sábado, 30 de novembro de 2013

palavras urgentes

o tempo se faz ainda
à sombra do Vulcão

suas palavras minhas
não podem esperar
a hora futura do nós

sussurra 
no canto escuro 
dos ouvidos dela
uma palavra suja

depois duas, três
libertas da mente

palavras
urgentes
sujas de mundo
precisam ser pronunciadas

.

esquina

a esquina vazia
de verso

me mói por dentro


.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

tanto



.

jazz

pisei as uvas
            uma a uma
com meus pés
unhas tintas no vermelho

mas que importa
se só te apetecem solos
estrangeiros?


.

beatnik

maldito beatnik!
   beatnik mau
         dito
        dono
da minha liberdade


.

seu cachorro

eu já te disse
seu cachorro
que eu ainda vou te comer

eu vou te comer

quente

com catchup
        mostarda
        & batata palha


.

dança



surtos
furtos
de ódio

é o mesmo amor
se contor
    cendo


.

de como se lê a verdade

Sirolta Ban


.

rarefeito

e qual é a altura
da profundidade
que você
suporta
?


.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

febre



  Gosia




noiva
coroada de rendas

orvalho
sobre pétalas febris


.

nijah



de longe
me chega a mim
aquilo que guardo dentro
das mãos do bruxo conhecedor
dos meus sonhos o preparador
dos pesadelos constante vigília
no lago das cabeças sem-nome
o sem-fundo
nada

num méxico sem méxico
suspenso no pico da neblina
nijah o feiticeiro lê meu sonho
futuro no livro sem livro escrito
na víscera ágrafa do cervo selvagem 

nijah
sabe o que não sei

enquanto durmo
uma árvore de olhos
protegida por espinhos
observa o desespero cego
da frágil luz que me lamparina


.

300



não sobra espaço
nesta minha cama
para mais nenhuma mulher

300 já vivem em mim
cada qual cobrando seu merecido quinhão
e eu tenho de me desdobrar em tantas mãos, 
pernas, coxas, lábios e línguas para me satisfazer 
à vontade delas

todos os dias, por exemplo, preciso alimentá-las com arte e poesia
cavar com unhas e dentes espaços cênicos cada vez mais largos para atuação
e tecer com finos fios um tapete de tempo voador só para dar tempo para o livre deitar

por isso procuro
              um homem

nada muito complexo apenas um homem
que as distraia um pouquinho com gracejos e algum enredo de aventura
com disponibilidade para uma viagenzinha qualquer por aqui mesmo na américa latina
coisa pouca que não demanda esforço apenas o suficiente porque do demais já dou conta

procuro um homem
porque preciso de tempo para cuidar com mais vagar
e lamber com minuciosidade cada detalhe, cada vão,
cada dobra de corpo dessas outras 7 mulheres
que em-si-umadas a mim
me são


.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

lady picture show



.

covilhã

covilhã
e uma viagem sobre o dorso da serpente
rente ao tejo
poemas de pessoa 
para pessoa 
nós as línguas tão primas
distantes
corpos vazios carregando comboio às costas
e insígnias de ascendência rara
demarcação de um território alheio
frágeis fronteiras 
simétricas linhas alinhando ombros & tórax
ondas espumantes de sagres 
areia líquida
cevada colada às rochas abdômicas
e um céu infinito da cor dos seus olhos
laranja 
seu sorriso 
gajo de viseu
numa visada nogueira alta à beira do de trás
um caminho covilhã 
viagem mística num caiscais suspenso em fractais 
sonora é em mim a voz que não é sua


.

hereditariedade

o amor
é uma coisa hereditária

a gente nasce com ele pregado em algum canto do corpo
uns mais azuis, outros mais curvos, alguns negros, outros geométricos
eu gosto dos geométricos, mas...

herdei o amorondulado
conformado em cacho
concentrado e pélvico
profano de mãe & sonata de pai


um tipo de amor difícil de controlar
mas de bom trato em carne e óleo de girassol

sem dúvida um amor que só se realiza sob boa, muito boa
embocadura


.




no parque

estendo uma toalha mágica
sobre o abdômen de pedra

e me deito
sem pressa

pernas abertas
pés cobertos de abelhas

aguardo a lua vir pra me luar


.

duas telhas

e me preocupa bastante
essas duas telhas faltando no telhado
porque uma parte do de
baixo está desprotegida

e por mais que eu vigie
o de cima não há nada
que eu possa fazer caso
a chuva chova sem parar

duas telhas são bastantes
para inundar uma casa
assim pequena como essa

duas telhas são suficientes
para inundar olhos rasos
vigilantes como assim tão


.

hematopoiesis

já pensou se a gente pulasse tudo isso?
encurtasse o caminho?
chegasse lá sem ter de operar o poema?

ah se eu fosse você...

poeta, deixa pra lá
esse lance de lábios e nuncas e coxas e lábios
de novo e de baixo e de cima e agora e mais
de uma vez

poeta
mete logo os dentes na minha medula

mete os dentes com vontade que nem dói
[se souber fazer direitinho]

vampiriza o que eu tenho de melhor
germina minha célula-tronco
fecunda minha célula-mãe
estamina o que é rara e rubra poesia
deita e se enrola no meu tecido hematopoiético


e então beija a minha boca
cala minha boca
engravida minha boca

mete logo nela
um livro
       teu


.



peso & medida

me diz
qual é o tamanho da tua fome

que eu te preparo um prato com a minha


.

lagosta

uma lagosta
cutuca meus pés
debaixo do lençol

uma lagosta
centenária e dourada
enfia antenas nos vãos das minhas unhas
tentando firmar um canal de comunicação

uma lagosta
encouraçada
diz tec-tec tec-tec tec em ondas mecânicas
contando a história de grandes naufrágios

uma lagosta
dormirá comigo esta noite
e amanhã passearemos no parque
tomaremos sorvete e um pouco de sol

mas o que uma lagosta
está fazendo na minha cama
quando o mar está tão longe daqui?


.

balé sobre trilhos

Sarolta Ban

verão

tenho um verão
ardendo na boca

e dois sóis

porque meu planeta é grande
e queima


.

se te beijo

se te beijo
tinjo teus lábios
de vermelho


se te beijo
tinjo teu corpo
                 nuca
                pescoço
                peito e pés

                vermelho

se não te beijo

meu coração
                      atinjo


.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

luares

pressiono
teu caos entre os dedos
aperto tentando conter o que em mim falta
partículas
me escapam e transcendem o trato

discreta uma borboleta
pousa-me delicada sobre os ombros e cochicha um segredo
leve ao vento os pés do ouvido

uma matilha se aproxima
à frente
um lobo alfa fareja noites de lua
cheias


.

sacrificial

sete argolas de ouro
revestem os chifres do deus
perdido no labirinto d'um sonho reincidente

sete argolas de ouro
separam o deus da porta
entreaberta ao túnel de acesso à câmara secreta

depois de uma
duas
depois de três
quatro
depois de cinco
seis
e depois de sete tempos sete argolas se despedem dos nós de ouro derretido na travessia

desnudo o deus
enfim Astérion entra:
                                  pronto para receber delicada guirlanda dourada
justa à cabeça


.

uva

cachos
de uva

esperam

boca
de chuva


.

contemporâneos

nenhuma moldura
nos cabe
a nós
que somos do chão
nem os batentes seguram


.

artesanato

de quem é a mão
que envolveu minha vida na tua?
teus dias nos meus?
tua respiração somada à minha?

mão de mulher
certa mente
paciente pras dobras
cuidadosa c'os vincos
bordadeira
experiente na arte portuguesa de correr linha
treliça de verso sobre verso em linho
seda e algodão
poesia avessa
à superfície
ornato

de quem é a mão que nos fiou?
branco no branco
urdidura
      da mudez afiada
repousando
nas bainhas
do discurso


.


reparo


tantos possessivos
nos meus poemas
ilusão
de quem nunca teve
nada


.

por onde ando

a estrada me deu
os melhores poemas

nudez d'um corpo infinito
percorrido sobre rodas sempre
em movimento sempre
em movimento
para
além de um além constante
incansável desafio da continuidade

sempre adiante sempre
adiando

deixo na estrada
o que é da estrada


.

à prova de acaso

e se o vento
       porventura
apagar a vela


eu tenho um zippo


.

cuidado

a praia inundada
sobrevive

naufragada no mar


.

livre


cílios de aço
grades
abertas

dois planetas
livres
assaltam meu mundo


.


verde-gaio

há séculos
danço consigo
essa dança


não me cansa


.

chula

dançarina iletrada
compondo passos sem acento
                            sem palmas
                              sem viras

dançarina chula
descompondo as regras do bom
                                  português


.

crus

poetas canibais
nos comemos crus

pela manhã


.

cansei de ser gente

cansei de ser gente
doente

esticada em tons de azul e amarelo
gata
dona dourada d'um tapete de areia
persa

peça
e me abandono no ir e vir de dedos
magia de veludo aplicado ao corpo


cura
meu poema
contraia os músculos

e ronrono
uma música especial
para te tocar
               embaixo
         volume
                crescente


.


porta aberta

suas malas
seus sapatos
suas chaves
sua camisa no meu sofá

seu banho escapando por debaixo da minha porta

sua vida acordando meus cantos
                                        minhas cortinas
                                                 meu corredor
coberto de sílabas
loucas
roucas
poucas
palavras enroscadas
trepadas
         aos pés
                da cama

nua
sua
nossa
ainda

cena congelada no balde com duas taças rasas
ideias
sensíveis
sem tempo
pra pensar

sento e espero
apenas o chuveiro parar
de chover

é primavera
de novo

você entra na minha casa
e bagunça as gavetas da minha vida


.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

m'olhar

chove na avenida

entre guarda-chuvas

o verde escuro
chama-me à atenção


.

atenção

HH v HH

[Hilda Hilst, de um lado
de outro, Herberto Hélder
você no centro da tensão]


.

impaciente

quero escrever

mas poemas não são feitos
de desejo
        somente
as palavras fazem o poema

e palavras submetidas a versos
comprimidos marcando tempo
receita prescrita em tinta preta
indicações
contraindicações
precauções

tudo que faz o poema
faz o desejo
mais grogue
mais doente
mais pobre
mais burro
mais triste
mais nada
       de poesia


.

.


.


.

ilha

toda ponte é
armadilha
do outro lado


.

domingo, 24 de novembro de 2013

rain



.

dentro

a madrugada fria

guarda uma mala

livros,
agasalho,
o par de sapatos,
papel pra pagar a passagem
dinheiro pra escrever notas no rodapé
calcinha, sutiã, camiseta, colar e cachecol
estojo de lápis coloridos pra pintar a máscara
uma ferida inflamada enrolada em lenço de algodão

o guarda-chuva


fria a madrugada
me aguarda


.

sábado, 23 de novembro de 2013

lisa


.

outonal

uma folha
cortada ao meio

na finíssima transparência
paira o poema origami de amor

e seu avesso


.

sopro cinza

pequenos dragões feridos
estremecem ao som dos trovões


.

ja'nela

leio a chuva que despenca
farta
contínua
sem tréguas
em grossos fios
versos verticalizados
em aeradas linhas aéreas
da aquatelecomunicação astral

fecunda
é a chuva
que se derrama
em quente veraneio
reinvadindo sobretudo
a película fina e transparente
portal d'espelhos desmanchando
nós horizontalizada eu ainda queimo
o gramado estremece à trovoada desafiadora
do destino invade-me gota a gota a chuva que me deságua a boca


.



.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

triste constatação

é triste constatar
que qualquer merda poética

ainda é melhor do que isso


.

retratação: artificial

"em nome da direção
pedimos sinceras desculpas:


o homenageado
tem toda a razão
de reclamar

procuramos fazer o melhor:
2 altos coqueiros
frutas da estação
charutos cubanos
dançarinas ulaula
whisky 12 anos

mas nem fogos de artifício
podem velar o céu
nublado"


Ass: Gerente Geral


.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

cerco

dança de salão
passos previstos
fecho previsível


e o enigma
do escorpião
se desfaz
no primeiro
recuo

desnuda-se a olhos nus
a fragilidade
camuflada sob armadura
carne branca
adornada das cicatrizes
feitas pela justa couraça
que a si mesmo se impôs

com medo do risco
o escorpião risca a pele
desvelando seu íntimo
segredo

nudez
infecunda
que só pode contar
com uma gota de veneno
ainda assim completamente inofensiva
ao escorpião que o encara


.

enfermidade

o que pode um poema
sozinho
sem pai nem mãe
sem amigos para ampará-lo?

o que pode um poema
perdido
folha solta presa
à janela d'uma cidade grande?

o que pode um poema
sangrando
sangrando
sangrando

sangrando

a não ser sagrar?


.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

no meio do sol

imprevisível
        inesperada
                 desesperada

do jeito que eu gosto

uma chuva
me tomou


.

do pouco que tenho tudo a ti


preparo um banquete 
de maçã
vinho e ventania

preparo o banquete
num divã
pra sonhar sua poesia


.

1911

não batam à porta
hoje esse poema se fecha

também não adianta tentarem as janelas
preguei madeiras em cruz e reforcei os trincos
estiquei lençóis sobre as grossas cortinas de linho e tapei
os buracos na alvenaria, as frestas por debaixo das portas
tapei todas as aberturas com massinha de modelar

hoje
o poema se fecha
sobre Ele mesmo

não encontrarão pitangas para adoçar seus olhos
nem girassóis disponíveis para provocar-lhes a fé

e nenhuma tempestade e nem mesmo o risco de
uma tempestade para acordar-lhes a pele morta

porque hoje
hoje o poema se faz no detrás

hoje o poema prepara uma festa
e derrama suas oferendas poéticas
na grande mesa armada no quintal
sob as frondosas asas das árvores

lá um banquete de poesia
está à espera do Poeta


comemorando a sua vinda
que não precisa de portas
que não precisa de janelas
que não precisa de convite
que não importa o estado
de sítio

o Poeta sempre sabe como
entrar


.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

ritual de comemoração

a vida no interior
é triste
se não há dança
vinho & ventania

fantasia

no interior há vida
e sempre se dá
Geito
pra fazer tudo


.[Il. Apollonia Saintclair, The princess with beautiful curls]

em vestido de festa

é verdade que tudo me escorre
a tinta, o chão, a ideia, a palavra, o sentido, qual o sentido?

para que sentido se tudo escorre lambendo as grades do bueiro
fazendo eco no vazio
se até o esmalte vermelho tão colado à unha
dissolve-se na poça
(meu caminho de água)
e junta-se ao que é abandono
desamparo
solidão

desmancho-me
como um picolé
exposta ao sol

o presente
hoje goteja
em amarelo


mas que amanhã o dia se faça outro
de sol e chuva que é sempre anúncio
de festa, casamento, nascimento
e aniversário
e que eu mesma me enchoveça lírica
escorrendo enfim minha finita poesia
sobre as mãos em concha do poeta

(e fecunde suas linhas
e irrigue o seu destino
e amoleça suas unhas
e hidrate seus dedos
e limpe qualquer dor)

e se restar uma gota ainda nas palmas
que o poeta me leve à boca
e eu escorra como um beijo
(nunca dado) misturado à sua saliva

que eu possa dissolver-me
dentro dele
fazendo parte de sua festa
(interior)


.

domingo, 17 de novembro de 2013

pétalas

incauta,
pisei co'as pontas dos pés nus
pétalas de rosas
que encontrei espalhadas sobre o frio
piso do corredor

nenhuma palavra, nenhum grito, nem um ai
só o eco mudo
do silêncio agarrado às paredes


acamo-me
enrolada em lençóis
tomada de febre e dor

um solo
ainda tingido de vermelho

promessa de uma noite em clara agonia
chamando teu nome
e arrancando os espinhos profundos
que me plantastes


.

lontra

uma lontra
assobiando na beira do rio
pernas cruzadas sobre o ócio
submersa em úmidos pensamentos
relógio biológico acertado no ponteiro do tempo

rara lontra
solitária, esperando a noite encharcada de chuva chegar

.

manha

acordei com a boca seca


deu-me de presente o rio

e afolguei-me
num riso cego de lençóis


.

sábado, 16 de novembro de 2013

fragmentada Afrodite

fragmentada Afrodite
corpo em tudo maçã
ramos e rosas e relva

desmaia serena sobre a branca página


deleita-se no silêncio raro da minha boca
integra-se à poesia com que a afrodito

insuspeito movimento
debaixo da saia de seda onde escondo
meus anseios


.


ritualística

é costume
entre as mulheres da minha casta
tecermos grinaldas de delicadas flores
campestres e aromáticas
ainda úmidas de orvalho

coroas coloridas
que servem aos deuses combatentes
em rituais evocativos de grandes embates
míticos
passos ensaiados em dionisíacas danças

suave
mente ébrias
encaixamos à cabeça
do deus vencedor nossa oferenda

a minha
comprimo-a até a base


flores festivas
comemoram com giros


.

fumaça

verde como erva
espero fogo
pra me converter


.

língua grega

uma nau ancorada
          em enigmas
     
valente língua
           onda azul
           arremessada
           aos pés da ilha
                        desconhecida


fluidez
incomparável
ritmos livres da métrica
consoantes líquidas e nasais

fonte legítima
cercada de violetas
                      míticas

tesouro escondido
                na bifurcação dourada
das pernas de Safo


.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

desamparo

cuido também da palavra
desamparo

nunca a abandonaria

mesmo que não houvesse
mais linha para meu verso
mais verso para meu poema

nunca desistiria dela

porque sinto:
desamparo
é a palavra que mais precisa de mim


.

agruras

agrura
é uma palavra que me frustra

palavra que não dança
em lugar nenhum

daria tudo
para ver uma agrura
dançando

no papel


.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

casamento poético

o que a Poesia une

a estrofe não
separa


.

na garrafa

sufoca-me ter de gritar
para além das paredes de vidro
e dessa rolha entalada
na garganta

mas, se livre, como dizer
ao mar o amor
assim grande e infinito?

qual o tamanho
de um amor que pudesse
fazer crer o mar?


.

correspondência


tatuei sobre toda extensão da pele
com tinta vermelha e sangue azul
com rimas e versos portugueses
atados à ponta afiada da agulha

uma carta de amor

dobrei-me sobre mim mesma
selei-me de saliva
calei a esperança de resposta
e mergulhei numa garrafa
de vinho

endereçada ao mar


.

ao Poeta que sofre

nada pode ser mais importante
do que a dor de um poeta

a dor de um poeta
nasce velha e nas dores do mundo
deste mundo mínimo
excepcional e invisível aos olhos

o mundo que só tem o olhar do poeta para mostrá-lo
o mundo que só tem as mãos do poeta para confortá-lo
e só tem o amor do poeta para amar suas vidas mínimas:

a folha que cai

a pena que voa
a formiga que se perde
o peixinho que se afoga
a palavra que não se diz
o poema que não pode

incorporo a dor do poeta
deito meus olhos sobre a dor do poeta amado
acolho com minhas mãos sua crença cansada
beijo com meus lábios seu luto sem promessa
e amo-o com toda a dor
dessa minha vida mínima


.





smoke



.

íntima aliança

é que essa cama é grande demais pra uma mulher
por isso eu me desdobro em outra
e são quatro mãos e quatro pernas
duas bocas e duas virilhas e tantas línguas
que eu nem sei
alinhamento paralelo de peitos montanhosos
eu tão linda e desejável pelo mim que me lambe
axilas que eu como com fome de pele
e pelos que são linhas que se descosturam
dos corpos dourados
iluminados pelo abajur
testemunha transitória do casamento na cama
sim e eu também digo em eco sim
ecoa nossos gemidos em uníssono
enquanto dedos afundam no círculo molhado
da aliança
sim agora os meus dedos selando o compromisso
entre mulheres duplicadas que se amam na cama
apertada
uma contra a outra
até se fundirem de novo num gozo pleno

geometrias impressas no lençol como flores
futuristas regadas de suor
duas mulheres dividem o mesmo espaço
o mesmo abraço

duas mulheres dividem-se
e somam

um piano adormece na ponta dos dedos

terça-feira, 12 de novembro de 2013

africano

e esse calor
que me engole
com todos os dentes

como você fazia quando cravava teu ferrão
no meio das minhas pernas e eu não tinha como lutar

me entregava
e escrevia poesia sem parar


.

folhas

nas flores o que me atraía eram as folhas
no caminho pra escola colhia
um punhado delas
                     e me demorava
                     aspirando o aroma
                     enxugando orvalho
roçando os dedos
sobre suas nervuras

verdes folhas em branco
dispostas uma a uma sobre as palmas
abertas

talvez eu adivinhasse

ou fosse apenas desejo
de menina precoce que se arrepiava
chupando pecíolos
              sedenta daquele gosto
                           de poesia fresca


.



passeio no parque

ele tinha o costume
de andar com migalhas de pão
espalhadas nas ombreiras do paletó

saia cedinho
no horário da fome
e sentava num banco no parque


não demorava pr'os passarinhos pousarem

canários, coleirinhas, sanhaços assanhados
todos empoleirados em festa
no genuíno terno risca de giz


as crianças se aglomeravam ao redor
rindo admiradas e desejosas de tocar
aqueles pássaros alegres e esfomeados

eram horas agradáveis aquelas
antes de acabar a brincadeira:
sem pão, os passarinhos corriam
e as crianças voavam pros brinquedos
de criança

mas um ou outro permanecia
e quando ninguém mais se via
o insuspeito homem dos passarinhos
abria quanto podia sua enorme boca
e abocanhava a ingênua criaturinha
tornando-a prisioneira para sempre
da sua jaula cercada de dentes


comigo foi assim


.

fotografia

se não escrevesse poesia
seria fotógrafa

fotógrafa de mim mesma

e minha obra seria
composta de 3 únicos ensaios:

num deles, eu seria Frida

no outro, eu seria uma mulher nua 
comendo bifes crus
em pratos de porcelana brancos
com talheres de bronze

no último, eu seria eu mesma
e esse seria um ensaio póstumo


.


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

domingo, 10 de novembro de 2013

fidelidade

amantes
não podem se trair


.

de cima pra baixo

na parede
cujo reboco descarnado
exibe corroídos tijolos
vermelhos

penduram-se
duas gaiolas
seguramente
encadeadas:

a primeira guarda
empoleirada e trancafiada
minha mão direita
[a mão que escreve]

a segunda guarda
trancafiada e empoleirada
minha mão esquerda
[a mão que sonha]



no chão esticado e de bruços jaz um corpo inerte e nulo


.

procura-se

não há palavra

procura-se
desenhista
pra essa dor


.

festa na floresta

no meio daquelas árvores todas
gigantes  de verdejantes folhas
                    frutados furtacores
                    aromática floração
árvores colecionadoras de asas
de nuvens e mimos estelares
cegas ao chão
surdas à terra
mudas ao broto

no meio daquele vernissage
de abertura à floresta

uma árvore anônima
cadavérica e retorcida
carregada de mãos maduras
unhas sujas & gritos podres

acenava-me ao longe
co'a autenticidade
d'um fruto inédito

autógrafo
que se aprecia só


.


a vida

é o fim
de uma picada


.

ab(s)orta

no céu
o Sol

astro arrogante
soberano
supremo

iminência real
gozo dourado
fecunda-me à força

gravidez solar
que me enche
de enjoos


.

brinquedo





pipa de papel crepom
asa inventada na cabeça
pés sonhando alturas

a menina-ave
faz seu primeiro amor
com o vento

nos lençóis de algodão
insuspeitas nuvens
camuflam linha e cerol


.

27.

eu não entendo por que estou escrevendo isso sendo que isso de escrever isso já acabou faz tempo tanto tempo que nem sei bem no dia em que isso de mim parou de me importar mas hoje hoje eu me sinto sozinha hoje eu me sinto muito sozinha e perdida e eu não sei muito bem como isso aconteceu como isso tem acontecido comigo porque às vezes eu me esqueço eu me esqueço de mim e fica tudo bem mas aí eu percebo que eu nunca saio de mim nem esses poemas todos conseguem fazer com que minha cabeça pare de pensar por um momento eu só queria parar um momento e viver coisas sem sentido eu queria um momento não fazer sentido e hoje porra hoje eu até que estava neutra eu estava neutralizada eu estava aparentemente normal dentro de mim e aí eu entrei no carro e eu sempre deixo um cd no meu carro um cd que não represente nenhum risco ao meu pescoço mas justamente hoje hoje que eu estava aparentemente normal apenas triste apenas muito triste normalmente triste apenas basicamente deteriorada basicamente fodida basicamente um trapo justamente hoje quando eu entrei no carro porra mermã por que você trocou a porra do cd vc não sabe que eu estou permanentemente em recuperação? caralho eu te pedi pra nunca nunca trocar aquele cd e aí vc me dá uma facada nas costas eu não sabi g. eu não sabia que te faria mal eu só estava ouvindo porque gosto dessa música mas meu essa música caralho essa música me faz lembrar me faz lembrar essa música me faz lembrar de mim essa música sei lá quantos milhões de anos tem essa música guarda uma energia enérgica e agora eu to entendendo qualé que é a feitiçaria dessas canções elas prendem a gente lá dentro elas prendem um instante da gente lá dentro elas roubam a nossa alma elas prendem a gente numa armadilha melódica entre grades sonoras invisíveis e sugam o de melhor da gente e sugam a gente e suagam vampirescas canções que deveriam ser banidas da terra as pessoas estão ficando uma bosta por causa das música e quanto mais as músicas são boas mais elas são capazes de nos capturar e vai chegar uma hora que esse povo todo vai virar zumbi com seus fones de ouvido fones de topo gigio fones imensos de cabeça essa coisas enormes com antenas invisíveis que sugam a alma e guardam dentro de um dispositivo nuclear que não passa de 3 minutos e meio para ser detonar e dar fim a sua vida e foi isso que aconteceu antes que eu  surtei porque eu tive certeza de que nunca mais vou ser feliz de novo nunca mais eu vou ser feliz de novo e eu juro que u queria abandonar o carro na rua e sair correndo e sair chorando e sentar na beira da calçada e deitar na sarjeta e se alguém passasse de carro e me desse uma carona pra felicidade eu pulava dentro eu pulava dentro e não avisava ninguém e cara eu ia ser feliz de novo nem que fosse por algumas horas alguns dias uma semana por favor eu quero uma semana e meia de felicidade mas também pode ser só o tempo de um filme de uma semana e meia de felicidade e isso dá menos de duas horas mas também poderia ser o trailler de um filme de uma semana e meia de felicidade e aí já caiu dois minutos e já tá valendo eu preciso de uma injeção de felicidade no meio do meu cérebro e tuf pronto pronto eu queria me drogar muito hoje mas a merda é que eu não posso me drogar porque eu passo mal mas caralho eu passo mal quando não me drogo também e será então que a porra da minha vida vai ser assim pra sempre eu vou ter que ficar escrevendo poesia cinco dez quinze um milhão de poesia dando trela pra esse discurso ininterrupto que rola na minha cabeça e nunca nunca mais vou viver uma vida normal quando meu deus isso começou quando será que eu sou assim uma merda de pessoa que não tem capacidade pra cicatrizar a porra de umas feridas será que toda vez que eu cair que eu escorregar que eu pisar num buraco qualquer que nem hoje numa música numa bomba numa granada numa melodia besta tem de uma avalanche de experiência ruim rolar sobre minha cabeça e me soterrar inteira nesse gelo todo eu não acredito que essa porra de tristeza tá acontecendo de novo é certeza que estou com falta de glóbulos brancos é certeza que os glóbulos vermelhos atacaram os brancos e detonaram com eles porque o sergio chapelin falou que os glóbulos brancos são responsáveis por uma coisa importante e devem de ser todos médicos e enfermeiros dentro do corpo da gente e caralho cadê meus glóbulos brancos certeza certeza que os filhodaputa dos glóbulos vermelhos mataram eles comeram eles todos carnívoros antropófagos e agora agora eu to aqui toda ensanguentada de novo... porra.

sábado, 9 de novembro de 2013

estrela

ela tinha uma estrela nas costas
e eu não conseguia pensar em mais nada

cinco pontas afiadas e uma cravada no meu peito
não nesse peito de conotação romântica
receptáculo de coração estilizado
uma ponta cravada no peito do meu sexo
chuvoso no entre-pernas
não essa chuva denotativa que despenca de uma vez
mas a garoa fina infernizando a calcinha
desestabilizando minha postura acadêmica

não sou conservadora
mas conservo certo apreço por estrelas
em especial, as supernovas

não, absolutamente não sou conservadora
embora concorde que as estrelas deveriam ser proibidas
pelo menos nos lugares onde predomina o tempo nebuloso:

nos corredores, na reitoria, nas salas de aula, nos departamentos
no céu
e na universidade

lugar de estrela é no chão
embaixo dos tapetes, dos carpetes, dos capachos, das mesas
das botinas pesadas
enfim, de tudo que é corpus
inclusive do meu


ainda mais assim estrela com cadência
rara, suspensão interestelar difusa
consonância luminosa que começa na nuca e nunca
termina na cintura
linha d'água
sob cílios jeans

decotes e estrelas são grandes riscos filosóficos

seguro os passos
nenhuma pressa
livros eclipsados


sigo-a:
ela, meu horizonte

uma estrela no céu costado

em algum lugar um nascimento se anuncia
e aguarda o presente

sigo a estrela
e levo a chuva


.



ambição acadêmica

pulou nua
do 15o. andar
do prédio da faculdade de artes
colorindo poeticamente o asfalto

cinza


.

lenhosa

ah qual pássaro
que nada!

meu nome é mulher
não tenho pena de ninguém

se pássaro fosse
estaria de bico calado

mas meu nome é mulher
e falo
falo do alto do meu edifício

porque o meu nome
o meu nome é mulher
e a minha língua é lenhosa

constrói casa, chalé, móvel
até um piano
minha língua já construiu

sou artesã da palavra
cortesã dos sentidos

tenho pássaros
tatuados nas solas do pé
quando ando esmago
cabeças & penas

não preciso de asas
meu nome é mulher

e a minha língua lenhosa
prepara uma grande fogueira

e os pássaros
ah vão arder
no meu nome


.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

fio de água

grosso fio de água
corta a floresta de ponta a ponta

um cervo se acerca para beber
uma ninfa se acerca para nadar
um poeta se acerca para sonhar

a serpente não se acerca

a serpente é
grosso fio de água
que corta a floresta de ponta
a ponta


.

nervoso

não sei quem é mais nervoso
se o mar
ou o barco que o enfrenta


.

das paixões

eu tive uma paixão violenta
ainda posso senti-la ardendo
sob meus lençóis
brancos
pés
brancos
úmidos em cima da cama


eu tive uma paixão violeta
ultra-violeta
ultra-violenta

mas era só eu e eu mesma
contorcendo-me na cama
lendo poesias desesperadas
que se contorciam na cama
lendo-me desesperadas
mas era só eu e eu mesma

eu, eu mesma e ninguém
mais

violento


.

madrugada

as paredes do meu quarto
não podem conter meus pesadelos


.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

show noturno

estrelas enrugadas
se recolhem às seis da manhã
enquanto o sol expulsa os últimos sonâmbulos
da plateia

no camarim
elas ainda reclamam
em idioma estranho
sobre cachê e previsões astrológicas


.

medo

meus vermelhos
me assassinam


.

dos mistérios gozosos

NÃO
eu não quero usar a primeira pessoa
queria que fosse com a segunda ou
a terceira
não me importaria se fosse do plural
talvez seja uma boa experiência se

mas me cansei de fazer isso sozinha

quero que tu ou vós ou você ou vocês
amarre-me as mãos à guarda da cama
com esse terço de contas cor-de-rosa
e borrife o meu corpo com água benta
e espalhe as hóstias sobre o lençol
e certifique-se da minha nudez
e olhe os vãos umedecidos do corpo
e use essa cruz para explorar espaços
USE A CRUZ CRIATIVAMENTE
e pressione meu quadril co'as coxas
e cavalgue-me égua sacrossanta
e faça-me gozar de tanta dor
e reze comigo pelo pai-nosso
e implore chorando de joelhos

para eu fazer tudo isso


outra vez
com você
contigo
convosco
com vocês


.

casamento

eu queria me casar no deserto
dunas, bancos de areia e uma brancura sem fim
vestindo tudo como um longo véu de noiva
o sol com seus holofotes
além do vento, é claro, uma ventania danada
levantando chuva de arroz dourado

eu, uma rainha síria
pés afundados na areia
sentada sobre os ossos de um tubarão

ao longe uma miragem:
a promessa de oásis
e uma garoa fina se escondendo na pele


sim
como eu queria me casar com o deserto


.

chuvaquarela

chuvaquarela
suspensa na memória

passo lento

o homem caminha
protegendo a solidão



.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

acertando as contas

domingo vou levar meus seios
pra você conhecer

baterei à sua porta
levantarei a camiseta de algodão
escrito em pink hard rock cafe
ou abrirei um por um os botões
da camisa branca / folgada
deixando-os pularem agitados do bojo do sutiã

você não os viu nascer então vou dizer: "veja
como estão crescidinhos"
"eles não são uma graça?"
"claro que pode pegar!"

depois vou colocá-los no seu colo
poderá niná-los junto a si
acariciar, apertar-lhes as bochechas rosadas
beijá-los e até morder se
desejar

depois conversaremos sobre o registro e a pensão alimentícia pros gêmeos

aí vou embora e o deixo só com suas mãos seus pensamentos seu passado
sua fome e gula abortadas no nó
da gravata

porque os meus seios, agora que cresceram, têm hora certa pra mamar


.

amsterdan

domingo de chuva

enroscadas pelos aros
duas bicicletas
apaixonadas namoram
encostadas no portão


.

disparo

poesia
uma arma carregada
               de mentira


.

solidão

se eu fosse uma cidade

dentro da minha cidade

nesta noite em que os carros bêbados cortam os sinais
em que os maridos cortam a garganta de suas mulheres
as crianças choram sozinhas esquecidas nos chiqueiros
e o poeta mira da janela sua sombra cinza na calçada

pouco teria de mim pra oferecer ao forasteiro:
uma sarjeta
uma esquina
um poste de lâmpada quebrada
um puteiro lacrado pela polícia
um livro de HH esquecido no metrô

um beco
um beco sem saída

na cidade
dentro da minha cidade
só tem isso e a solidão
de quem está em cada um desses lugares
em casa


.

matinal




hoje meu coração acordou
bem cedo

[antes mesmo do despertador]

eu ainda babava quando o senti

espreguiçar um resto de noite e tatear no escuro
as paredes puídas da garganta

saiu-me pela boca

assim e sem mais:
saiu de pijamas e chinelos havaianas

um coração abrindo os olhos da manhã

vis-a-vis com meu coração descabelado
e inchado de tanto dormir

então eu ri da cara dele
abri de novo a boca e mandei ele voltar

ele também riu
abriu a sua boca
bem maior e com muito mais dentes
veio pra cima
e me engoliu

agora tô aqui
batendo dentro dele

sem pressa de voltar

[sinto cheiro de café]


.

o enforcado

por que essas pessoa insistem
IN-SIS-TEM em se enforcar na minha frente?

coisa mais antissocial isso de corda, pés descalços
e língua de dois metros e meio pra fora da boca

há tantos lugares onde elas poderiam se enforcar
com privacidade e sem grunhidos deseperadores
sem atravessar o meu dia com suas línguas estéreis
línguas vermelhas e pintadinhas de branco ou verde

bovinas, não há outro adjetivo:
insistentemente bovinas são essas-por-se-enforcar
no a-qualquer-momento
leva-me a exaustão tudo o que é corda, corrente,
alça de bolsa, gargantilha, linha, cerol e serpentes

coisa chata isso de morrer se exibindo
pendurado por gancho que nem carne no açougue

será que nunca viram como brilha uma lâmina?
como brilha a lâmina de uma adaga ou estilete?
ou como se contorce aquele que toma veneno?
veneno desses que derretem ratos por dentro?

falo por mim: eu gosto do cheiro de pólvora
é que nem chuva caindo no asfalto quente
vaporoso é o aroma que tinge dedos suicidas

um tiro de espingarda no meio da ideia
isso sim é uma morte digna de parar a vida
da gente pra olhar o filete de sangue escorrer
lustroso como um estrela pontiaguda na parede

e não esse monte de corpos que se estendem
uns sobre os outros na minha frente
bloqueando minha passagem
atravancando meu caminho
obrigando-me a pisar num longo e fétido tapete
esticado de língua
                       língua
                             língua
                                  língua
                                     língua
                                          língua
                                              língua
                                                  língua
                                                      língua
                                                          língua
                                                             tropeço
                                                            
[que nojo]


.