sexta-feira, 15 de março de 2013

Ceci n'est pas une pipe



contam que
num lugar distante
                inominável
numa terra despossuída de tempo
havia uma deusa
                inabalável

inabalável e distante
até que uma estranha correspondência
passou a acordá-la pela manhã:

na mesa farta das coisas que come uma deusa
um escrito de apenas três versos consumia sua fome

eram mensagens encantadas
mesmo para ela que conhecia
os segredos e os encantos da Jurema & da Ayauhuasca

e ela ordenou que procurassem o remetente
o estrangeiro que atendia pelo nome mágico de
eu-lírico

hoje sabe-se que o eu-lírico é uma entidade fluida e irresponsável
mas naquele tempo todo eu firmava o que dizia
... era mesmo um tempo outro

então neste tempo outro encontraram o eu-lírico
dono dos haicais ainda sem haicai
e o trouxeram à mesa da deusa

servil e adoradora
ela prostrou-se frente a ele
e pediu a sua palavra feita carne

naquele tempo não havia a retórica  e a deusa desconhecia o que se sabe hoje

deitou-se e abriu-se em livro sobre a mesacama
porque naquele tempo as coisas ainda não haviam se separado em tão distintas funções
e ofereceu ao eu-lírico tudo o que tinha
e o que tinha era a deusa
em si mesma

abriu-se em leque e fechou-o entre pernas & braços & fios finos de cabelo
nua
nus
porque antes havia despido o eu-lírico e lavado ela mesma suas roupas com alfazema e pendurado-as ela mesma no varal para que o sol e o vento e a chuva trabalhassem nelas a verdade

então a deusa convocou a si todas as forças
transubstanciando-se em ave nave neve loba onça serpente pantera chama águia água lava pedra vegetal trepadeira rã raio asa sereia azul cigana estrela
tempestade

com as duas mãos em triângulo saudou Aquil@ sem nome que acima dela ainda
permitia a deusa nela
e tocou o peito do poeta ofertando-lhe com uma mão toda luz e com a outra, escuridão

lambeu-lhe o devaneio
cortou-lhe o raciocínio
habitou-lhe os sonhos
fundiu sua alma a dele

e plantou papoulas sobre tuas feridas enroscando os dedos nos teus cabelos de ouro oferecendo seios à tua boca, cintura à tuas mãos, ombros ao teu peso, pescoço a teus dentes, e o ventre à tua força despindo teus dois nomes fictícios, enrolando em folha de uva e guardando o herdado para responder à hospitalidade desta terra que te recebeu, e te rebatizando agora e para sempre
MEU

e então dentro daquele silêncio mágico
o primeiro corte sagrou-se Diálogo:

“fica comigo”
“isso é literatura”
 “mas se disse que não era...”
“não, eu não disse, foi o eu-lírico”
“mas se estamos nus e o eu-lírico está no varal...”
“ainda assim, dissemos que não era literatura dentro da literatura o que nos torna literatura sobre literatura ”
“mas se te amo”
“nós somos outra coisa”

e encarcerados nessa estranha liberdade, nunca mais puderam voar.

e porque isso foi naquele tempo sem tempo e distante
essa pode ser apenas uma frase de efeito para finalizar uma história sem final
uns dizem que a deusa matou o poeta
outros dizem que o poeta matou a deusa

mas eu não acredito em nenhuma das versões.


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