domingo, 23 de junho de 2013

pessoas que já nascem história

Ela tava ali do ladinho catando latinha. Tudo nela é miudinho. Pequenininha. Velhinha. Magrinha. Cabelo branquinho por debaixo da toca. Pernas e braços e rosto e dedos, tudo, tudo fininho. Só o sorriso gigante. Sem dentes, porque deve de ter pago com eles o tamanhão da disposição. Ela anda com agilidade, desliza por entre as mesas, enquanto a gente come. Mas só enche o saco com nossas latinhas vazias. A roupa é a mesma desde sempre. Pelo menos o meu sempre que já é tanto. Então, que a chamei e entreguei-lhe minha coca sem coca. Sorriu e agradeceu. Sempre agradece. Aí tive vontade de saber o nome. Ela disse. Eu não entendi. Repetiu. Mais uma vez não compreendi. Ouvi Marciana, mas Marciana? Dona Marciana? É pode ser, não parece daqui. Parece de longe, bem longe. Então lhe demos a porção de peixe e polentas fritas. Tão pouco, queria dar-lhe um abraço, mas tive medo de quebrá-la. Ela enrolou tudo numa camiseta, colocou na bolsa e aquilo nem me pareceu estranho. Perguntei quantos anos. Ela não sabia, disse que a mulher que sabia morreu há muito tempo. Agora não tinha mais pra quem perguntar. E havia ainda outras mesas e latas vazias, então se foi. Fiquei pensando que, como não sabia a idade, talvez também que nunca morresse. Continuaria para sempre assim deslizando entre as mesas, até ir sumindo, sumindo, e, devagarinho, sem que ninguém se dê conta, um dia desaparecer.


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