terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

atacama



dizem os atacamenhos que tanto sal já foi chuva
lágrimas da deusa Sarasvati
filha-esposa de Brahma
ao vê-lo comer peyote
e dançar com Lakshmi
dentro de um botão de lótus
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Sarasvati chorou suas nuvens todas
sobre todas as coisas
inundando o império de Gilgamesh
e até Lhotse, a escada de pedra,
derreteu com a investida forte
das águas

Sarasvati tornou-se ela mesma neblina
evaporando-se em pensamento
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
no alto do azul
o deus girassol floriu gigante
seu exército de abelhas
e queimou tudo

então as águas secaram
e tudo morreu sobre a superfície da terra
os trovões anunciavam o frio
descargas elétricas abriam crateras na lua
no chão pequenos répteis mumificados
e a carcaça de um tubarão dourava ao sol
afiando seus dentes para o Ragnarok
*
se houvesse ouvido se ouviria
uivos de um lobo invisível numa montanha gelada do himalaia
mas nada
só o silêncio 
e duas notas graves tocadas no piano branco

atrás do muro gelado de cactos
a sobrevivente escrevia a sua história
a história de uma história mais bonita do que essa

escrevia sua história numa carta de amor
enviada sem palavras 
ao moço que mora no espelho de aço
porque a moça
não sabia escrever
não mais

porque agora só se encantava do que lia
enrolando-se toda nua nos fios dos versos que possuía 
como se seus fossem
girando girando num balé de algodão e rima
então sorria e repetia uma prece feita de um só nome
a t a c a m a
    a t a c a m a
        a t a c a m a
            a t a c a m a

cacos colados que mesmo misturados
faziam todo o sentido
porque essa era a sua história
a história do seu amor inventado
o único amor verdadeiro que conhecia

sentia dores reais
e sorria um sorriso real quando estava na janela
tudo era de verdade

é a verdade

continuaria escrevendo
mesmo que ele nem soubesse que ela só para ele escrevia
continuaria escrevendo
e o amando em segredo
até que a greve terminasse e as portas dos correios fossem abertas novamente.


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