quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

spielberg




Eu era só uma criança só quando Spielberg me ensinou o medo do tubarão.
A verdade inconfessável - até agora - é que nunca tive coragem de encará-lo: nas poucas vezes em que aparecia, cobria a cabeça com o manto da infância. Ouvia os gritos na sala, mas tudo o que via era o escuro. O tubarão era meu escuro.
Quando tudo aquietava, saía de baixo das cobertas e, presa a respiração, acompanhava as cenas em que sua presença era só uma sugestão, uma cor, um aroma, um tremer de águas, um pressentir de morte. Uma ausência persistente que preenchia todos os instantes com o risco.
Eu cresci e, só, deixei de ser criança. Mas o tubarão se manteve o mesmo pra mim: iminente. Desde aí o frio na espinha, a boca seca, o coração acelerado, a respiração cortada, as mãos geladas, o vazio no estômago; Desde aí esses mergulhos paralíticos, esse sonho de funduras, esse palmilhar margens, essa garantia de terra. Esse amor pela metade.
Mas eu adivinhava – porque tenho sangue de adivinhos – um dia o tubarão. O tubarão no dia em que estivesse distraída com pequenos corais e peixes palhaço. E ele veio. E, mesmo adultecida, senti tudo aquilo de novo.
Senti medo, mas agora um medo diferente, medo encorajado do risco. Talvez porque o acaso, ou o inesperado, ou qualquer outro nome para o inexplicável, tenha me obrigado a olhar teus olhos – olhos verdes de tubarão – e o que vi foi teu imenso amor espreitando a humanidade.
Não sei o que isso significa. Não conheço o amor dos tubarões. E, por mais que queira, não posso adivinhar. Intuo apenas: sua ronda, sua vigilância que assalta minha respiração, desestabiliza minha conduta antes tão respeitosa. Mas não tenho alternativa: não me cabe mais o manto de antes. Cresci e meu peso é o de um piano de cauda. 
Por isso, mergulho e abandono-me ao mar para um encontro de dentes.


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