sábado, 6 de julho de 2013

um esclarecimento



sei que você vai sofrer com o que vou falar, mas preciso mesmo desabafar. sabe, eu sonho com um mundo, ou com um tempo, em que as palavras não sejam necessárias, que toda comunicação aconteça telepaticamente e sem sintaxe. infelizmente ainda está longe de ser assim.

mas algumas pessoas, nas quais me incluo, às vezes precisam ficar em silêncio e seria tão bom pra mim se você conseguisse respeitar isso. você pode estar se perguntando será que é comigo que ela está falando? talvez não, mas pode ser que sim, principalmente se você já ligou quatro vezes no meu celular e eu não atendi, e depois, descontente, mandou mensagem me cobrando por não ter atendido e questionando o que fez para ser tão mal tratado(a) assim.

o que eu queria te dizer é que às vezes as pessoas não atendem o celular ou não respondem mensagens ou e-mails simplesmente porque elas não podem fazer isso ou não querem fazer justamente porque não podem. e que isso não necessariamente tem a ver com você porque você não é o centro do universo para todas as pessoas. mas não estar no centro do universo não significa que você não é querido e amado também.

acontece que às vezes as pessoas perdem seu próprio centro, perdem inclusive o controle da própria vida. às vezes elas estão tristes e não têm palavras para dizer ou para retribuir as suas tão calorosas. às vezes as pessoas, nesta situação, já não aguentam tanta demanda e o seu amor que cobra amor e atenção acaba sendo mais uma obrigação sufocante nessa vida toda danada de confusa que ela está vivendo. porque talvez você não sabe que ela sabe que você tá ligando pra cobrar aquele programa combinado há três semanas, ou três meses ou três anos, aquele café, aquela conversa e ela não pode te dar nada disso porque, neste momento, ela está vazia de si. ela está tentando se reconfigurar, se reconstruir, se firmar, se encontrar, se perdoar ou qualquer coisa assim...

então seria bom se você tentasse se colocar no lugar dela, de mim porque é de mim e de você que estamos falando. mas precisa se colocar não no lugar de quem você pensa ou quer que eu seja – aquela pessoa legal, amiga, alto-astral, pronta pra tudo – você precisa se colocar no lugar dessa que eu sou. e essa que eu sou não quer ter de usar o protocolo com você remarcando o encontro, dizendo que está com muito trabalho ou que o celular não está funcionando direito porque afinal é óbvio que o celular funciona, que eu já estou em férias e que o encontro remarcado não acontecerá no novo prazo. então por que eu não te respondo dizendo isso? porque eu não consigo, porque meus dedos estão doendo, minha cabeça, meu coração. porque você não vai entender se eu disser simplesmente: não, eu não vou ou não, eu não quero. eu estaria te falando a verdade e você não iria acreditar, pior, iria ficar pirando e perguntando o porquê de eu não querer. e é por isso que você me obriga a não te atender.

eu sei que você pode estar precisando de mim. eu nunca me negaria a alguém que amo se tivesse mim para lhe dar, mas acontece que eu também estou precisando de mim: mim está me fazendo uma falta danada e eu não posso dividir esse restinho com você. se eu fizer isso vou me consumir toda até meu fim.

eu sei que estou te deixando muito triste agora. e isso me entristece demais. inclusive, não sei se você sabe mas muitas pessoas acabam se suicidando porque não dão conta da demanda de amor pelo qual são cobradas, porque se consideram incapazes de suprir as expectativas das pessoas para com elas. mas fique tranquilo: eu não vou me matar. pelo menos enquanto esse texto estiver ressoando dentro de você porque sei que se sentiria culpado pelo resto da vida. então para não haver problemas futuros, fique certo de que se um dia eu me suicidar isso não terá tido nada a ver com você nem com o seu umbigo.

eu sei também que é mais fácil pra você esquecer tudo o que eu disse até aqui e ficar só com sua interpretação do texto: coitada ela está em depressão, eu preciso ajudá-la. veja bem, não persista com esse raciocínio porque, mesmo que eu esteja em depressão, quem é que te assegura – a não ser o seu ego – que você pode me ajudar? o que te faz pensar que insistir em falar comigo, mandar mensagens grosseiras me fazendo sentir culpada, quando obviamente eu não quero e não posso, é a fórmula mágica para me salvar? 

mesmo porque, se você me conhece bem, sabe que eu sou uma das pessoas mais incríveis que você conhece – e eu acho que sou mesmo senão você não estaria dando tanta atenção para mim lendo esse texto até aqui. então, sendo eu uma pessoa inteligente, sensível e especial, você não acha que quando eu precisar de ajuda eu mesma não irei procurá-la? (ou você acreditou mesmo no parágrafo do suicídio?). às vezes sinto que você me subestima, afinal eu tenho o seu telefone, o seu e-mail e o seu contato no facebook... :)

você deve estar se perguntando: então o que eu devo fazer? e prontamente sua resposta raivosa deve ser: devo abandonar essa pessoa ingrata. não, você está errado. respeitar não é abandonar, não é deixar de amar. respeitar é tentar entender o que o outro precisa e amá-lo com o dom do amor, porque o amor não pertence a você e nem a mim e por isso não espera do outro o que não pode ser dado.

e agora você deve estar ainda mais confuso, se perguntando sobre a história da raposa e do príncipe. então, eu não sei francês mas estou convencida que há um erro gravíssimo, talvez de tradução, nesta história, porque o Exupéry não iria dizer uma besteira dessa e comprometer toda uma geração de leitores inocentes. ademais seria totalmente incoerente com o que acontece no livro, afinal a gente lembra que o príncipe cativa a raposa, mas nem por isso se responsabiliza por ela. o príncipe se sente responsável sim ma é pela rosa chata e metida que o cativou, por isso ele se mata: pra voltar pra ela. tu te tornas responsável por aquele que te cativa porque por ele você se deixou cativar. a diferença é delicada, mas óbvia: se eu te cativo e me sinto responsável por você é cativeiro, prisão; se você me cativa e mesmo assim faço tudo por você é amor.

então, se eu te cativei e se você se sente responsável por mim, neste momento em que me recolho ao silêncio, e por isso quer muito fazer algo por mim, quando eu não atender as ligações, não responder as mensagens ou e-mails, escreva uma mensagem dizendo apenas: eu te amo e estou aqui se precisar. ou, se preferir, pode também me mandar flores porque sabe meu endereço e isso também não é difícil de descobrir. mas me mande um cacto porque é possível que, dadas minhas condições físicas e psicológicas, eu também não esteja muito disposta a molhar a planta com regularidade e ficaria muito muito triste se, no futuro, me perguntasse a quantas anda a violeta que matei de sede.

por fim, estou consciente de que posso perder sua amizade e de muitos outros que estão agora achando que são você – porque eu tenho certeza que você, apesar de tudo que eu disse, ainda acha que é só com você que eu faço isso porque sei que é extremamente difícil sair da posição de centralidade com a qual se acostumou – mas a verdade é que já perdi alguns amigos que se sentiram ofendidos por eu não lhes responder, e esse desabafo é um pouco um esclarecimento a eles também.

de qualquer forma, os amigos que restarão – mesmo que poucos – serão os mais verdadeiros e nossa relação será pautada na franqueza, podendo dispensar todos esses protocolos chatos que tornam a vida da gente ainda mais difícil do que ela já é.

um beijo e tu tu tu tu...

geruza

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