domingo, 9 de junho de 2013

6.

eu não devia ter saído de casa aquele dia. ou aquela noite? eu não devia ter saído de casa aquele dia de noite. ou aquela noite de dia? não importa. não importa porque é mais um clichê de sentido esvaziado. uma fala que existe só pra ocupar o espaço de um silêncio. por que diabos as pessoas não aprendem a fazer silêncio? por que precisam desesperadamente entupir qualquer espacinho em branco de blablabla-blablabla! e eu agora? por que eu to falando das pessoas? eu não tenho nada que falar das pessoas tenho de falar de mim! ah já sei eu to fazendo aquele joguinho de universalizar de coletivizar o eu pra naturalizar pra me sentir pertencente... hahaha eu sei que é isso! mas pertencente a quê? a um monte de cagões que precisam colar uns nos outros pra se sentirem normais? o que eu to querendo é arranjar uma bela desculpa bem grandona pra poder entupir meu silencio de fala... olha se não era pra eu calar a boca e ficar quieta já que to metendo o pau em quem faz isso! mas que porra é essa se eu to fazendo o mesmo? por que eu também tenho de falar falar falar? tudo bem que eu preciso disso eu tenho uma missão - tem porra nenhuma! não não eu inventei uma missão para não ficar calada na verdade eu estou fazendo a mesma coisa que todo mundo... é eu to cagando de medo do silêncio tentando desesperadamente acender todas as luzes do pensamento e se bobear dormir de olhos abertos que nem eu faço quando as meninas saem com os namorados que nem quando eu fico sozinha no apartamento gigante apertada entre a parede e o cobertor olhando a avenida deserta e as luzes do itau sacando os ruídos da madeira e pensando meu onde é que eu to? como é que eu vim parar aqui nesta vida se ontem mesmo... caralho eu vim pra cá pra fugir de mim porque gastei dois tênis em dois meses caminhando sem parar dando voltas e voltas e voltas em torno de mim mesma e agora e agora  to aqui mergulhada no mais profundo da minha consciência olhando pra minha cara no espelho que nem tenho e sentindo fervilhar esse tanto muito de clichê ocupando espaço na minha cabeça. eu queria era eliminar todo ruído todo barulho toda palavra todo sentido todo clichê por isso lavo tanto a porra do banheiro dessa casa porque gosto de limpar toda aquela sujeira do vãozinho do azulejo aquelas melequinhas do box o musgo a poeira a merda toda que tem dentro da minha cabeça. eu queria eu queria enfiar minha cabeça na privada e dar descarga porra eu queria... ah é então por que não faz? ah eu tenho nojinho... hahaha! eu não essa que me é é que ainda tem nojinhos eu não tenho nojo de nada mais porque porque o quê? não entendo porque esses desvios tantos que eu faço assim eu nunca vou chegar no ponto naquele ponto naquele momento em que... não consigo não consigo... deve ser porque li um texto sobre o método desviante e devo ter incorporado isso ou... olha aí eu de novo fazendo joguinho comigo mesma já to de novo coletivizando teorizando dando ares de que sei do que to falando que to no camando no controle dessa máquina máquina o caralho! dessa cabeça! eu não quero mais usar metáfora eu não quero mais poesia eu quero a palavra mais próxima da carne e do osso das vísceras eu não tenho nada que mimimi porque esse mimimi me afasta do que eu to procurando o que eu to procurando é feito de gente e... porra escutei um abrulho... fiquei gelada... travei...

a gente não pode aprar isso mermã ou vai ou vai agora que você começou não tem mais jeito bora com medo mesmo volta lá volta lá no começo e pega a linha de novo vai pega pega pega... certo certo certo era do clichê que eu tava falando... tá... muito clichê era isso? é. não há nada que ocupe mais espaço numa cabeça do que os clichês. e tem de todas as formas e tamanhos bonitinhos, estranhos, lisos, rugosos, discretos, exagerados, de dupla penetração, enfim tem clichê pra todos os gostos e todos os buracos é só pegar e sair usando e sair gozando claro porque foi deus quem quis assim você tem de dar graças a deus poderia ser pior agora o jeito é descansar você tem que agradecer por você estar bem deus sabe o que faz tudo tem sua hora você tem ido ao médico? não foi culpa sua maktub deus escreve certo por linhas erradas você tá cuidando da sua espiritualidade? antes assim ninguém sabe o que vem pelo caminho todo mundo tem sua hora você tá trabalhando a mediunidade? isso acontece isso acontece ISSO ACONTECE isso tá sempre acontecendo eu mesmo conheço uma pessoa que aconteceu duas vezes e ela tá lá levando a vida normal precisa ver como ela é forte sorridente nem parece que não tem que ficar assim vai passar um dia a gente esquece nada como um dia depois do outro você tá tomando o remédio? olha você tem de se cuidar hein e depois tudo de novo mais três mil vezes e depois ah depois tudo de novo porque é replay... é vai demorar pra me livrar desse monte de nada da minha cabeça que fica martelando martelando numa toada vazia que só lateja eu sei que eles vem com boas intenções mas não adianta dá mais raiva ainda ouvir isso porque não deveria ter paliativos pras dores mais cortantes a gente deveria sentir tudo até o extremo e quando a dor não tivesse mais o que doer aí eu acho que começaria a regredir mas não! tem sempre alguém acariciando as penas da gente aí meu aí que isso não passa nunca fica voltando de conta-gotas e meu eu posso garantir posso garantir que quando neguinho tá com os dois pés os dois no parapeito da janela e sente aquele vento percorrendo a espinha e levantando os pelinhos que nem sabia que existia atrás da orelha direita meu nenhum desses clichês passa pela cabeça nenhum e se passa não faz sentido algum... não são essas palavras que fazem o joelho dobrar depois apoiar o corpo nas mãos tirar um pé depois outro depois se afastar uma passo depois do outro de costas ainda mais um outro até o corpo todo dentro do quente da sala deitar no tapete se abraçar como pode e reaprender com cada batida do coração a sentir de novo o medo da morte... se a gente desce mermã não é por causa dos clichês é por causa de outra coisa. outra coisa. OUTRA COISA. uma coisa que acho que nunca vou saber o que é.

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