domingo, 19 de maio de 2013

cerbero



se pensas poder guardar
para sempre os portões
da poesia
aprisionando palavras e
sentidos

saibas cérbero, múltiplo 
Poeta
ser heteronímico:
tuas três cabeças
não me assustam

conheço teu segredo
sei-o desde dentro

porque caminhei o reino
dos Mortos
bebi daquelas águas
pisei poços & poças
conheço o fundo & o raso

e olhei-te os olhos
todos os seis
vazios ocos & secos

mirei-te e nem assim
me vias
leve alada & translúcida
penetrei-o e o descobri

acéfalo

três cabeças fantoches
animadas por comando
externo
disfarces de uma força 
motriz
ponto fracoforte de sua
carnadura humana:

no peito guardados
sob grossa couraça
irreveláveis
três corações pulsam
    amorosos
    piedosos
    solidários
    solitários

cérbero, ordeno a ti:
abra-me os portões
teu segredo a mim
pertence:

não guardas, prendes
prendes porque ama
                  (o que ama)
prendes porque tem
                  (o que pensa que tem)
demasiado pavor
                  de perder


.

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