sexta-feira, 15 de junho de 2018

alheios

amputaram meus pés e
enxertaram pés alheios
no meu caminho

amputaram o meu cami-
nho

e ele
lateja as pedras, a terra,
as sementes, as raízes,
o húmus
e a água
vertendo das encruz-
ilhadas as minhas
mãos não se dobram
sozinhas


amputaram os meus pés
e exertaram
nele
outros
caminhos

quarta-feira, 13 de junho de 2018

iroko

meus ossos eu quebrei nas esquinas
do tempo
tão pouco
tempo pra tanta repetição: duas, três,
quatro são quase oito e meia e nessa
máquina da vida sou
uma operária
do assombro

molusco-me
corpo de arruda delicada verdura olhos
vidrados
de romã

corpo molhado na mornura dos chás
folhas de coca
limão, tintura de açafrão e não! não
me deixa
na infusão
porque há princípios que não podem
ser extraídos

enconcho-me
morar dentro
fazer limite com as ondas sonoras
o barulho da
casa marulha o eco das paredes

forro o vão: a distância entre carne
e couraça: com as palhas de omolu
espalho-me pelo caminho: fósseis
do que um dia teus pés
riem dos meus
moles são as trilhas deixadas sob
cascas & caracóis

meu nome é uma palavra
e ainda dói


.

arruda

eu dei um nó na língua e o poema
não quer sair
então forço:
esse terreiro não é o meu terreiro

há cochonilha nas minhas articul-
ações tão pre-
visível atuas
queimando incensos nos lençóis
cuspindo rezas
pro céu da boca
dessa minha noite que começou
pela manhã
e já são 6 e
meia chávena de chá de canela
cáscara sagrada
copaíba e alecrim
oxalá desguarde esse broto, re-
bento que quer
ser história, só
que o tempo da história já pas-
sene jurubeba
mexe ruibarbo
salsaparrilha agarra na mão de
nanã, nanane-
nem rima nem
poesia: os sapatos estão sujos
de tanta sordidez

eu levanto sete saias e o poema
não desce
gira e m'espia

trovoa a banheira: meu banho
de assento
esfriou: já é dia e a noite nem
rima ou poesia
acabou:

'arruda rainha
seca
sozinha


.

terça-feira, 5 de junho de 2018

segunda-feira, 4 de junho de 2018

passarinhar

ouvi a palavra passarinhar
e invento que estou feliz

há pão e margarina pro café d'
amanhã fará 7 graus a menos
e (não importa a temperatura
hoje) isso me parece frio

ouvi a palavra no teu poema
e as asas que não tenho
reclamaram de pouco espaço
entre as mangas da camisa
e as sementes do maracujá
doce que azeda nos fundos
da calcinha

ouvi a palavra passarinha
e minhas penas se recolheram
para dentro do sorriso

como previsto hoje
o dia está bem frio

mas passarinhemos
enquanto há tempo



.

sobre a carne que não me come

sobre a carne que não me come
mais
eu digo é carne e é acordado
que se morre
dormindo

talvez eu seja mesmo essa que
essa que
essa que não sou

talvez eu seja um rabo de baleia
e nada mais

o que pode um rabo e o seu nada
mais?

não há unhas
não há vermelhos
não há desejo

um rabo de baleia fincado
no meio do deserto
onde um dia houve
um pé de couve e
a brevidade d'um oasis
de papel


.

pemba

fizeram uma festa e não me convidaram
fizeram uma festa e não me convidaram
fizeram uma festa e não me convidaram
fizeram uma festa
fizeram


1. é com as pontas dos dedos que se toca
a morte, viva e
vermelha a morte
que pulsa na minha vida

2. ele disse que estava amando quando
roubei a sua vida

3. dela, roubaram-me a morte

4. luto
contra os souvenirs de uma traição

5. uma flecha
e o seu avesso

6. o jaguar pergunta à caça por qual
fenda ela lhe entrou enquanto chupa
o sangue das suas unhas


fizeram uma festa e não me convidaram
fizeram uma festa e não me convidaram
fizeram uma festa e


7. pés, patas e cascos
de um bisonte dançam sobre a terra
molhada do sal, oferenda que era
pra ela

8. chutaram a minha macumba
pelas costas

9. a mentira dá um nó
na língua
os encantados não podem
falar

10. 'o que ainda falta para você
me deixar' perguntou o jaguar
à pele que o cobria

11. as serpentes largam
suas peles na encruzilhada


fizeram uma festa e não me convidaram
fizeram uma festa e não me convidaram
fizeram uma festa e


12. violada a vida
só faltava profanar
o corpo
da morte


fizeram uma festa e


13. uma asa de frango
congelada
não consegue voar