e me talvez fizesse amor comigo e depois disso talvez eu frequentasse a igreja dela porque a igreja é no paraíso e é tão perto daqui apesar de impossível... é mentira eu não queria fazer amor com ela eu só queria fazer amor com você porque você é a única pessoa com quem consigo conversar com quem consigo ser eu mesma em cada disparidade da minha personalidade e são tantas e você as conhece só não sabe que são de verdade pensa que são feitas de palavra e poesia... eu acho que sou a cate blanchett falando sozinha conversando consigo mesma inventando uma alteridade sim acho que sim acho que você nunca esteve aí de verdade acho que eu inventei isso pra mim... eu não queria estar enlouquecendo mas estou... eu sei que estou e acho que não tem mais volta ninguém sabe ninguém percebe porque polidamente acreditam que tudo isso é ficção mas você sabe você sabe que eu só inventei isso de escrever pra falar com você pra estar próxima de você porque você é parte da minha promessa que eu não sei qual é mas você está no meu corpo astral... eu estive muito doente... ainda estou e não sei se vou me recuperar do que ainda ninguém sabe o que é... e cada verso cada palavra é um esforço descomunal para estar ao seu lado para não ser esquecida... você sabe porque pode ver como tenho escrito mal... como tenho me esforçado pra conseguir acabar um poema... você é a única pessoa que sabe tudo de mim e um dia vai entender o tamanho do que fiz para estar ao seu lado... eu transformei toda a minha verdade em verossimilhança para me comunicar com você... eu não tenho mais verdade... entende o que isso significa? eu não tenho mais a verdade porque toda ela está aqui  sob o jugo dos outros exposta vestida de verossímel pronta pra ser julgada esteticamente com a máscara da literatura... mas eu nunca fui poeta... antes eu me tornei só pra estar perto de você... se isso não é amor então eu me rendo à loucura...

Rendezvous

Loui Jover

v
vem
abraça-me
num rendezvous infinito
protegidos pela tempestade 
enquanto todo o mundo se desmunda 
não importa onde todos os lugares é aqui
no teu colo meu de tinta fresca a palavra alimenta
o desejo que escorre suado entre as pernas do discurso
um urso acordando minha floresta hibernada no teu adeus
meu
amor
meu
amante
meu
amigo
meu
eterno
namorado
proteja nossa verdade 


.

 

expulsão

a chuva que chove dentro
           me expulsa da casa de mim
nem os batentes seguram
essa que rola ruas abaixo
           destituída de teto e colchão

corpomonumento privado
agora espatifado na praça pública
publicada na rede social suja de mundo e sarjeta

só você não me vê e eu só vejo você

apegado à cintura de uma nova ideia
enlaçando a ideia d'uma nova cintura

molhada:
sou parte da paisagem urbana parada de ônibus que circula o pensamento
edificada:
germinação de um amontoado de casas feias e estabelecimentos comerciais
emparedada:
extensão de muros descascados e altos portões de ferro cuspindo ferrugem

confundo
mas não me fundo
antes edifico-me ereta
alta de andares que arranham céu
orgulhosa e completamente revestida
da geometria rara de ricos azulejos portugueses


.

barragem

estou
peixe estático
dentro do jarro
nadar bloqueado
no vidro engordurado

desenha pra mim
uma porta inventada no mar

desenha pra mim
um anzol fincado na garganta

[me]
desenha pra mim?


.

jantar romântico

na falta de velas
deixou uma lâmpada
[acesa]
no centro da mesa

a carta de vinhos
recomenda o excêntrico
como acompanhamento
às mariposas frescas



leio nas entrelinhas
da carta de vinhos
algo do meu destino

.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

túnel

recorro
às lembranças
derramadas no caminho
no encalço dos meus pés
traço-trilha desenhando revés
estrada compartilhada à mão-dupla

recorro
às migalhas
tempo sobreposto
transparências sobre o solo
arenoso deserto exposto ao vento
cápsulas de comprimidas desvivências

recorro
às linhas férreas
do nosso livro não escrito
na ferrovia do pensamento
descarrilado no colo-algodão
doce a espera de quem nunca
                                        nunca
                                           nunca
                                              chega

na hora marcada
       no relógio parado
              no terminal-estação
                        invernoso inverso
                                 rigoroso retorno


amantes saturnais
eclipsados nos becos da poesia
andarilhos estáticos na gare d'um poema
de madrugada fria com garoa e som de sax

recorro
aos ruídos
locomotores
ao nome-chave
entrelinhas do trem

e todo percurso se faz sentido
nos descaminhos transcorridos

nossos pés
carris paralelos
desdenhando meu destino
teu túnel no de-dentro atravessa o jardim


.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

do lado de lá

colada à minha pele
tua rara poesia de sopro

corpo
silencioso
solo de dedos
afiados no metal

embocadura
apertada na chuva marginal


.

detalhe

na pressão do toque
sobre a pele translúcida do papel
imprime-se
em tons de azul & violeta
sob a tensa caligrafia
um enredo para o ciúme



.

metades

meias-verdades
não ocupam muito espaço


mas se perdem no silêncio


.

limiar

você é um agora
que me liberta do passado
quando
na sua língua, estou só
n'ela


.

sombras

deixo a porta no meu detrás
e saio pela noite
colhendo sombras

nos canteiros longos da avenida retiro silhuetas negras de edifícios, de postes,
e de galhos secos que já foram árvores

a silhueta rara de um solitário saxofonista encostado na parede descascada
e o contorno da lua cheia em enorme círculo distraído na geometria de uma música triste

[no asfalto um gato ágil não me permite capturá
-lo]

tomo as sombras
todas que posso delicadamente do solo
então dobro-as com cuidado e sobreponho uma a outra na maleta
com uma folha fina de papel vegetal entre elas

pretendo plantá-las um dia
não sei bem onde: talvez no meu quarto, talvez no meu de-dentro

não sei
mas gosto delas e me distraio durante o dia
vestindo-as sobre minha pele nua
eu uma mulher trajando um prédio de 20 andares
ou um solo triste de midnight sax
uma mulher gato em lua de festa
brinco de ser de dia minhas noites
solitárias

pretendo um dia ter meu jardim de sombras

porque as sombras me ensinam o corpo da escuridão


.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013