segunda-feira, 22 de julho de 2013

carta de Artaud à Anaïs Nin [fragmento, 1933]

"Eu nunca acreditei encontrar em você a minha loucura. Você tem o mesmo silêncio que eu. E você é a única pessoa diante de quem o meu próprio silêncio não me incomoda. Muitas coisas nos aproximam, mas sobretudo uma; o nosso silêncio.
Eu quero de você abraços violentos, quero descansar em você e que possamos sentir essa vibração total, eu e você, essa vibração que desperta as coisas do espírito. Somente com você um abraço pode não ser inútil.
Uma necessidade violenta que nos ultrapassa empurrou você pra mim, você teve consciência disso, você viu as fantásticas semelhanças, sentiu o bem que eu podia lhe fazer e aquele que você estava destinada a me fazer.
Mesmo que às vezes eu seja cego, eu tenho medo que o destino cegue você também e que você perca de repente o contato com todas essas descobertas, com essa vida que deve fazer o seu maravilhamento. Tenho medo que o seu corpo de repente seja arrastado e faça com que você não me reconheça mais ou num desses períodos em que estou separado de mim mesmo, a decepção que você vai sentir faça com que você deixe de me reconhecer e que eu a perca e reperca completamente.
Alguma coisa maravilhosa está começando e pode preencher uma vida inteira. Eu lhe digo isso com toda a seriedade e toda a gravidade com que sou capaz.
Existem muitas coisas que me unem a você para que eu lhe peça para romper nossa relação. Trata-se apenas de fazer com que cada um de nós possa viver uma vida diferente, mas sem separação.
Mortos, os outros não estão separados, eles giram ainda em volta do seu cadáver. Eu, eu não estou morto, mas estou separado [...]"

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