quarta-feira, 6 de março de 2013

quintais


Não me surpreende estar de novo aqui, no interior. Sempre volto. Seja pra cá ou pra lá, o retorno é o que me mantém no movimento. Não posso parar. Ou não me permito. (Já não sei o que tenho feito de mim desde que me transformei numa cebola). Minha mãe cheira café e pão. Meu pai, poesia. Minha irmã dói. E a Casa... O que esperar de uma casa com quintais à frente? (Não é preciso falar de amor aqui).

Tudo parece igual, mas me surpreendo por encontrar você no meu quintal. Comendo pitangas da árvore sagrada. Esperando jabuticabas preguiçosas. Cavoucando raízes na terra seca. Não choveu, embora ouça trovejar o silêncio do interior. Embora raios risquem o céu cortando avenidas invisíveis. Quase posso tocar sua presença nublada, mas seu olhar é um convite à distância.

O quintal é meu, mas digo SIM ao estrangeiro. 

E isso também deveria me surpreender: eu não digo sim. Há muito tempo. Pelo menos, desde. Mas eu digo SIM para você, e não me surpreendo, mesmo que não haja pergunta. Digo SIM e sigo-o, porque, caminhando até aqui, descobri que esse é o destino dos meus pés. E enquanto avança comigo pelos lugares que vivi, vou percebendo que, magicamente, você já estava lá: atrás de uma árvore, no recreio da escola, no baile do clube, na greve da faculdade, no happy hour da empresa, na vizinhança dos meus relacionamentos. Eu só não vi.

(Eu digo SIM mas, para nossa segurança, pare antes do portal para a passagem secreta).

A manhã passa lenta. 
Você falou em armadilhas. 
(Eu quase confiei em você). 
Atenção.
Vermelho. 
Perseguição evidente. 
Uma pessoa real não pode estar em toda parte. 
Invasão. 
É óbvio que é pra me machucar. 
Não vou cair. 
Guardar escuros. 

O que você quer de mim? Por que invadiu meus quintais? O que há neles, além de pitangas, jabuticabas por vir e terra infértil, que possa lhe interessar?




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