sexta-feira, 31 de maio de 2013

500 cartas de amor impossíveis

Essa é minha postagem de número 500 e deve ter algo de especial nisso, pelo menos sinto que. Primeiro porque 500 é metade de 1000, então é um número razoavelmente expressivo, sem ser clichê. Para mim é bastante: com 500 reais, por exemplo, posso comprar muitos envelopes; com 500 palitos de fósforo posso acender o fogão até o fim da minha vida. 

Mas com 500 posts não posso fazer nada a não ser falar deles. E falar deles é um pouco revelar o que eles são, ou dizer o que não são. Então vamos lá: eles não são poemas, não são contos, videoclipes ou fotografias. Eles são, sem exceção, cartas de amor.

Cartas que só estão disfarçadas de literatura porque são cartas de amor impossíveis. Todas com endereço certo e à alguém que compreende bem o porquê de serem “impossíveis”, o que me escusa de esmiuçar detalhes. Porém não me custa esclarecer: não são cartas de amor impossível. São cartas de amor (500!) impossíveis. 

Muitas delas se realizam mais plenamente nas entrelinhas, no avesso da forma, por detrás do conteúdo ou nas frestas dos sentidos, no entanto, a maioria são o que são: chamamentos, lamentos, argumentos, declarações, bipolaridades de amor & ódio, desejo, enfim, cartas de amor ridículas.

Mais do que aquilo que dizem, essas cartas estão carregadas de verdade, intensidade, segredos, confiança, admiração e paixão. Selei-as, num pacto imaginário, com saliva de beijos. Infelizmente, nas mãos às quais se destinavam, minhas cartas foram cruelmente depreciadas e lançadas ao fogo.

Sim, foi esse o destino dessas cartas de amor que, justamente por serem impossíveis, agora podem se passar por outra coisa.


Afinal, o fogo é o elemento da transformação, não? 

O que será então o post 501?


.

depois do meio do caminho

eu já tive um marido
     um bom marido
ele teve uma secretária
     uma secretária boa

não fomos felizes pra sempre
nem infelizes

só fomos
até onde fomos

e agora vamos
em direções diferentes:

ele, não sei

eu?

eu ando sorrindo


.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

quem sai na chuva

meu amor saiu na chuva
se molhou e pegou
medo

medo de 40 graus

já fiz de tudo e só
medo medo medo
medo

dr., e agora qual o melhor
medo de sarar?


.

palco

ontem vi colibris
sobre teus ombros

não me surpreendi
sempre te soube flor
atuando no cenário
feminino


.

paternidade

- quero que Você saiba
- ...
- eu tô grávida... e esse livro é teu.


.

bacia d'água

vê aquela bacia d’água?
      (quase nem se nota)
não é de ouro nem prata
simples bacia d’água
de lata

mas desde que se debruçou sobre ela
metendo-lhe dentro a mão em concha
acordando sua calmaria de coisa
sacando da água
               a água
obrigando-a a lamber-lhe o rosto 
                                  o pescoço
língua de fogo líquido a escorrer pelo peito
a fugir entre os dedos
                           e mais uma vez
                           captura
agora também os braços
vaivém de mãos & mãos
transbordando extremidades
tilintando toda a bacia sobre a pedra fria

desde esse dia
                       Você
destruiu o sono perpétuo da coisa lata
despertando o lirismo digno da prata


aquela bacia d’água
sou eu



.

sem título, 2013

quero dormir sobre as paredes
verticalizar-me
agarrar-me a elas com as unhas
colar meu corpo à textura fina
e deixar os pés bem longe
do chão

suspensa
     e nua claro

mas se fizer frio
enrolo-me em teias de aranha
e adormeço feliz
saciada

e aí sim quando voltar
madrugada alta e confusão
de chaves
poderá me confundir com
um quadro
      uma peça
              uma instalação

[um livro não]

e nem mesmo me ver
como todo bom curador
depois do trabalho

ou não me reconhecer
como todo bom marido
          marcar o vernissage
          com champagne e canapé
e me exibir pros seus amigos

ou finalmente perceber
que sou eu quem está ali
e talvez se perguntar
o que minha mulher está fazendo pendurada na parede?

enfim o que quer que aconteça
tanto faz
não serei mais sua
porque já terei dado pra Dali Rivera Munch Picasso Miró ah Modigliani
e Tarsila, óbvio

e todos eles terão sido bem melhores que você


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quarta-feira, 29 de maio de 2013

neblina

nuvens me nublam

nudez pontilhada
diminutos pingos d'água

umidade dentro e fora
                         e nos meios

- do que precisa, senhora?
- febre.

.

ainda sobre pitangas

Naquela manhã, depois do amor e de volta à amizade, eu reparei como você é grande. Na despedida, as folhas da pitangueira roçavam seus cabelos enquanto desvencilhava-se dos galhos e beijava carinhosamente meu rosto. E por um momento pensei em como, quase sem esforço, você poderia alcançar as pitangas mais bonitas, aquelas impossíveis à minha altura. Bastaria que levantasse os braços, talvez nem precisasse mesmo esticá-los muito, e teria em suas mãos aquilo que mais quero. O que me faz sal & saliva.

Mas meus lábios continuaram mudos e secos, o pedido não pronunciado parado na garganta. Porque, enquanto partia, outro pensamento me tomava: de que adianta poder alcançar pitangas quando se é incapaz de vê-las?


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porque pouco falei das pitangas

As pitangas que ficam no alto são mais lindas que as debaixo. Vinte centímetros mais e eu as alcançaria. As pitangas do alto com suas cores vibrantes, formas arredondadas, vincos bem marcados, leveza alada.

As pitangas de baixo são menos lindas que as de cima. Algumas são até feias quando comparadas àquelas. Facilmente à mão, reclamam apenas o esforço necessário. As pitangas de baixo com suas cores de pitanga, suas formas de pitanga, seus vincos de pitanga, sua leveza de pitanga.

As pitangas do alto eu contemplo. 
Às pitangas do alto dedico uma ideia.


As pitangas de baixo eu desfruto. 
Às pitangas de baixo dedico meus dedos, minha boca, minha língua, minha saliva e minha cama.


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reflexão

como leitora
eu sou um fracasso
como escritora
                  também

mas queria escrever
umas palavras sobre

mas como?
se esse corte vertendo sangue nas minhas costas
se essa voz presa por nós grossos na garganta
se essa memória sem registro semelhante

mas queria escrever
sobre o espanto
o horror e o silêncio

então cubro a cabeça
[ouço gritos no escuro]
e espero o filme acabar


.

eu, rio de mim

eu rio de mim

já não me sobra costela
que não tenha sido que
brada

e eu ainda amo
como quem espera

no portão


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3.

A. perdeu o olho. colocou de vidro mas nosso amor já tinha quebrado. mais um ano juntos e tudo tudo igual. eu não tinha que cumprir a promessa porque deus não cumpriu a parte dele mas não arriscava terminar porque tinha medo que ele fizesse uma besteira quer dizer besteira era só o que ele fazia então eu ficava mas rezando rezando não que eu já não acreditava em deus eu ficava torcendo pra ele me trair ou pra ele morrer logo de uma vez. é uma merda isso horrível de dizer mas eu torcia pra ele morrer de uma morte bem bonita pra eu poder viver uma vida normal do jeito que as pessoas achavam que era a minha vida. ele não morreu mas me traiu. e fim. foi no dia do meu aniversário e desde aí eu acredito naquele pedido quando se corta o bolo. demora mas acontece. até hoje ele acha que foi por causa do olho. eu sinto tanto por isso. queria pedir perdão por favor me perdoa pelos seus achamentos. sofri muito e mais de dez anos depois esporadicamente ainda sofro porque é demais de difícil deixar um vício e o meu vício era o sofrimento.   


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terça-feira, 28 de maio de 2013

oroboru

enquanto o mundo
nubla os tratados
revistas manuais
    livros

sinto me doer
a amputada
   convulsão
de um dizer
líquido e extremoso
que a         se dizia

incendioso
discursoroboru
sôfrega cegueira
alimentando-se
desidoqueemsi
era

   chama
   ilusão



.



2.

eu me pergunto: quantas vidas a gente pode viver dentro de uma vida que é essa mesma vida de todo dia da gente? meu deus parece que são tantas as que vivi. não sei porque começo a falar sobre isso agora. mentira eu sei porque estou fazendo isso embora seja um fazer que me faz e não o contrário porque tenho outras coisas pra fazer um milhão delas inclusive uma tese de doutorado e estou vasculhando vísceras e pedaços de gente sobre o pedaços de mim. eu sei eu escrevo para esgotar todas as palavras do meu de-dentro as palavras que constroem meus mundos os reais os imaginários o mundo crítico a poesia e seja lá o que mais tenha aqui dentro além desse jacaré e um urso polar porque eu ando cada dia mais sozinha dentro de mim e. eu escrevo com a esperança de chegar a um vazio total uma ocura sem tamanho e sem tempo num onde-quando finalmente possa encontrar aquilo que procuro: e eu não sei o que procuro porque o que procuro é o que esqueci então é uma busca aleatória e desesperada por uma lembrança uma lembrança uma lembrança esquecida dentro da minha memória que eu sei que vive nesse oco nesse silêncio nesse escuro e pulsa e pulsa e pulsa e se eu conseguir agarrar esse esquecido e sei lá o que sei lá se eu socar a cara dele e abrir à força seus olhos ele pode acordar e ser lembrança viva e aí se eu só esbarrar nela que seja eu vou ficar livre eu sei que vou ficar livre e então eu não vou doer tanto tanto tanto... esses dizeres todos que não fazem muito sentido só servem pra mim mas eu poderia eu tenho certeza que poderia ser uma pessoa melhor se pelo menos nem que pelo menos pra mim mesma. e no meio de tantas vidas e tantas imagens e quadros e fotogramas não sei porque foi aquela a do olho a que me cortou naquele surto. porque hoje eu não estou surtada. sinto que estou muito afastada do que procuro e isso tranquiliza meus pensamentos. a verdade não tem sintaxe. e eu estou mergulhada na mentira do começo-meio-fim. mas eu queria mesmo que aquilo fosse uma metáfora do tipo o olho dele transbordou de amor por mim ou o olho dele desabou de emoção mas não ele disse socorro socorro ele gritou amor por favor pelo amor de deus me ajuda e ele tirou as mãos que cobriam seu olho e aí a desmetáfora a coisa crua a coisa gente escorreu toda pela face e eu só pude olhar para aquele olho não-olho aquele buraco de olho ausente e pensar meu deus meu deus meu deus e depois eu fiz tudo o que tinha pra fazer porque a gente faz o que tem de ser feito mesmo sem saber o que é e eu corri e agora não posso mais dizer o que se passou porque começo a entender que essas coisas nunca nunca se resolvem dentro da gente e já tem tanto tempo e eu ainda sinto tudo de novo e choro com os meus olhos sãos e choro e tudo ficou tão branco todo mundo de branco e eu apertava a camiseta e pensava que se ela permanecesse molhada os médicos podiam tirar o olho líquido dali e moldar enrolar que nem bolinho de chuva massinha colorida de modelar e cobrir com retina eu só pensava que ele não podia ficar cego porque ele não podia ficar cego porque não podia a gente era ainda tão jovem e deus era bom deus era bom não era? porque apesar de tudo eu ainda o amava e apesar de tudo mesmo que era tanto tudo um caminhão de coisas pesadas sobre minhas costas minha cabeça cheia de cocaína traficantes e os fantasmas dos nossos amigos mortos um a um com a boca aberta e o nariz cheio de pó e depois X e Z estuprados  assassinados e eles nem usavam mais e queriam casar e frequentavam o NA e eram tão lindos e jovens e  apaixonados e eu já não aguentava mais cocaina e cocaina e cocaina e mentira e mentira e mentira e traficante na porta da minha casa e clínica clínica clínica e o veneno e ele embaixo da cama e eu sozinha sozinha tentando controlar tudo roxura automutilação escondendo tudo de todo mundo e eu pensava poder dar conta de salvar ele porque o amor salva tudo até os vícios o amor não é sempre o maior dos vícios? puta que o pariu por que não o amor dele? por que o amor pra ele não substituiu aquela merda toda? e eu pensava que ele não podia ficar cego deus por favor eu juro que se o olho dele se regenerar se nascer outro olho se brotar outro olho no meio da cara dele eu vou cuidar eu vou regar com as minhas lágrimas até que fique verde de novo e depois brote uma flor bem linda e cheia de pétalas e nunca nunca mais eu termino com ele e preparo um prato de cocaina no jantar e dou a bunda pro traficante parar de cobrar o cheque sem fundo e a gente vai ser feliz pra sempre até a próxima encarnação até a próxima internação até a próxima recaída até que eu mesma fure os meus olhos com meus próprios dedos e mergulhe numa escuridão abençoada e possa descansar pra eu nunca mais fazer o que eu fiz neste dia porque este dia foi o dia em que eu disse pra ele que tava tudo acabado que a gente tinha de se separar e ele desconversou ele disse não ele disse eu te amo eu vou mudar eu vou parar só você pode me ajudar espera um pouco só só mais seis anos eu preciso de você e ele me trouxe um pêssego o primeiro pêssego do nosso pomar que a gente plantou as sementes e agora já era árvore adulta de dar frutos e eu disse pra ele que ele estava cego eu disse A. você não percebe que está me matando?! A. pelo amor de deus VOCÊ ESTÁ CEGO porque não vê o que esta acontecendo com você comigo com a gente que a gente não tem mais futuro junto que a gente nem tem mais futuro que eu não aguento mais viver assim essa vida que não é minha esse vício que não é meu eu disse pra ele que ele estava cego e aquilo era uma metáfora mas três horas depois já não era mais.


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segunda-feira, 27 de maio de 2013

da pretensão

quero o poema-soluço
arrancado à garganta
da madrugada


.

poeminha à toa

e se um dia eu te encontrar
primeiro
vou meter a mão na tua cara
pá!
puta tapão novela-das-oito

depois
digo: continuo te achando bom
porque uma coisa é uma coisa
         outra coisa é outra coisa

e apesar de escroto
você é bom
é bom... pra caralho

e só.


.

fada

essa fada 
        não tem asa
essa fada
        não tem casa
sintaxe 
        retórica sacra
sabe nada de magia
        só conhece 
o dia-a-dia
         e as coisas 
que é do chão

essa fada
toda iluminada 
é toda empenhada
a fazer o bem 
          usando bem 
          o que me convém

o dom de dedos 
          delicados
a língua de anjos 
          alados
a sua varinha
          e o seu cordão

essa fada...


ah... é safada


.

domingo, 26 de maio de 2013

contrassenso

reincidentes
cometemos
os mesmos crimes


na vida
    &
na poesia


.

das reincidências

reincidentes,
cometemos
os mesmos erros


na vida
    &
na poesia


reincidentes,
cometemos
os mesmos erros


na vida
    &
na poesia


reincidentes,
cometemos
os mesmos erros


na vida
    &
na poesia


reincidentes,




.

sábado, 25 de maio de 2013

doce



a poça no fundo
do poço
esconde
água mansa
calmaria & quietude

nem o raro pescador
suspeita o segredo

escamosa
dourada
reluzente sereia
a mulher-peixe
descansa 
barbatana & guelra

e sonha
delicada isca

nada de anzol:

apenas um caramelo
esperança doce
em águas salgadas


.


.

limão & sal



maçã aberta
         sobre tapete rente
abelha louca lambuzan
         do mel

[te vendo 
à meia-luz 
      te vejo]
tomo teu silêncio
meus lábios vermelhos teus
hálito vaporoso de nêsperas

não me impede
pede

unhas & dentes riscam
cortina e todo babado
o corpo
          ópera longa
me alongo
braços & axilas
líricas
       línguas-poesia
sinuosas
        sonoras
                   bífidas
seios nos seios
brancura injusta 
entre rosas roxas
breve & brusco
despertar 
            ventres
entre espasmos

pasmo
me demoro
                me enrosco

anéis nos dedos
dedos nos anéis

sal & limão nas coxas
mergulho no infinito 
mar de espumas
procuro
      afundo
             avanço 
                     à ostra

e então cobro 
todas as pérolas 

que mereço


.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

aquário



por favor,
não me leve a mal
sobre minha escama
deita tão pouco sal
que desaprendi
o mar 
os barcos
as ilhas 
as linhas

meu nado é lento
irregular & ocioso
nado a superfície
nado de poltronas
só nos deslimites 
do meu papel

mulher-presa
de arpão


.