sexta-feira, 4 de outubro de 2013

curta história de qualquer um

há muito tempo sustentava aquela sede. uma sede sua, funda e insaciável. secura num de dentro alimentada pela chuva constante desabando num de fora. sol após lua, caminhava desértica sob o guarda-chuva. lua após sol, vivia protegida da vida que escorria fresca, lambendo assanhada a casca impermeável da ideia, sob medida para o tamanho de uma sede. 

... e sempre a língua desejosa de saliva, e sempre queixosa a garganta da aridez...

então que um dia o descuido: pés sempre tão adestrados pisaram poças e enterrados na lama lembraram alturas. e um pensamento da altura lembrou-lhe o chão. e entre tantas lembranças o pensamento não pensou. o corpo no comando intuiu o seu possível. 

parou bem ali onde já estava. onde sempre esteve. completando o círculo de seus passos. fechou o guarda-chuva e levantou a cabeça. num rasgo súbito de desconfiança, tentou olhar o céu, mas a visão rapidamente naufragou no abismo d'água. instintivamente, então, fechou os olhos. 

e abriu a boca.


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