terça-feira, 19 de novembro de 2013

1911

não batam à porta
hoje esse poema se fecha

também não adianta tentarem as janelas
preguei madeiras em cruz e reforcei os trincos
estiquei lençóis sobre as grossas cortinas de linho e tapei
os buracos na alvenaria, as frestas por debaixo das portas
tapei todas as aberturas com massinha de modelar

hoje
o poema se fecha
sobre Ele mesmo

não encontrarão pitangas para adoçar seus olhos
nem girassóis disponíveis para provocar-lhes a fé

e nenhuma tempestade e nem mesmo o risco de
uma tempestade para acordar-lhes a pele morta

porque hoje
hoje o poema se faz no detrás

hoje o poema prepara uma festa
e derrama suas oferendas poéticas
na grande mesa armada no quintal
sob as frondosas asas das árvores

lá um banquete de poesia
está à espera do Poeta


comemorando a sua vinda
que não precisa de portas
que não precisa de janelas
que não precisa de convite
que não importa o estado
de sítio

o Poeta sempre sabe como
entrar


.

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