quarta-feira, 15 de maio de 2013

um dizer aleatório e acadêmico


                                                                As histórias bonitas são ruins. As histórias lindas são piores ainda.
Falo das grandes histórias: daquelas que nos marcam mais profundamente. Elas nos engendram, aprisionam, nos tornam reféns de suas estruturas, nos obrigam a elas. Não nos deixam abandoná-las nunca. Essas histórias, em tudo singulares, nos escravizam. É quase impossível dizer: pronto, agora acabou, levo comigo o que em mim me transformou e uma lembrança fluida; nada de peso, correntes, bagagens desnecessárias. Também não me parece possível dizer: essa história que foi já não é mais, então já posso voar e viver outras histórias. Nunca: as melhores histórias insistem em se esticar, às vezes, até o vazio completo de sentido. Rede de significantes decorativos; fotografias sem gente na parede. Estranha prisão de portas abertas. Sequestro sem resgate. Síndrome de Estocolmo. Vítima imiscuída ao seu captor. Essas histórias são perigosas. E isso vale também para as histórias que ainda não foram escritas. Ou para as que nunca serão. Isso é sobre literatura, mas também sobre a vida real.

[Início do capítulo, ainda sem nome e sem continuação, que vem depois do capítulo chamado Capítulo Suicida, da minha pesquisa de nome provisório Como se pelos dedos escorresse... uma tese]


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3 comentários:

  1. e como alguem outro disse: e eu aqui escutando e aprendendo

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  2. Lindo! Extremamente poético. Histórias, livros e imagens tem essa potência de aprisionar... ou de nos tirar do chão, remeter a outros espaços e relações. Parabéns!

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  3. obrigada Jorge por sua leitura e comentário!
    agradeço de coração :)

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