terça-feira, 5 de março de 2013

a moça do rosto triste


e que direito tenho eu de entristecer?
                                     de chorar?
           [como choro]
                                     de doer?

se o que faço aqui nesses sítios
é interceptar sentidos
seqüestrar imagens
adornar-me de preciosidades
                                      pertencidas

se nada aqui é para mim
que direito tenho eu de sofrer?
                de sentir o vazio de tua ausência?
                               o desprezo por minha carta?
                               a falta de teus olhos sobre mim?

não tenho a ti então não tenho nada

por isso me invento outra
                 [sabendo que sou eu mesma]
                 [sabendo que sou ninguém]
pra justificar esse sentir profundo e verdadeiro

: a moça do rosto triste
que vaga pela cidade
colada aos pés do Poeta
ouvindo sobras da canção
destinada à tua Senhora

: a moça do rosto triste
colado atrás da porta
sonhando a doce poesia do Poeta
sem porto sem dono
sem escritura

: a moça do rosto triste
que sonhou a palavra pétala
e roubou espinhos envenenados
que sonhou uma constelação de rimas
e roubou estrelas de pontas afiadas
que sonhou ricos colares de versos
e roubou duas cobras peçonhentas

certamente merecidas e justas
as lágrimas que ardem no rosto triste
da moça de rosto triste

também por esse crime terá de pagar:

amar verdadeiramente ao Poeta
que deixou de acreditar na Verdade.


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