quinta-feira, 9 de maio de 2019

fotografia



esse são os meus pés. eles são os construtores do meu caminho. estão envoltos na lavanda que desacelara a ansiedade. uma vez num reino distante fizeram uma música para meus pés dançarem. ela falava sobre o amor... e sobre as linhas da vida desenhadas nos calcanhares. era uma música linda que ainda ecoa nos meus ouvidos. as músicas são aladas e sobrevoam o tempo. as palavras de amor se perderam. mas a melodia conhece a arte labiríntica. difícil esquecer. mesmo que puxem meus tapetes, ou tentem decepar meus pés, ou apagar os rastros do meu caminho. é aí que eu mais me lembro. e danço. mergulho na lavanda. sorrio o sorriso dos pés mais lindos. porque meus pés são livres. eles podem fazer e refazer os meus caminhos. não esses, da fotografia. esses, vivos, que daqui já foram...


.

seguidores

não puder seguir / o enterro
da minha tia

cortaram minhas pernas
na altura dos joelhos e
enxertaram duas canelas e
pés / de plástico
de uma boneca antiga
abandonada numa banheira
velha
entupida de cabelos e
cascalhos
uma boneca estrela
inspirada numa pessoa
que virou uma página
do google ou um perfil
de rede social
com fotos sepultadas
procurada / vezenquando
pra lembrar uma foda
um carinho
um desejo necrófilo
guardado
no tempo
3x4 do retrato

ela nem sabe que eu existo
nem ele
provavelmente
então seguimos todos: ele
stalkeando
ela / com suas pernas de
pouco mais de vinte
centímentros
que entraram por uma fenda
aberta
por um olho de genipapo
feito pela outra
dos pés horríveis e unhas
encravadas

os demais seguem o cortejo
tênis sapatos sandálias e
bengalas
pisam
poças

só eu e minha tia não
caminhamos
ela segue no caixão
aérea etérea
eu
paralítica
não
consigo tirar os olhos
das unhas vermelhas
nos pés inertes
de plástico
acomodados à cadeira
de rodas
que era dela


.





quinta-feira, 25 de abril de 2019

desaba

a noite desaba
sobre a boca
aberta
desaba
a noite
da boca
dissolve-se
fragmentos
de escuro
fincam-se
nos caninos
roxuras
sob a pele
da noite
uma porção
de sonhos
flutuo
o peso
da noite
comove
olhos
sempre
abertos
nos teus
fechados


.

sete saias

ela toda pomba
não pede pra entrar
limpa os sapatos
na tua sordidez,
gira a chave, a-
porta no terreiro

ela tem pés
e

você vai dançar
.

sacrifício

depositei minha voz sobre seus pés
como um sacrifício

descasquei o vermelho das unhas
deixei a água correr entre os vãos
fiz a leitura dos seus calcanhares
e havia um sol
em câncer escorrendo pelo ralo

eu devia ter dito que a banheira
é antiga e o encanamento
enferrujado

você não teria pisado aí e conta-
minado para sempre a minha
história

eu devia ter cortado os teus pés
e depositado
sobre minha voz uma oferenda
ou sacrifício
.

terça-feira, 16 de abril de 2019

a mulher [que trai]

a mulher [que trai]
[não] levanta
a saia
[a sobrancelha,
o canto esquerdo
da boca,
suspeitas]
a mulher [que trai]
[não] tira
a roupa
[fotos]
[não] apaga
as luzes
[as mensagens]
a mulher [que trai]
[não] presta
atenção
[aos detalhes]
a mulher [que trai]
[não] guarda
aguarda
[souvenirs]
a mulher [que trai]
[não] troca
carícias
[os lençóis]

a mulher [que trai]
[não] escreve
poemas
[sobre traição]
e diz que é só literatura

[isso é só literatura]

a mulher [que trai]
vem
há milênios
paciente-
[mente]
aprendendo [a trair]
com o seu homem
.
.
.