terça-feira, 5 de novembro de 2013

o enforcado

por que essas pessoa insistem
IN-SIS-TEM em se enforcar na minha frente?

coisa mais antissocial isso de corda, pés descalços
e língua de dois metros e meio pra fora da boca

há tantos lugares onde elas poderiam se enforcar
com privacidade e sem grunhidos deseperadores
sem atravessar o meu dia com suas línguas estéreis
línguas vermelhas e pintadinhas de branco ou verde

bovinas, não há outro adjetivo:
insistentemente bovinas são essas-por-se-enforcar
no a-qualquer-momento
leva-me a exaustão tudo o que é corda, corrente,
alça de bolsa, gargantilha, linha, cerol e serpentes

coisa chata isso de morrer se exibindo
pendurado por gancho que nem carne no açougue

será que nunca viram como brilha uma lâmina?
como brilha a lâmina de uma adaga ou estilete?
ou como se contorce aquele que toma veneno?
veneno desses que derretem ratos por dentro?

falo por mim: eu gosto do cheiro de pólvora
é que nem chuva caindo no asfalto quente
vaporoso é o aroma que tinge dedos suicidas

um tiro de espingarda no meio da ideia
isso sim é uma morte digna de parar a vida
da gente pra olhar o filete de sangue escorrer
lustroso como um estrela pontiaguda na parede

e não esse monte de corpos que se estendem
uns sobre os outros na minha frente
bloqueando minha passagem
atravancando meu caminho
obrigando-me a pisar num longo e fétido tapete
esticado de língua
                       língua
                             língua
                                  língua
                                     língua
                                          língua
                                              língua
                                                  língua
                                                      língua
                                                          língua
                                                             tropeço
                                                            
[que nojo]


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