quinta-feira, 31 de outubro de 2013

vício

antes que o tempo se quebre
e tenhamos que andar descalços
sobre os cacos da vidra
toma-me
toma-me quente
               ainda vertente
               na jugular


.

praga urbana

dores na lombar me previnem
que cupins estéreis
corroem minha estrutura óssea
e constroem sua colônia militar
na região ao sul
              da coluna vertebral
                   prestes a tombar


.

do perdão

ele me disse que o perdão
não pode ser dado
por quem perdeu
e essa perda é tão grande


.
           

vermelho

meu nome é vermelho

chamam-me amarelo
às vezes respondo
e outras, nem vejo

mas o meu nome
meu nome é vermelho


.

16a. DP

a pianista encontrou um mendigo na estrada
apesar de sujo
                e matrapilho
                parecia um homem bom

a pianista que era boa
                           sensível e devota
                           deu-lhe carona e
                           conheceram-se

então levou-o para sua casa
lavou-lhe os pés
banhou-lhe os cabelos
deu-lhe o de comer
deu-lhe o de beber
colocou-o em sua cama e sob seus lençóis
fez para ele o seu melhor sexo e dois ou três poemas
                                                            improvisados

durante quinze dias a pianista tocou sonatas de Beethoven
Mozart e, claro, Vivaldi especialmente
tocando fundo o coração daquele homem

no 16o. dia, a pianista o matou com 15 facadas e um tiro
                                                             de misericórdia




afinal, o que mais ela poderia fazer?


.

31 de outubro

Samhain
se faz a tanto tempo em mim
ventre vazio do deus
ventre tão frio de sol

bruxa natimorta porque não tenho mais
tuas palavras
       madeira queimando a pele da noite
       suor de mil pernas enlaçadas às minhas
       duas aranhas de ouro fazendo
                                          a guerra


Beltane
acena longe demais
          difícil demais
          doloroso demais

mas sou aranha-mulher
e toda braços pernas & línguas
por isso
me aterro
e aguardo


.

raízes nuas

nem o seio
de uma sereia
pode me devolver ao desejo

insana solidão de cascos batendo duro no teto
e meus ventos que não dormem rebelando-se
no quadrado de uma foto 4x4 paredes
grades de espuma nos cantos da boca

me dá teu grito
assim pelas bordas
que eu avanço

me dá teu grito
e eu me engulo
na tua hora

não me mete mais medo essas raízes à mostra
teus dentes pequenos punhais abocanhando a ideia
eu estou falando de pequenos punhais abocanhando
a ideia


retrogosto de inferno
pra quem não sabe quão mortal é a morte


.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

líquida

tudo me escorre
nem a vida suporta meu corpo poroso
e pinga aos poucos
formando poças no chão da sala
círculos de molhado
escondidos debaixo
                  do debaixo
                  do tapete


.

singer

vou comprar uma máquina singer daquelas de pedalzinho e costurar uma história pele por pele ponto por ponto tudo juntinho espremido com linha lilás. uma história funda que pra caber um mimo de amor, uma fidelidade ao que não precisa ser fiel, um momento de descanso pras ondas cerebrais, um instante apenas sem que o peixe escamoso atravesse afiado o espelho d'água e acorde essas sombras inimigas do azul. vou costurar uma noite pra minha história: uma noite de lua cheia de espadas perfurando as nuvens como esses pregos que atravessam meus mamilos, seis de cada lado.................................... vou costurar uma história com linha lilás e a história vai se chamar a história perfurada em 333 picos de agulha de gerusa zelnys, garota propaganda das antigas máquinas de costura singer.
se sobrar pano, eu bordo fim.


.

despropósito

despropósito é uma palavra bonita
para um poema
principalmente assim
                       pincelada
                       despropositada
                                           mente

escrevo um poema sem propósito
um poema antes do primeiro ato
silhueta poética deslizando atrás
da cortina negra de cílios postiços
franjas zumbindo nos ouvidos
marulhoso de águas longínquas

tudo dói
quando se está sofrendo de pressão baixa



.

bruxaria

para uma bruxa
ter ou não ter dinheiro
ter ou não ter liberdade
ter ou não ter poesia

ter fé ou não ter fé

para uma bruxa
ter ou não ter bruxa

tanto faz
não importa

uma bruxa sabe que tudo
é uma coisa 



.

algo

parece que nunca mais vai chover
então por que esse vento?


.

cílios

meus cílios
         caminham de botas

sete léguas


.

Astrid

Astrid
tem pássaros entalados
                 na garganta

na língua um gosto
                      rançoso
                      de penas
                      brancas
confunde
do cheiro duvidoso
                da morte

ela caminha cuspindo
um passo
      um cuspe
            um passo
                  um cuspe

ela cospe caminhando
um cuspe
      um passo
            um cuspe
                  um passo


Astrid não sabe
mas não adianta
cuspir

nem caminhar


.

   

horas líquidas

molha as horas da minha vida
oxum

lágrimas doces
deslizam sobre costas de pedras anfíbias
delicados anéis preparando a compota
damascos, pêssegos de rara juventude
e flores amarelas

o girassol
ostentoso de pétalas
                    penas douradas
                   de um delicado pavão
                               desconhecido

e a argila
   a argila calçada nos pés
   bota de cano longo segredando armas

oxum
cumpre então o nosso trato

molha as horas da minha vida

mergulha a ampulheta
                 no fundo da arca
                 dos teus olhos
                               maternais

cobre
       inunda
               naufraga
                       meu girassol menino
                                 adormecido
                                   nas ondas
                                    cerebrais


.



durante a noite

o que ela faria se
          ela fosse eu?
faria o poema
comigo sendo ela?

rudezas e ruídos
no seu caminho de vinhas
equilíbrio frágil nas canelas
corroídas de pés

e depois o trajeto de mãos
palmas suadas coladas ao chão
sustentando o peso do corpo

parada
no acostamento
silêncio atento aos urros
e murros do estômago

uma cabeça na mochila
uma cabeça grande & redonda
uma cabeça sem olhos
guardada na mochila
junto com a roupa suja
                   pedaços de pão duro
                   e uma faca
                             boa de corte

a tampa de uma cabeça
rolando no asfalto

parada
no acostamento
ela assiste as luzes velozes
noodle enrolado aos dedos
sugando de ponta a ponta
lombrigas cerebrais
sem divagar


.





cogumelo dançante

a bailarina
em sua saia alucinógena
cravejada de brilhantes
rodopia
rodopia
rodopia

luzes de faróis
cintilam a rodovia


.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

náufrago

ji
bóias

de salvação


.

túmulo

[Desha Delteil]


 tumultuada
estendo-me os braços
mas longe
não me alcanço

avanço

túmulo
cimento
palavra
&
pele


.

borrão

borrão negro
de cílios & olhos
derrubados pela chuva

pés que empoçados
voltam

iansã me olha de longe


eu não
encaro


.

uma canção para dormir

sim
eram
graves
as notas
no fim daquela canção
derramada sobre meus cabelos

sim, eram graves e por isso permaneci em silêncio
enquanto a melodia obscura escorria pelos ombros
colava às costas antes tão alvas e me tatuava braços
penetrava poros e cabelos os cabelos ainda úmidos
enegrecidos e molhados cabelos pesando na cabeça

fios fios fi os cortados


sim
eram 
graves
as notas 
no fim eu me deitei e apaguei a


.

equilibrista

a equilibrista

dá voltas 
      & voltas
ininterruptas
sobre linha 
          circular
de porcelana

o tesouro
escondido
no fundo
da xícara de café

é quente
seu último mergulho

.


embaixo da cama

pés
desconfiados
espiam o trajeto
               lento & insone
de mãos
   
procurando janelas


.

noturno

dois olhos
        tirésicos
caminham no acostamento

dispensam corpos

dois olhos
        tirésicos

aguardam
ruído
de rodas


.

manto negro

manto negro
habilmente tecido

por artista
      desconhecido


.

circular

barulho mudo e ensurdecedor
dos dentes careados da noite
roendo
roendo
roendo
meus sonhos
       
pelas beiradas


.

no meio da noite

veludosas
adivinho tuas mãos
espremendo rubras uvas
na minha garganta


.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

sejassim

que sejassim:

então nada de sal
só o gosto de sol
bebendo na boca
o sumo lisérgico
             da gente


.

mar bravo

garrafa ancorada
na areia

promessa
de uma carta

perdida
pra sempre
na ressaca


.

notícias

notícias
ancoradas no longe


.

depois da tempestade

mar bravo
garrafas vazias
de carta


.

moça de salto agulha

a moça caminha
no delicado salto
agulha
no trajeto sobre cava
de vinhas

angústia
colada à pele

brancuras
transparências
luzes

longo vestido
de voal & renda

a passarela dorme
de olhos cerrados

favas



um punhado de favas amarelas
espalhadas sobre o chão
raro ruidoso de pedras
cogumelos de ventosas
ar abafado de domingo

o urso
aninha suas rudezas
no colo
da árvore invisível


.

aceno

estação
primavera
de trem

pétalas
douradas
em times new
            roman

caramelos
ancorados
em águas profundas

luto de dissolutas despedidas

redes e rendas

lenço
acenando
nos trilhos do varal


.


calacidade pública

na minha cidade
falta luz

falta luz
na minha cidade

nenhuma casa
nenhuma rua
nenhuma lua
nenhum rato

nenhum escuro
               se vê



só o som
grave
escorre grosso
pelos bueiros

não há
o que fazer

não há
o que dizer

falta luz
na minha cidade
na minha cidade
falta

botinas
amontoadas
sobre piche
  

todos os acessos
bloqueados

[inclusive janelas]

um vigilante cego
faz a ronda
adiando suicídios


.

sábado, 26 de outubro de 2013

leitura silenciosa

não precisa gritar
eu entendo
     notas de rodapé
     sobrescritos
     subscritos
     maiúsculas

não precisa gritar
eu também te amo


.

guardei-me


guardei-me
aguardei-te

verbos
apenas

 no passado
perfeito

.

queda

eu só tinha
você

era a sua janela
que eu mirava 
estando na minha

há sete mil pés
há sete mil horas
esperando asas

guardando
as minhas &
sonhando
com as suas

eu respirava
olhando pra cima

até vê-lo
agora
saltando
queda
[livre]
no abismo
do passado


.

revisão

talvez não sejam
elas

as palavras
que nos aproximam

talvez seja
ele
o silêncio
que


.

como se

como
    se pelos
             dedos
                   escorresse
                                uma
                                       tese


.

autópsia

autópsia sentimental:
  tu não te moves de
mim


.

doceamargo

arde
interminável
doceamargo
do teu nome

mel grudado
entre digitais

não quero
escrever poemas

prefiro chupar
dedos em riste
uma por uma
suas pontas
       duplas

até que do desejo
só reste a vagueza
vesga de uma ideia

não quero
escrever o poema

estou morrendo

e não há nada
especial nisso

todos estamos


.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

beijos

eu gostaria de alguns
beijos
          antes do
                          fim


.

poema homenagem

este poema é um poema homenagem
a tudo aquilo que não gosto
e que o verso não suporta
especialmente
                   crianças
                   bichos domésticos
                              ou domesticados
                   casa cor-de-rosa
                   gente [só as medíocres]

este poema homenageia
tudo aquilo que sempre desprezou
e aproveita para se desculpar
                  [outra coisa para a lista]
com o leitor
especialmente
por gostar e suportar
[com certo prazer]:
tourada
briga-de-galo
experiências animais
inspiração infantil [entre 15 a 17 anos]

este poema é uma homenagem
que pede revisão


.

atrapalhando o tráfego

carlos escrevia poemas
tão fortes
que rompiam o asfalto

eu só queria que o meu

corrompesse as margens do papel


.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

fim de noite

bando de araras
           bêbadas!

andam arrastando
meu canarinho

pro mau caminho


.

eu queria

eu queria
não começar o poema com eu queria
eu queria
é tão futuro do pretérito
eu queria começar o poema com eu quero
ou, melhor ainda, só com quero
que é o desejo ele mesmo querendo
independente do eu
quero
começar o poema com quero
mas isso tudo de querer me deu uma fome danada
que a única coisa que [eu] quero mesmo
é comer um sanduíche de mortadela
com tubaína & gelo
descalça e displicentemente vestida
com um tomara-que-caia
de algodão
e um livro bem aberto entre minhas pernas semi-
abertas
descansando
[de tanto querer]
à sombra
do meu pé de laranja mecânica


.

intenção poética

atrás de um poema
sempre tem um poeta

a poesia acontece
mas o poema precisa do poeta


o poeta escreve poemas
pra se masturbar depois

se o poema ficar ótimo
ele se masturba

se o poema ficar ruim
eu me masturbo também

a quantidade de poemas/dia
é imediatamente proporcional
ao número de gozos/dia*

[*gozos masturbativos]

hoje só escrevi quatro poemas
os braços estão cansados
e os dedos estão doendo

é melhor não abusar:

termino este
            masturbo
            e pronto:

            mais uma gozada


se rolar uma poesia depois
os poetas costumam fumar
um cigarro
ou dois


fui


.

orquestra de bocejos

animei-me a ler-te
mas à primeira página
teu bocejo me contaminou

agora todos os livros
acomodados nas prateleiras
dão corpo à orquestra:

pálidas
páginas
boce
      jantes


.

depois do arco-íris


não,
estava errada

não há nada lá

EU VI


no fim do poema
há um arco-íris
que te espera


.

arco-íris

no fim do arco-íris:

um grande poema
                 te espera

no fim
do arco-íris


.

sonho

sonho
que acordei sorrindo
apesar de saber que só dormindo
posso ver & estar com você



.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

comparações

trepada

na rima
rígida
do teu
poema



o mundo lá embaixo
me parece tão pouco sedutor


.


porque hoje eu queria falar sem metáfora

quer saber?
hoje eu vou falar:

que eu não tô mais nem aí
que eu não tô mais nem aqui

que eu não quero mais saber de nada disso

que agora eu vou me mudar
                eu vou me mudar de vez

pra lá

[onde só Você me encontra]


.

na cama


sou teu carma
              arma
          & armadura


.

eu (TE) sei

Você sabe
que eu te sei
que eu te sei por dentro
que eu cheguei onde ninguém
                                chegou

porque eu meti
minha mão sem luva
no meio das tuas vísceras
no centro alto do teu peito
e segurei como quem segura
                      a própria vida



o teu Poema
         pulsando
         infinito
                    & lindo


.

poesia na escola II

aluno
mal-criado
fica depois do sinal

aprende na marra
a bolar um poema
                 nem farto
                 nem fino
                 baseado
                 na natureza

depois
tem de aprender
a esticar duas carreiras
duas carreiras grossas
                      de versos
                       brancos
                       e livres
                       lado a lado
                       na carteira

e
só tira a nota
se me inspirar


.

poesia na escola

aluno arredio
trato na base
            do poema
             concreto:

água
areia
cimento
pedra britada

e enxada
que é pra calejar


.

grega


eu sou uma deusa grega
e sei que tenho de lutar muito
com o saca-rolha
até que Baco se dobre
e eu tome-o vinho
no gargalo

com ou sem anel
tanto faz


.

efeitos da chuva

se a décima ordem
       TE atormenta

deixa pra mim
deixa que não tenho poblema
                        em pretender

EU PRETENDO TUDO


.
      

n'aldeia

relâmpagos

desejo
de tempestar
            na tua
choupana
jeans


.


         

censura poética

só queria entender
o que que uma bela
FODA
tem a ver com
       estrelas-do-mar
       mar-de-estrelas
       céu-da-boca
                       dente
       & pirilampos
           lusco-fusco

poesia
é foda meoh


.

milagre

tempestade
uivos & granizos

no meio

d'um dia normal

inesperado
orgasmo


.

das obrigações

se eu fosse poeta
                  poeta macho
                  mesmo
eu só poetaria sobre
                      putaria

putaria grossa
porra na cara
gulosas
putas pululando em cima do pau
         [sem o pululando, claro]
& pedofiliazinhas
    na feira do livro

se eu fosse poeta
eu só punhetava com saco cheio
                                 peludo
                                 de palavrão
                                 lambendo
                                 orifícios de piranha
                                 [risca o orifício]

nada de dor meia boca
                   meia tigela
                   meia entrada
                   meia soquete
                           [boquete pode]
                   meia lua
                   meladas melancoliazinhas
                                fim-da-picada
                                fim-da-garrafa

mas sou a porra
             de uma poetisa
             que rima com profe
                                     tisa

tenho de empregar
na firma
toda família
de metáfora chata:

muza
meduza
geruza
bluza
Siracuza


caralho

é foda viu


.         

ativista

uma casa
        alta & rosa
        portão
        cadeado
        quintal
        jardim
        varanda
        chave
        garagem
        carro
        chave
        tv & futebol
        senha
        flor de plástico

dentro
o homem sonha:

uma casa
        mais alta & rosa
        portões
        cadeados
        quintais
        jardins
        varandas
        chaves
        garagens
        carros
        chaves
        tv's & futebol
        senhas
        flores de plástico
        sonhos de
                    uma casa
                    muito mais alta & rosa
                    mais portões
                    mais cadeados
                    um milhão de chaves
                    senhas
                    & sonhos de

um homem
      amordaçado
      sentado sobre o rabo
      atrás da cerca


.
        
       

the black walker

12 anos

o tempo de um cigarro


.

palmyra

plantada
sobre os pés
alongo-me alta
agitação frenética
palm wine gostoso circulando nas veias

dedos ébrios e livres apontando o curso
                                                          do vento

instituição-palmeira
corrompida
                pervertida
                desde a origem


.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

chave no lugar de sempre

ah muito gelo lá fora
pra quem tá pegando fogo
dentro
           uma garrafa
           burbom


.
      

maria fumaça

quando não tiver ninguém
te olhando
acenando
insistente lenço
cor-de-rosa & renda
biscoitinhos da vovó
açucarando
confeitando
engordurando
o trânsito febril
na plataforma

chega mais cedo
chega mais perto

apita
[apita 3x]

qu'eu desço os trilhos
pro teu trem
                      passar


.

sacando

a poesia:

jogo
de perder


.

a caipirinha

eu sou caipira
           pé na terra
                 vermelha
           metida
                 no interior
           paulista

curtida no carvalho
           no ipê-amarelo
           e no sassafrás                 

tenho teto de barro
piso, de pedra
   
e mesmo assim
esse calor
esse calor que me consome

(entenda o que isso quer dizer)

MANTENHA
         A TEMPERATURA
         & A UMIDADE

o que pinga
de mim é açúcar

o que pinga
é cama-de-açúcar


.

a negra

eu continuo
bebendo
a despeito do sangue
                da caçada
                do caçador
                da caça
                do homem
                do animal
                do jaguar

eu continuo
bebendo
apesar da lua
           de ontem


língua de Kali
me lambendo por dentro


labaredas



.          

puro

eu nunca
consumiria um amigo
                 um cão
                 um livro
                 um poeta
                 um poeta puro
                 um poeta duro

com gelo


.

faça-o


sem
moderação


.

não há

não


.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

questões de autoria



um pensamento de/do autor


Eu sou uma autora.
Não apenas deste texto, que leio agora, mas também de literatura. Não tenho livros publicados, mas escrevo contos, poemas, crônicas, textos assumidamente literários, que guardo na memória frágil do computador. E é por isso que quero refletir sobre autoria a partir da minha vivência autoral, que não pode ser comprovada já que, sem o suporte físico dessa escritura, o leitor terá de acreditar na minha palavra sobre ela. Na minha assinatura. Assinatura virtual.
            Dizendo isso – ou melhor, escrevendo – já me vejo às voltas com uma questão essencial: o autor é aquele que escreve. Mas é aquele que escreve e que sabe que escreve; que sabe que escreve coisas autoráveis; que, por serem autoráveis, o suporte credita-lhe autoria; pois é ele quem o assina; e a quem um conjunto de instituidores, que formam a instituição, julga e assina sobre sua autoria.
            Como autora, a última coisa que assinei – e a primeira de grande valor – foi uma carta precatória, condenando minha autoria num crime ao qual tenho de responder segundo julgamento especializado. Uma carta precatória é um instrumento de perseguição e quando a assinei foi como se ouvisse uma voz (da consciência?) dizendo que é absolutamente impossível fugir da autoria. Toda obra, literária ou criminal, precisa de um autor e eles virão atrás de você – neste caso você sou eu – cobrar a responsabilidade por ela. Portanto, o autor é aquele que tem de responder por seu ato de autoria mediante um julgamento.
            Mas, algo de bastante revelador desse lugar de autor ocorreu depois de ter assinado o documento: o oficial solicitou que assinalasse uma opção entre “aceitar a condenação” ou “recorrer”. Aceitar a condenação seria aceitar a culpa que me atribuem e pagar a pena que julgam merecida aqueles que, diferente de mim, não foram testemunhas presenciais do processo, que envolve uma série de acasos que me levou ao resultado que constitui um crime. Já recorrer significa que, embora ciente da pena, assumo que não posso responder por ela, pelo menos não sozinha. Frente a isso, proponho uma visão de autor como sendo aquele que, mesmo assinando uma obra, não quer (ou não pode) se responsabilizar sozinho, tendo em vista que, ao lado da sua assinatura, gravita a assinatura de um julgamento a respeito dela que só leva em conta parte do todo.
A questão, então, seria se o agir autoral poderia ser tomado como um agir alheio à ética, já que se nega a responder. Desde o lugar de culpada atribuído a mim – estranho lugar onde ocupo diferentes posições, a saber, de executora e vítima ao mesmo tempo – defendo-me dizendo que não: essa fuga não configura um ato antiético, porque a mesma assinatura que firma o compromisso entre autor e obra, desestabiliza essa relação por estar vinculada à ideia de “ciência”. Estar ciente é da ordem do saber, é ser atravessado pelo conhecimento sobre o que se assina. No entanto, uma obra literária, assim como um crime não premeditado, está exposta e aberta aos acasos, aos acidentes, que mudam constantemente o rumo do que será o produto julgado ao final.
O autor, por mais que tenha uma intenção, não tem ciência sobre tudo que escreve ou que se escreve: sua intencionalidade é atravessada pelo acontecimento da escritura no infinito contínuo do seu dizer. E assim, a única coisa de que pode se declarar ciente é de que querem que ele responda por algo que não pode, e não pode simplesmente porque não sabe. À pergunta que a ele se coloca tem uma resposta previsível – “não sei” –, porém inadmissível na cultura da razão, onde o não-saber é hierarquicamente inferior ao saber e, por isso, estranho à escrita que, por si só, é comumente tomada como a representação máxima do saber.
Então o autor é, no que diz respeito à minha experiência, aquele que está sempre em fuga porque, desde sua assinatura, está condenado a responder por algo que não é capaz e, por isso, terá de viver em liberdade provisória, cooptado nesta contra-assinatura que o apreende. Ou seja, numa contra-assinatura que é da ordem da leitura, cuja assinatura de autor já está contaminada pela do leitor que, no seu dizer, o incorpora: a assinatura do autor se torna traço na produção de outro texto que pode repeti-la, afirmá-la, endossá-la, contrariá-la, julgá-la, negá-la, deslegitimá-la e, inclusive, calá-la.
Sua assinatura é, portanto, mais do que uma marca gráfica e está numa relação de presença-ausência, rastro de uma intenção localizada num passado espectralmente presente num presente que se estenderá até o futuro. A assinatura marca o testemunho do seu ter-estado lá, mas, junto com isso, o seu ter-saído desse acontecimento cuja autoria se realizou em mão dupla: autor de um lado e escritura de outro, traços que se cruzam no acontecimento aberto da leitura.
Essas séries e sérias implicações que recaem sobre o autor e a marca de autoria fundam um lugar, um espaço denso de temporalidades em ebulição junto a tantos elementos gravitacionais, do qual a única coisa a fazer é fugir tão logo nele se entre, colocar um pé dentro é já estar com o outro fora.
No entanto, a consciência de estar fugindo é sempre assombrada pela culpa. O autor em fuga não é ingênuo: sabe que frequenta uma estranha instituição que reserva a si o direito de não responder pelo que diz, mas também sabe os riscos dessa soberania num momento em que se diluem as fronteiras entre ficção e real – ou pelo menos em que essa separação é posta em xeque por diferentes discursos. É o perigo de que as demais instituições também se sintam no direito de ser sua pergunta e sua resposta que assombra o exemplo de autor que tomo aqui. O autor, do qual exemplo sou.
É claro que ainda tenho muito a pensar sobre isso, mesmo porque para mim essa é uma questão real que diz respeito à minha liberdade e às formas de prisão que posso suportar. Porque eu sou uma autora. Eu estou neste lugar de autoria. E o que vejo quando olho ao redor é que este lugar é habitado por vozes que camuflam um lamento pelo que de inconsciente atravessou o acontecimento da escritura. Um lamento que inaugura o lugar de um pedido de perdão: perdão por não poder dizer, perdão por não saber dizer. E, se tem de pedir perdão, é porque o autor é aquele que é imperdoável.
Por isso, enquanto autora, ainda que imperdoável, eu, mais uma vez, peço: perdão.


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ouriço, alojado no peito

CHE COS'É LA POESIA?

[Jacques Derrida]
 

Para responder a uma tal questão - em duas palavras, não é?- pede-se que você saiba renunciar ao saber. E que saiba disso sem jamais se esquecer: desmobilize a cultura, mas não se esqueça nunca, em sua douta ignorância, daquilo que você sacrifica no caminho, atravessando a estrada. Quem ousa perguntar-me isso? Mesmo que não pareça, pois sua lei é desaparecer, a resposta vê-se ditada. Eu sou um ditado, profere a poesia, decore-me, recopie-me, vele-me e guarde-me, olhe-me, ditada, sob os olhos: trilha sonora, wake, traço de luz, fotografia da festa em luto.

A resposta vê-se ditada de ser poética. E, por isso, tendo que se dirigir a alguém, singularmente a você, mas como se se dirigisse ao ser perdido no anonimato, entre cidade e natureza, um segredo partilhado, ao mesmo tempo público e privado, absolutamente um e outro, absolvido de fora e de dentro, nem um nem outro, o animal que se lança na estrada, absoluto, solitário, enrolado em bola junto de si. Ele pode vir a ser esmagado,justamente, por isso mesmo, o ouriço, istrice.

[...]

Assim surge em você o sonho de decorar. De deixar-se atravessar o coração pelo ditado. De uma só vez e isso é o impossível, isso é a experiência poemática. Você ainda não conhecia o coração e assim o aprende. Por essa experiência e por essa expressão. Chamo poema aquilo que ensina o coração, que inventa o coração, enfim aquilo que a palavra coração parece querer dizer e que na minha língua me parece difícil distinguir da palavra coração. Coração, no poema "aprender de cor" (a ser aprendido de cor), já não denomina apenas a pura interioridade, a espontaneidade independente, a liberdade de atingir-se ativamente reproduzindo o rastro amado.

A memória do "de cor" entrega-se como uma oração, é menos arriscado, a uma certa exterioridade do autômato, às leis da mnemotécnica, a essa liturgia que imita superficialmente a mecânica, ao automóvel que surpreende sua paixão e avança sobre você como se viesse do exterior: auswendig, "de cor" em alemão.

Logo: o coração lhe bate, nascimento do ritmo, para além das oposições do interior e do exterior, da representação consciente e do arquivo abandonado. Um coração se abate, nos atalhos ou estradas, livre da sua presença, humilde, próximo da terra, bem baixo. Reitera murmurando: nunca repete ...Em um só algarismo, o poema (o aprender de cor) sela juntos o sentido e a letra como um ritmo espaçando o tempo.

Para responder em duas palavras, elipse, por exemplo, ou eleição, coração ou ouriço, terá sido necessário a você desamparar a memória, desarmar a cultura, saber esquecer o saber, incendiar a biblioteca das poéticas. A unicidade do poema tem essa condição. Você precisa celebrar, deve comemorar a amnésia, a selvageria, até mesmo a burrice do "de cor": o ouriço. 

Ele se cega. Enrolado em bola, eriçado de espinhos, vulnerável e perigoso, calculista e inadaptado (pondo-se em bola, sentindo o perigo na estrada, ele expõe-se ao acidente). Não há poema sem acidente, não há poema que não se abra como uma ferida, mas que não abra ferida também. Você chamará poema um encantamento silencioso, a ferida áfona que de você desejo aprender de cor. Ele acontece, então, essencialmente, sem que se tenha que fazê-lo: ele se deixa fazer, se deixa levar, sem atividade, sem trabalho, no mais sóbrio palhos, estranho a qualquer produção, sobretudo à criação. O poema cai, benção, vinda do outro. Ritmo, porém assimetria. Não há nunca senão poema antes de toda poiesis. Quando, ao invés de "poesia", dissemos "poética", deveríamos ter especificado: "poernática". Sobretudo, não permita que se reconduza o ouriço ao circo ou ao carrossel da poiesis: nada a se fazer (poiein), nem "poesia pura", nem retórica pura, nem reine Sprache, nem "realização-da-verdade". Apenas uma contaminação tal e tal cruzamento, este acidente. Essa volta, a viravolta dessa catástrofe. O dom do poema não cita, não tem nenhum título, não faz mais histrionices, ele sobrevém sem que você espere por isso, tirando o ffilego, cortando com a poesia discursiva e sobretudo literária. Nas próprias cinzas dessa genealogia. Não a fenix, não a águia, o ouriço, muito baixo, bem baixo, próximo da terra. Nem sublime, nem incorpóreo, angélico talvez, temporariamente.

De agora em diante, você chamará poema uma certa paixão da marca singular, da assinatura que repete sua dispersão, a cada vez, além do lagos, ahumana, dificilmente doméstica, nem mesmo reapropriável na família do sujeito: um animal convertido, enrolado em bola, voltado para o outro e para si, uma coisa em suma, modesta, discreta, próxima da terra, a humildade a que você dá um sobrenome,transportando-se com isso ao nome para além do nome, um ouriço catacrético, todas as flechas para fora, quando esse cego sem idade ouve mas não vê a morte vir.



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