terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

pra dentro


Eu não sei o que estou fazendo aqui. 
Não entendo esse repentino pudor do verso, antes tão livre, antes tão branco, tão exposto... Pudor da voz que agora soa por entre mãos em concha. (como se me segredasse toda ao escuro). Ao seu escuro.
Não entendo esse desejo adolescente de me dirigir somente a um leitor no estreito espaço dessa intimidade impossível. Um leitor que, talvez, seja eu mesma disfarçada de você que, misteriosamente, atravessou com uma única palavra a minha vida. Turvou minha visão e agora aparece em rostos com os quais cruzo na rua, no balcão de um bar pela madrugada, nas páginas da internet e – esse você é o que mais procuro – no horizonte.
Tudo bem que o horizonte visto da minha janela é o outro lado da rua limitado pelo cinza dos prédios. É neste horizonte que, através da cortina de fumaça do cigarro – do meu cigarro – você me surpreende: olhos que atravessam a lente dos óculos e chegam até mim, ombros apoiados na janela. Você não é de verdade, talvez por isso brilhe mais do que as luzes do Itaú, agora só um pouco acima da sua cabeça. Mãos nos bolsos, você sorri e parece uma fotografia, dessas que dizem muito mais do que a imagem. Uma fotografia que é, antes de tudo, tentativa de comunicar uma obsessão à qual ninguém tem acesso.
Não tem nada de mentira aqui, ao contrário, sei que nisso tudo tem muito de verdade. E de espera. E de sussurro. E mais espera... Claro que tudo aqui é inventado, é verdade, mas porque sempre fui dada à invenções. Porém, a diferença é que sempre sempre inventei pra fora.

Essa é a primeira vez que invento pra dentro e não tenho a mínima ideia de como terminar isso



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