quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

retrato de mulher

"não entende de parafusos
mas constrói uma ponte"
[Wislawa Szymborska]


eu sou aquela que mete
o pé, não está nem aí,
[nem aqui]
chuta o pau
da barraca
sou aquela que tem medo
de amar
que vence os obstáculos
da vida, eu sou aquela
que o sofrimento é visível
e reflete no espelho
eu sou aquela que reflete
que reflete
no espelho
e brilha
alegre ou feliz, in-
teligent
mulher
eu vida
eu família
eu positivo
no ali
quero eu feliz
vida
sou aquela que ri
e chora
que não gosta
de chorar, ninguém
nunca me viu
chorar
[superei]
eu sou aquela que tem
inquietudes e aglutina
gente
eu sou toda
gente
a gente
"para o bem, para o mal
e para o que der e vier"
ninguém vem, ninguém
[veio, você veio
e me trouxe um livro
um cigarro
a promessa de
um sorriso e uma lágrima]
eu sou aquela que reflete
no espelho
reflete, reflete, reflete
semblante contagiante
iluminada, viva dentro
de mim mesma, sou
as vigas de sustentação
eu sou aquela que reflete
e reflete
no vazio
no espelho vazio
sentimentos desencontrados
no absurdo
da vida
eu sou maria, maria
aparecida
brasileira
hungara
americana
índia africana, eu sou
aquela que perdeu
os cabelos, não
tem cabelos
revoltos
e gosta
de seus revoltos cabelos
grisalhos
de tempo
sou aquela que fui e sereia
mulher da vida
hoje serva
do senhor
do Senhor
da senhora
sim, senhora
sou aquela sem hora, essa
senhora
de mim


[poema de autoria mista: exercício de criação realizado com mulheres da Penitenciária Feminina do Butantan... toda minha gratidão por poder reunir essas vozes nesse encontro de espelhos]

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

tecnorixá

no sistema internacional de unidade, a velocidade
é o metro por segundo
ao quadrado
e circulares são as hélices como leques místicos
no meu peito
filtrando axé
da boca por detrás das grades dos dentes
mora yami oxorongá e "se levanta pra não cair"
porque a gravidade pode alterar a equação
de torricelli
(e ele tinha vinte e dois mas idade não entra
na fórmula de ofurufu)
tempestade de areia arrancando olhos
hotspot no meio da testa: conectudo
conectanto
iansã e o machado elétrico de xangô
no meio das pernas, curto-
circuito de fórmula 1
a justiça é falha porque perdeu 300 parafusos
na guerra com o destino
"Destino", que nome é esse? se no lugar da mão
empunho o isqueiro
eu queria beber água, mas só há
cinzas

por que o futuro é um automóvel em alta velocidade
na direção contrária

é preciso se equipar

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

linha

apura o ouvido
ouça o trem, não
não há trem
apenas a linha
..........................
e o corpo
exaurido
..........................
anexo ao poema
um verso, não
não escrito
apenas reverso
eco de um
..........................
gemido
..........................
não (apura)
ouvido



.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

cascata

eu não quero o teu dinheiro

enfeita com ele a tua morte
faz uma cascata pra cobrir esse teu corpo
de frango
pelado e branco
cobre com ele tua barriga flácida
teu pinto quase nada
um roxo de mínima doença aquelas taturanas de fogo brotando das
coxas
das minhas coxas que nunca mais
jardim só quintal terreiro arenoso
tua baba branca tua barba branca
regando as garras de uma roseira
toda tronco
sem o álibi
da efemiridade da infância que
nunca tarda a envelhecer

fica com teu dinheiro velho
com tua velhice
de sapo murcho
boca sem língua
haste sem babosa

aloevera é um nome bonito para uma seiva perigosa que pode até
matar

e se você não estivesse morto eu te mataria
com minhas botas de montaria essas mesmas de cano alto apertada
na garganta
eu to muito bem obrigada agora com todos
esses alfinetes espetados à coluna serviçal

são duzentos cruzeiros cruzados os dedos sobre o papel sob a caixa
e o caixão e leva contigo essa história
enterrada na cova do dente de leite que um dia foi mas hoje é só mais
uma história de criação
as pessoas se divertem
eu não


.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

cascos

teus cascos
sobre
minha boca
e um ponto
final
adianta-se
no meio
da frase que
nunca
terminou.


.

pineal

desloco a pineal
com as pontas
dos dedos
leio em braile
teus dentes
falam da fome
de uma barriga
cheia


.