terça-feira, 28 de maio de 2013

2.

eu me pergunto: quantas vidas a gente pode viver dentro de uma vida que é essa mesma vida de todo dia da gente? meu deus parece que são tantas as que vivi. não sei porque começo a falar sobre isso agora. mentira eu sei porque estou fazendo isso embora seja um fazer que me faz e não o contrário porque tenho outras coisas pra fazer um milhão delas inclusive uma tese de doutorado e estou vasculhando vísceras e pedaços de gente sobre o pedaços de mim. eu sei eu escrevo para esgotar todas as palavras do meu de-dentro as palavras que constroem meus mundos os reais os imaginários o mundo crítico a poesia e seja lá o que mais tenha aqui dentro além desse jacaré e um urso polar porque eu ando cada dia mais sozinha dentro de mim e. eu escrevo com a esperança de chegar a um vazio total uma ocura sem tamanho e sem tempo num onde-quando finalmente possa encontrar aquilo que procuro: e eu não sei o que procuro porque o que procuro é o que esqueci então é uma busca aleatória e desesperada por uma lembrança uma lembrança uma lembrança esquecida dentro da minha memória que eu sei que vive nesse oco nesse silêncio nesse escuro e pulsa e pulsa e pulsa e se eu conseguir agarrar esse esquecido e sei lá o que sei lá se eu socar a cara dele e abrir à força seus olhos ele pode acordar e ser lembrança viva e aí se eu só esbarrar nela que seja eu vou ficar livre eu sei que vou ficar livre e então eu não vou doer tanto tanto tanto... esses dizeres todos que não fazem muito sentido só servem pra mim mas eu poderia eu tenho certeza que poderia ser uma pessoa melhor se pelo menos nem que pelo menos pra mim mesma. e no meio de tantas vidas e tantas imagens e quadros e fotogramas não sei porque foi aquela a do olho a que me cortou naquele surto. porque hoje eu não estou surtada. sinto que estou muito afastada do que procuro e isso tranquiliza meus pensamentos. a verdade não tem sintaxe. e eu estou mergulhada na mentira do começo-meio-fim. mas eu queria mesmo que aquilo fosse uma metáfora do tipo o olho dele transbordou de amor por mim ou o olho dele desabou de emoção mas não ele disse socorro socorro ele gritou amor por favor pelo amor de deus me ajuda e ele tirou as mãos que cobriam seu olho e aí a desmetáfora a coisa crua a coisa gente escorreu toda pela face e eu só pude olhar para aquele olho não-olho aquele buraco de olho ausente e pensar meu deus meu deus meu deus e depois eu fiz tudo o que tinha pra fazer porque a gente faz o que tem de ser feito mesmo sem saber o que é e eu corri e agora não posso mais dizer o que se passou porque começo a entender que essas coisas nunca nunca se resolvem dentro da gente e já tem tanto tempo e eu ainda sinto tudo de novo e choro com os meus olhos sãos e choro e tudo ficou tão branco todo mundo de branco e eu apertava a camiseta e pensava que se ela permanecesse molhada os médicos podiam tirar o olho líquido dali e moldar enrolar que nem bolinho de chuva massinha colorida de modelar e cobrir com retina eu só pensava que ele não podia ficar cego porque ele não podia ficar cego porque não podia a gente era ainda tão jovem e deus era bom deus era bom não era? porque apesar de tudo eu ainda o amava e apesar de tudo mesmo que era tanto tudo um caminhão de coisas pesadas sobre minhas costas minha cabeça cheia de cocaína traficantes e os fantasmas dos nossos amigos mortos um a um com a boca aberta e o nariz cheio de pó e depois X e Z estuprados  assassinados e eles nem usavam mais e queriam casar e frequentavam o NA e eram tão lindos e jovens e  apaixonados e eu já não aguentava mais cocaina e cocaina e cocaina e mentira e mentira e mentira e traficante na porta da minha casa e clínica clínica clínica e o veneno e ele embaixo da cama e eu sozinha sozinha tentando controlar tudo roxura automutilação escondendo tudo de todo mundo e eu pensava poder dar conta de salvar ele porque o amor salva tudo até os vícios o amor não é sempre o maior dos vícios? puta que o pariu por que não o amor dele? por que o amor pra ele não substituiu aquela merda toda? e eu pensava que ele não podia ficar cego deus por favor eu juro que se o olho dele se regenerar se nascer outro olho se brotar outro olho no meio da cara dele eu vou cuidar eu vou regar com as minhas lágrimas até que fique verde de novo e depois brote uma flor bem linda e cheia de pétalas e nunca nunca mais eu termino com ele e preparo um prato de cocaina no jantar e dou a bunda pro traficante parar de cobrar o cheque sem fundo e a gente vai ser feliz pra sempre até a próxima encarnação até a próxima internação até a próxima recaída até que eu mesma fure os meus olhos com meus próprios dedos e mergulhe numa escuridão abençoada e possa descansar pra eu nunca mais fazer o que eu fiz neste dia porque este dia foi o dia em que eu disse pra ele que tava tudo acabado que a gente tinha de se separar e ele desconversou ele disse não ele disse eu te amo eu vou mudar eu vou parar só você pode me ajudar espera um pouco só só mais seis anos eu preciso de você e ele me trouxe um pêssego o primeiro pêssego do nosso pomar que a gente plantou as sementes e agora já era árvore adulta de dar frutos e eu disse pra ele que ele estava cego eu disse A. você não percebe que está me matando?! A. pelo amor de deus VOCÊ ESTÁ CEGO porque não vê o que esta acontecendo com você comigo com a gente que a gente não tem mais futuro junto que a gente nem tem mais futuro que eu não aguento mais viver assim essa vida que não é minha esse vício que não é meu eu disse pra ele que ele estava cego e aquilo era uma metáfora mas três horas depois já não era mais.


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