quinta-feira, 18 de abril de 2013

dos excessos



A vendedora disse que o vestido caiu bem. 
Desses de verão: um pouco rodado, um pouco decotado, um pouco curto, um pouco misturado a ela. Extensões de línguas de fogo colando junto às pernas. Invasão. Eu não gostei. Achei que as flores vermelhas denunciam as feridas tão bem acomodadas debaixo da pele branca. Muito exposta, muito nua, muito real. E, por tudo isso, muito desarmada. Preocupo-me. Acho que ela anda se arriscando demais. Sorrindo demais. Arfando demais. Sonhando demais. E eu a acompanhei no espelho. Vi como olhava pro seu próprio corpo. Olhava como se você a olhasse. Medindo assimetrias, curvas, saliências. Procurando aprovação. A tua provação. Por isso, aquele primeiro descontentamento seguido de um sorriso açucarado. Você no passado, o descontentamento denunciava que sabia. O sorriso, que tinha um coração cheio das artimanhas reflexivas. Então, fugia do meu olhar severo pra se render à lembrança que ainda morava no futuro. Adivinho que pensava como se pareceria aos teus olhos se um dia um encontro. Tocava-se. Olhos fechados, testando a suavidade do tecido pressionado contra a pele. Talvez imaginasse mãos & bocas & línguas de fogo... 
Assim se deixou ficar até que a vendedora, do outro lado, perguntou se o número era mesmo aquele. Era, sim, o número era aquele: do tamanho do mundo. E ela decidiu levar porque ele já estava colado à sua pele, à sua vida, não tinha mais como se livrar daquilo porque aquilo já era ela. 
No final, tive de concordar: ficou bonita, bem bonita, alegre e sensual, como uma promessa. 
Mas nem por isso eu aprovei essa compra.


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2 comentários:

  1. eu aprovei a compra, ficou muito sensual, ate babei um pouco ou muito

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  2. eu aprovei seu comentário, até sorri um pouco
    ou muito...

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