quinta-feira, 18 de julho de 2013

rituais

deito-me no centro
o canteiro de camomila é colo macio pro meu grito
fundo de silêncio
não me ouvem, não me veem, então
não sou

galhos deitam sobre mim
flores & aromas cicatrizantes cirurgicamente operam 
a insônia das pálpebras doentes
vejo o escuro seco no espelho astral 
invadido por brilhos difusos e va-ga-lu-mi-
antes

depois
derramo-me corpo na hemorragia dos dias
e noites perdidas e inférteis
tudo o que poderia ter sido sonho e não foi
incontrolável menstruação
involução do corpo lúteo
piranha vermelha se agitando frenética
no útero
perfurado de agulhas

boneca
voodoo de mim mesma
corpo animado pela magia
acariciado pela mão esquerda da morte
espetado pelas garras frias da vida
cama de sangue sobre a prata do ogan
camomilas insones pendem agora sobre os caules
tingidas e inférteis
descoladas do hálito soprado à boca minha

respiro:

matança no canteiro de flores virgens e inocentes
pequeninas camomilas caem calmamente uma a uma
e sepultam-se no solo que as germinou

a traição da terra confirmada
no gene humano: é pós
e ao pó retornará depois 
do por-enquanto

levanto-me
e o corpo nu caminha apenas
sem dor sem culpa sem lembrança
pisando camomilas sacrificiais

me ouvem, me veem, eu sou 

uma mulher que caminha para o banho
deixando seu rastro de sangue no azulejo gelado 
e levando consigo um loa firmemente montado às costas

.

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