sábado, 20 de julho de 2013

Gimno Spermas



madeira de lei?
argamassa e pedra?
moldura afiada de facas?
elmo blindado no bronze?
fóssil duro de tiranossauro?
escultura fundida em ferro?

onde a cor?
onde o aroma?
onde a maciez de pétalas?
onde o sabor adocicado de pólen?
onde a efemeridade da primavera?
onde, enfim, sua poesia?

onde a flor no que flor não se parece?

onde a ternura esperada da flor
na vida lenhosa das pinhas?

esquecidas no descaso da natureza
endurecidas no tempo do pinheiro
amantíssimas guardiãs de sementes
                                 nuas e aladas

que fizeram à flor
para que pinha fosse?

não saberia o poeta
que não soubesse lenhar

o poeta não veria o amor das pinhas
no casulo sem promessa
de rosa, gerânio, jasmim
antes, veria ódio, soberba, petulância
no desejo a ele arrogante
de sonhar tua companhia

talvez soubesse o pinheiro
que desde o alto observa
seu destino de terra
nas mãos do machado

saberia também o machado
que fere sem intenção
porque guarda a dor
na memória do cabo

o lenhador que ama
o pinheiro ama o machado
mesmo sem entender
enfeita sua casa de pinhas

a pinha é pinha
e porque tão pouco flor
à pinha-flor resiste à poesia

.

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