quarta-feira, 27 de março de 2013

o meu vizinho



Hilda, ainda bem que ficamos aqui na praia. Agora que a chuva passou e o céu negro cai sobre esse amontoado de carne vísceras e ossos, nós duas aqui deitadas nas dunas úmidas desse deserto, me sinto pronta pra vomitar os gerânios entalados na garganta desde... Desde quando Hilda a gente se conhece? Sei lá, desde que os vermes comeram minhas lembranças eu acho... Desde então o tempo imemorial das deslembranças... Ei, vê aquela estrela? Sim, essa única que brilha no horizonte informe... Então, essa estrela brilhante não fala dela. Pra mim ela fala do céu escuro... Pra mim, se sua luz existe, é só pra isso... E eu sou besta demais pra entender, Hilda, porque ninguém mais enxerga o escuro nesse mundo tão iluminado e luminescente de estrelas e holofotes... Lembra quando eu queria furar os olhos e você me disse que cega eu poderia perder o escuro pra sempre? E eu não tava nem aí queria arriscar do mesmo jeito mas aí você disse que eles iam psicanalizar tudo, dizer que édipo-blá e eu ia precisar furar os ouvidos pra suportar tanto mimimi e se furasse os tímpanos como é que eu ia ouvir a orquestra, o sopro e, pior, como é que eu ia ouvir o silêncio?... Por isso eu broxei Hilda, broxei e me rendi e agora sou escrava dessa busca desesperada pelo escuro no meio de tanta luz... Ás vezes eu acho um pontinho de escuro e mergulho nele aí dou duas braçadas e a luz me inunda de novo... A porra da luz o tempo inteiro colonizando tudo... Mas agora, sei lá, aqui na borda, na segurança da sua assombração, eu posso falar... Eu posso falar e eu quero falar do meu vizinho.
Faz pouco que ele se mudou pra cá, mas parece que a vida toda. É, isso, digo nessa vida, porque da outra eu só soube depois... A gente se cruzou no fundo do mar e eu nunca mais pude tirar os olhos dele... É, foi a primeira vez que, você sabe... E você sabe também da minha impaciência com tudo isso... Você lembra, Hilda, quando eu falei lá de literatura-de-corte-e-costura, lembra o que aconteceu? Mas eu queria arriscar tudo mesmo porque não voltei aqui pra dançar com passo marcado... A gente leva tanta vida pra se acostumar com essa vida de corpo... Aí eles vêm e querem te ensinar a dança... A dança, Hilda! Como assim cara pálida? Mas então ele e uma possibilidade. Uma possibilidade de verdade. Mas eu nunca falaria isso pra ele porque ele não se interessa pela verdade e muito menos pelo que eu digo, desde onde eu digo, ou desde onde ele pensa que eu digo... E eu entendo porque a verdade só importa mesmo pra quem vive na mentira... Mais ainda, eu acho que a verdade só existe pra quem vive na mentira, porque a verdade na verdade perde completamente sua razão de ser, então eu entendo quando ele fala das diferentes faces... Talvez que ela sorri pra ele o tempo todo... Só pra quem mentiu e precisa se manter na merda da mentira é que a verdade é tão nítida e urgente e existe como possibilidade de salvação... Mesmo que a verdade do outro. Mas isso de verdade não tem a ver com meu vizinho tem a ver comigo e com a inquisição e o carrasco que me cortei o pescoço em 82, em 2005, 2009, 2015... Mas o que interessa, me interessa, é que o que ele escreve, Hilda, é cheio de verdade. Cheio de sangue, suor, cuspe e baba... Mas tem ainda uma coisa que ele coloca ali, não sei explicar... Uma coisa que é ele. E eu passo mal quando leio e às vezes nem consigo mais trabalhar durante muito tempo porque me iça de algum lugar ou me empurra de vez e é porque tem movimento e força... Eu preciso parar tudo e fumar um cigarro e olhar pela janela sem direção e só sentir... E eu não duvido que se outro alguém empurrasse ele no bueiro e roubasse sua escritura e se apossasse dela feito dono mesmo, faria tudo casca e brilho e nada mais porque ia faltar isso que é ele, isso que é uma história que vem como força e se imprime sem ser palavra... Como se tudo o que ele diz só existisse para mostrar o escuro dele... E então entendo porque até hoje ele resiste... É difícil porque há tanta merda tanta que chega a ser ofensivo se... Não sei... Eu queria esse menino velho pra mim... Não sei o que isso que eu disse agora significa, mas não vou retirar, Hilda, não vou porque nasceu assim e isso não é literatura. Mas sei que euqueriaessemeninovelhopramim não tem nada a ver com posse... Intuo dança, intuo movimento, intuo... Claro, Hildinha, sua puta velha celibata, tem o corpo... E esse nosso corpo cansado só abre os olhos quando plantam palavras nele... E quando as palavras andam ocas e carunchadas, o corpo repousa repousa repousa... Então um dia... Um dia acontece isso e os olhos de todos os poros se abrem...
Hoje eu roubei a carta que ele enviou ao irmão. Você tinha de ver, Hilda, me botou pra chorar por um milhão de anos. Precisei recorrer a você, minha amiga... Talvez ele me desculpe por isso, se não estiver atrasado.  Talvez passe por mim e não me veja, preocupado com o idiota que não o viu. Mas eu não entendo como não ver um ser tão deslocado, tão desviante, tão inconforme... Talvez eu também nunca fale com meu vizinho, Hilda. Pior, talvez eu nunca foda com ele. Nem com a vida dele. Porque era muito isso que eu queria fazer: foder com ele encarando ele nos olhos até aquela casca cicatrizada do buraco do seu peito sangrar, aquele buraco enorme que eu reconheci assim que. Mas, se um dia eu falar com ele, sobre isso ele não precisa saber.


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