segunda-feira, 21 de outubro de 2013

ouriço, alojado no peito

CHE COS'É LA POESIA?

[Jacques Derrida]
 

Para responder a uma tal questão - em duas palavras, não é?- pede-se que você saiba renunciar ao saber. E que saiba disso sem jamais se esquecer: desmobilize a cultura, mas não se esqueça nunca, em sua douta ignorância, daquilo que você sacrifica no caminho, atravessando a estrada. Quem ousa perguntar-me isso? Mesmo que não pareça, pois sua lei é desaparecer, a resposta vê-se ditada. Eu sou um ditado, profere a poesia, decore-me, recopie-me, vele-me e guarde-me, olhe-me, ditada, sob os olhos: trilha sonora, wake, traço de luz, fotografia da festa em luto.

A resposta vê-se ditada de ser poética. E, por isso, tendo que se dirigir a alguém, singularmente a você, mas como se se dirigisse ao ser perdido no anonimato, entre cidade e natureza, um segredo partilhado, ao mesmo tempo público e privado, absolutamente um e outro, absolvido de fora e de dentro, nem um nem outro, o animal que se lança na estrada, absoluto, solitário, enrolado em bola junto de si. Ele pode vir a ser esmagado,justamente, por isso mesmo, o ouriço, istrice.

[...]

Assim surge em você o sonho de decorar. De deixar-se atravessar o coração pelo ditado. De uma só vez e isso é o impossível, isso é a experiência poemática. Você ainda não conhecia o coração e assim o aprende. Por essa experiência e por essa expressão. Chamo poema aquilo que ensina o coração, que inventa o coração, enfim aquilo que a palavra coração parece querer dizer e que na minha língua me parece difícil distinguir da palavra coração. Coração, no poema "aprender de cor" (a ser aprendido de cor), já não denomina apenas a pura interioridade, a espontaneidade independente, a liberdade de atingir-se ativamente reproduzindo o rastro amado.

A memória do "de cor" entrega-se como uma oração, é menos arriscado, a uma certa exterioridade do autômato, às leis da mnemotécnica, a essa liturgia que imita superficialmente a mecânica, ao automóvel que surpreende sua paixão e avança sobre você como se viesse do exterior: auswendig, "de cor" em alemão.

Logo: o coração lhe bate, nascimento do ritmo, para além das oposições do interior e do exterior, da representação consciente e do arquivo abandonado. Um coração se abate, nos atalhos ou estradas, livre da sua presença, humilde, próximo da terra, bem baixo. Reitera murmurando: nunca repete ...Em um só algarismo, o poema (o aprender de cor) sela juntos o sentido e a letra como um ritmo espaçando o tempo.

Para responder em duas palavras, elipse, por exemplo, ou eleição, coração ou ouriço, terá sido necessário a você desamparar a memória, desarmar a cultura, saber esquecer o saber, incendiar a biblioteca das poéticas. A unicidade do poema tem essa condição. Você precisa celebrar, deve comemorar a amnésia, a selvageria, até mesmo a burrice do "de cor": o ouriço. 

Ele se cega. Enrolado em bola, eriçado de espinhos, vulnerável e perigoso, calculista e inadaptado (pondo-se em bola, sentindo o perigo na estrada, ele expõe-se ao acidente). Não há poema sem acidente, não há poema que não se abra como uma ferida, mas que não abra ferida também. Você chamará poema um encantamento silencioso, a ferida áfona que de você desejo aprender de cor. Ele acontece, então, essencialmente, sem que se tenha que fazê-lo: ele se deixa fazer, se deixa levar, sem atividade, sem trabalho, no mais sóbrio palhos, estranho a qualquer produção, sobretudo à criação. O poema cai, benção, vinda do outro. Ritmo, porém assimetria. Não há nunca senão poema antes de toda poiesis. Quando, ao invés de "poesia", dissemos "poética", deveríamos ter especificado: "poernática". Sobretudo, não permita que se reconduza o ouriço ao circo ou ao carrossel da poiesis: nada a se fazer (poiein), nem "poesia pura", nem retórica pura, nem reine Sprache, nem "realização-da-verdade". Apenas uma contaminação tal e tal cruzamento, este acidente. Essa volta, a viravolta dessa catástrofe. O dom do poema não cita, não tem nenhum título, não faz mais histrionices, ele sobrevém sem que você espere por isso, tirando o ffilego, cortando com a poesia discursiva e sobretudo literária. Nas próprias cinzas dessa genealogia. Não a fenix, não a águia, o ouriço, muito baixo, bem baixo, próximo da terra. Nem sublime, nem incorpóreo, angélico talvez, temporariamente.

De agora em diante, você chamará poema uma certa paixão da marca singular, da assinatura que repete sua dispersão, a cada vez, além do lagos, ahumana, dificilmente doméstica, nem mesmo reapropriável na família do sujeito: um animal convertido, enrolado em bola, voltado para o outro e para si, uma coisa em suma, modesta, discreta, próxima da terra, a humildade a que você dá um sobrenome,transportando-se com isso ao nome para além do nome, um ouriço catacrético, todas as flechas para fora, quando esse cego sem idade ouve mas não vê a morte vir.



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