sábado, 30 de março de 2013

s1


- Com que frequência?
- Com que frequência o que, dr?
- Com que frequência você tem chorado?
- ...
- No banho, no ônibus, no metrô? No caminho pra casa?

Ela o olhou em  silêncio.
E chorou.


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sexta-feira, 29 de março de 2013

invasão



não sei quando tuas águas
invadiram as minhas

olho em volta
não há margens

tudo é nós


.

museu do futuro



não é turismo
                é arqueologia

não é a lituânia
                é Vilnius

não é a catedral
                é o museu

não é obsessão
                é necessidade

como dizer a mudez ao segurança desconfiado?

sim sim é sobre ele
sim sim também sobre mim
sim sim sim é sobre os nós

entenda senhor terei de voltar 333x3 vezes esse ano
sim manhã tarde e noite é uma pesquisa entende pesquisa? pes-qui-sa tenho a carteirinha não não eu não preciso de luzes acesas eu não quero as luzes acesas não eu não vou tirar fotografias olha pega esse dinheiro e toma um café sim sim eu juro por todos os mortos não vou tocar sim só vou tocar com as luvas sim são luvas de boxe por que? não pode? como não? entenda eu gosto de luvas de boxe e estão tão gastas já não agridem não não machucam sim sim eu puxa nem tinha reparado desculpa são vermelhas sim é a cor natural quer dizer não eu eu tentei limpar a vida toda mas não sei o que fazer com esse sangue nossa verdade? simples assim? sabão e água? nossa e eu até hoje colocando uma luva em cima de outra luva em cima de outra luva em cima da outras porque as luvas de hoje são muito porosas obrigada obrigada toma então o dinheiro obrigada obrigada por favor por favor por favor por favor
por favor me deixe só

me deixe só com a história
e eu prometo não levar nada
e eu prometo não tirar nada do lugar
e eu prometo não chorar sobre a superfície lustrosa dessas peças imemoriais
e eu prometo manter o segredo
eu prometo

1. anotações arqueológicas:
enigma criptografia informação genética subterrâneo colheita campos de trigo campos de refugiados de extermínio girassol genocida corpo fraturado asfalto pedaços gente helicópteros despedaçados fogo rebobina rebobina fogo despedaçados helicópteros gente pedaços asfalto fraturado corpo genocida girrasol meu avó sofri RG carimbo sorriso branco palavras indecifráveis códigos amor & cicatrizes vô cadê aquela carta? vô cadê seu capacete de astronauta? vô por que fala com os olhos? vô por que não me guardou aí dentro por toda a vida? por que vô? por que? por que você não fala comigo? vou?

2. arquivos:
poema música relógio cidade poesia fumaça cigarro lanterna piano piano piano floresta rainha solidão flugelhorn eco lobo não não não trem tubarão veneno tempestade haicai fotografia serpente deusa lua dança fogo drogas verdade não-verdade erva saxofone amor-não amor-não amor-não dança arquivos pedaços papel manuscritos lupa traços ensaios fotografia imagem desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo ódio desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo amizade desejo desejo desejo desejo ternura desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo desejo segurança desejo desejo desejo desejo confiança desejo confiança confiançadesejoconfiança

nudez
sem luvas
sem gazes
sem unhas
sem pele
sem sangue
sem ossos
sem mão
sem não

uma ideia líquida
                     de algodão

estou em Vilnius
Vilnius Vílnius Vilna localiza-se no coração da Lituânia
é conhecido como “Jerusalém da Lituânia”

estou em um museu do futuro




estou em casa.



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estrela no mar

até os sete meu avô era astronauta
guardado com orgulho na fotografia embaçada do tempo

depois ele virou escafandrista
palavra difícil pra quem tem oito e uma única fotografia pra mostrar

então continuou meu astronauta

estranho avonauta que fazia pontes
                                 como se verso comprido unindo uma estrela a outra
estrela

perdida no tempo


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prece à rainha




pincéis de índio cor de laranja
tremoços azuis e lobélias roxas
dente-de-leão e cardamomos
copo-de-leite e taças de vinho
incendeiem o caminho da rainha

que desde muito alto
lambendo apenas as coisas da terra
vestindo sua verdura imponente
lustrosa e mexicana
derrama-se a Samambaia do outono

amantíssima de Frida Kahlo
antiqüíssima mãe de todas as plantas
eternidade arborescente de Oaxaca

abençoa, rainha, a Floresta com
seu escandaloso recato
suas frondes luxuriantes
seus múltiplos corações & búzios

abençoa-nos com sua misteriosa magia
e seu segredo criptogâmico


da invisibilidade


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quinta-feira, 28 de março de 2013

o seu olhar melhora o meu




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a messe



sob o sol
o asfalto

sob o asfalto
a terra

sob a terra
a pele

sob a pele
o algodão

sob o algodão
a água

[a professora enrolava a semente em algodão e água
sete dias depois, brotavam sorrisos na sala
trinta e dois pés de feijão mais um
devir de girassol]

toda colheita começa no
subterrâneo


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