quarta-feira, 3 de abril de 2013

queima-me


Eu queria escrever uma coisa bonita pra você, mas meu corpo está queimando. Febre. 38º. Estou doente. Minha mãe quer me levar pro PS. Não entendo essa mania de médico se a gente sabe tudo de antemão o que eles vão fazer. Ou seja, nada. Odeio médicos. E a devoção de mãe por eles. Eu to com febre, to doente, tenho de me medicar. Eu sei tudo isso. Mas não vai adiantar nada. Porque essa febre tem nome. O teu nome que guardo como meu mais precioso segredo.
Nunca fico doente. Ainda bem porque não posso tomar remédio. Mas meu corpo sente meus abalos emocionais. E se desestabiliza. É raro eu ter abalos emocionais porque não me envolvo com pessoas. Não a ponto de. Vivo com elas uma intimidade escancarada. Por isso, impossível. Eu as amo. Sofro com suas dores. Mas sou sozinha. De uma solidão que não me dói. Ao contrário. Estou sempre só, mesmo quando junto. Somente eu e agora você, o tempo todo. 
Desde que soube que chegou ao Brasil, tenho sentido essa mornura constante, esses calafrios, esses tremores. Tenho me emocionado e não lido bem com sentimentos. Com os meus, pelo menos. Penso que vou morrer toda vez que sinto esse abrir de asas no peito. Esse inflar de velas. Ou quando um paralelepípedo pesa sobre ele. E, depois desse final de semana, tudo se intensificou. 
Foi nesse final de semana que tive uma febre parecida. Já era noite e eu havia lido várias vezes suas cartas. Meu corpo todo queimava e eu não sabia o que fazer com ele. Eu nunca sei. Nunca soube. E se algum dia, esqueci. Preciso aprender-me. Tomei alguns banhos, mas não passou. Eu suava e meu peito arfava na cama. Sentia dores. Por várias vezes abri e fechei a janela do meu quarto e respirei o ar poluído da paulista. Fumei alguns cigarros tentando imaginar o que meus vizinhos estariam fazendo já que era madrugada de sábado ou de domingo (eu nunca entendi se a madrugada se refere a antes ou a depois). Bem, era madrugada e eu estava sozinha na cama e com febre então tirei a roupa. 
E eu não entendo muito de corpo, mas estava disposta a entender. Quando se está só, às vezes as coisas são mais fáceis. Ou não. Eu nunca desejei alguém com tanta febre. Com tanto ardor. Ou, pelo menos, tão completa e intensamente. E eu te desejo com meu corpo físico e emocional. Se for um vício, não quero curar-me. E tudo é tão intenso e inexplicável. É sim uma tortura, mas.
Eu gosto dos teus olhos, do teu sorriso, do teu nariz é o que mais gosto, sem dúvida. Eu queria desenhar o teu rosto com meus dedos. Cada detalhe. Eu gosto da tua dor. E das palavras. Todas. Do seu silêncio pesado. E também das tuas unhas. Porque tenho tocado-as e sonhado com elas tatuando meu corpo. E gosto também do que nem sei. E é em tudo isso que eu penso quando sinto febre. Quando sou obrigada a tirar a roupa e ler ler ler infinitamente tuas cartas. E eu já não sei o que fazer com essa urgência. Então não faço nada a não ser deixar tudo para amanhã e ficar na cama nua e com febre. E porque o sinto tão incorporado ao corpo que sou, todo, como uma entidade a possui-me, entrego-me a mim e amo-me à exaustão.


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