domingo, 14 de abril de 2013

das superstições ao redor do mundo


Estudos recentes sugerem que, em alguns poucos lugares no mundo, não existe a superstição do gato preto. Nesses lugares, onde o “gato preto” não pegou, há uma superstição substituta ainda mais forte: a do café preto. Segundo antropólogos antropofágicos, entre esses povos, enraizou-se a crença de que a chaleira que apita emite um aviso do fim do mundo. Metonimicamente, a imagem estaria associada ao alarme de incêndio e, portanto, ao fogo como a língua do dragão. Soma-se a isso a visão do coador como objeto mágico no processo alquímico de incorporação da substância negra à transparência da água. A espuma e o aroma também fundamentaram a crença, porém essas células míticas estão diluídas no tempo: os mais velhos referem-se à espuma como o emaranhado de teias que prende na escuridão aquele que ousa sorver o líquido; mas uma variação do mesmo tema sugere que o aroma entra pelos orifícios antes mesmo do fluído, apossando-se do corpo do bebedor, transformando-o num morto-vivo. Nota-se que os habitantes mais jovens desses povoados já perderam esses rastros originais, pois apenas esclarecem que não tomam café por medo de serem engolidos pela xícara. Observa-se aí uma clara transferência do conteúdo para o continente, que, dizem os especialistas, provavelmente deslocará o objeto de superstição num prazo de três ou quatro décadas.
O mais interessante – e digno de nota – é a apropriação da bebida nos rituais xamanicos dessas tribos. Os sábios xamãs parecem ter compreendido as propriedades da substância C8H10N4O2, estimulante natural encontrado no café, que mantém as pessoas acordadas. Entende-se, portanto, como o medo da realidade influenciou o repúdio ao café em algumas culturas nas quais os habitantes preferiam ficar adormecidos, enquanto apenas os xamãs consumiam a bebida para, acordados ou em estado de vigília, seja durante o sono ou nos transes, controlarem a realidade. Especula-se, inclusive, se remonta daí a origem da palavra xamã, que significa “aquele que enxerga no escuro”, ou seja, “aquele que enxerga através do líquido negro”.
Foi num pequeno povoado na Indonésia que um xamã, de base populista, difundiu o ritual do café entre o seu povo. Dizia ele que todos deveriam ter acesso ao prazer e a todos os benefícios, a saber, curativos, da bebida, cuja prática divulgava como a de “viver a experiência de uma xícara de café a dois”. Se hoje lemos isso com naturalidade, é importante frisar que a referência ao acompanhante não se tratava de uma questão de socialização, mas, sim, tinha clara intenção de advertência: estando acompanhado no ritual de invocação do café, ambos permaneceriam em estado de alerta contra os maus espíritos que pudessem aparecer e arrastar o acompanhante para a escuridão e, nesta vigília amorosa, ambos estariam protegidos de qualquer perigo, pois um cuidaria do outro.
É por isso que, hoje, no mundo todo, quando as pessoas se gostam, ou se respeitam, ou se preocupam, ou se interessam, ou se admiram, ou um pouquinho de tudo isso, ou muito de tudo isso, as pessoas se reúnem para celebrar o café, o encontro, o outro, a realidade, a ficção e, especialmente, o mestre xamã indonésio que, há milhares de anos, inventou tudo isso para convencer alguém a aceitar um convite para tomar um café, num lugar público e que não oferece risco de morte, ou de vida.


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