sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

sob forte tempestade



Hilda, me leva pra praia. Me leva pra praia agora. Pra eu deitar minha cabeça no teu colo e olhar a linha invisível onde copulam o alto e o baixo. Duas irmãs siamesmas. Um unicórnio ao longe se confunde com a espuma branca das ondas. Quero contar em silêncio sobre. Não importa que meus lábios estejam fechados. Não me importa que teus olhos bêbados e tristes não me vejam. Quero apenas deitar a cabeça no teu colo e te contar o silêncio. O espanto. O espasmo. Do coração e dessas outras máquinas que movem a gente por dentro. Que regulam os fluxos. Que. Já são seis horas da manhã, e eu sei, não há ninguém aqui além de nós. Nem o sol que a tarde promete chuva. E eu queria te falar de como vi, pela primeira vez, a cidade. Tu sabes, irmã, que não tenho o hábito de sair disso de mim, que escalo ao revés todo dia um pouco por essa corda espiralada até um dia o escuro, para além do breu, para além do negro, em busca daquele outro que, aqui, pra mim, tem o nome de perdão. Me acompanha no aqui, por aqui, nessa praia onde meus olhos descansam e consigo ordenar a visão, o tudo-de-uma-vez que me aconteceu quando desobedeci ao chamado de mim e fui ao encontro dele. Não me dei conta do perigo. Primeiro só o barulho insistente de roldanas, depois a água escura tremeluzindo, por fim 300 dentes afiados no meu caminho me obrigaram a olhar pra cima. Meus braços atrofiados não conseguiam eriçar meu peso pela corda, então usei os dentes e fui comendo altitudes, às vezes apoiando-me no musgo das paredes circulares desse poço. E quanto mais difícil a escalada, mais o medo tomou gosto de risco. Subi ao topo, cega de um clarão sem igual. Então o vi. O vi ereto na borda do poço, arriscando-se também ele. Segurava a roldana e eu pressentia chamamento & fúria & doçura & desejo &. E me esgueirei por sobre ele, serpente traidora de si mesma, enrolei-me toda naquele outro num continnum de espirais prendendo seu corpo ao meu. E apertei-o com braços e pernas. E colei minha língua a dele. E colei meus olhos aos dele – aos teus – e duas vezes vi. Vi a cidade, as ruas, os ônibus, os moleques embriagados, os gatos, a fumaça, a buzina, o ruído, o ruído. Eu vi o ruído. A lua. As estrelas. Do ontem aé o futuro. Deus. Vi deus. E ele dirigia toda história numa única cena diante dos meus olhos cegos. Agora eu preciso descer, descolar meus olhos dos dele. Desgrudar ventosas, desfazer o amor metido entre minhas pernas. Mas não há mais corda. Só um passo e o abismo. O escuro. Eu sei, Hilda. Ele não vai pular comigo. Nos seus olhos não cabem tanto abismo, tanto escuro, o corpo desmembrado, o sangue, o carro, a explosão, o sangue, papéis, o sangue, a boneca, a criança, o escuro. A morte. A morte. A janela. O parapeito da janela. O sexo trancado. O poço. Eu não quero deixar a cidade, mas não quero turvar tua visão. Fica comigo mais um pouco, Hilda. Duas irmãs siamesmas. Um unicórnio ao longe. Espumas brancas. Vou deitar a cabeça no teu colo de areia. Esticar meu corpo sobre as dunas. Esperar que esse girassol se abra todo sobre meu ventre povoado de abelhas. Até que os pingos grossos da chuva se transformem na tempestade e me empurrem. Para o mar.




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