quinta-feira, 9 de maio de 2013

casa dos espelhos



julga-me com a impureza do seu coração
do seu pensamento e dos seus atos
sem permitir a mim réplica e defesa

sobra-lhe em exímio redator burocrata
construindo suntuosas arquiteturas verbais

falta-lhe o poeta
      espírito de tolerância e humildade
      olhos pregados na noite escura
      intérprete dos erros e da humanidade

[críticos muitas vezes erram]
            
condena-me pelo crime que comete
o de perder-se na casa de espelhos
ou, não fosse o engano,
tamanha seria a ousadia de roubar para si
a identidade construída de F.
e crer-se destino dos lamentos de A.
a quem não conheço para além do papel
diminuta ficção embebida em
ínfimos detalhes do real

conhece, ou melhor, se conhece
[pois já não o sei]
as artes da poética
deveria saber o que significa
re-pre-sen-ta-ção

se um dia fomos amigos
[e eu realmente acreditava que sim
que éramos amigos de papel]
recomendo-lhe que olhe a si
com a mesma rigidez
que dispensa a mim

e se mesmo assim não compreender
nada do que respeitosamente lhe digo
se mesmo assim continuar agindo
com irresponsabilidade perante o Outro
seja ele quem for

ainda poderá ser e fazer qualquer coisa
até literatura

menos Poesia.


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