segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

marcela

somos todos poemas
uns quase
perfeitos
outros perfeitamente
imperfeitos
equilibrando rimas
pobres
ou ricas

poemas
inconformados
com nossas próprias
desmedidas
lutando pra fazer
sentido
pra fazer sentir
pra deixar

de sentir

[aprisionados
mesmo quando
versos
livres]

somos todos poemas
carregando o mundo
nas costas

e um desespero
camuflado nas entre-
linhas
de um trem
desgovernado

somos todos pequenos
poemas
em busca de um pequenino
leitor
atento

somos todos poemas
que um dia
explodem
e viram pó

poesia
.
.
.
[para Marcela, poeta; hoje, poesia]


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

consequências

quando se tem uma cachorrinha é preciso prestar
atenção se ela está sendo comida
por pulgas
se ela está comendo
plástico
[é preciso arrancar o plástico da boca
dela ela é só
uma cadela]

com o ser humano não é preciso
cuidado se ela está sendo comida
por bichos pequenos que saltam
aos olhos
quase invisíveis
os humanos podem cuidar de si
os humanos sabem que
pedaços de plástico
são prejudiciais à saúde
podem até matar
os humanos
ou pior
sufocar

[porque os humanos não morrem]

quando se tem uma cachorrinha
é preciso cuidar do seu corpo
e deixar as armas escondidas
em cima dos armários
ou dentro das gavetas

quando se tem um humano
nada é preciso
eles se bastam
e medem o perigo

como o alcoólatra
serenando no sofá
enquanto a garrafa de gim
repousa
serena ela também
sobre a mesa


.



terça-feira, 21 de agosto de 2018

maldita

voltava da fisioterapia quando uma mulher perguntou se podia pagar um prato de comida e eu tava indo pra casa preparar o almoço porque tô tentando cozinhar ao invés de gastar nos restaurantes da paulista então a mulher me aparece no meio de um pensamento sobre abóbora e repolho e eu disse não e continuei andando com a mesma pressa dos dias sem nem olhá-la direito e ela já por detrás de mim disse

maldita

foram alguns segundos mas acho que muitos para que essa palavra chegasse até mim como que vinda de muito longe e se alojasse no meu ombro. maldita ela disse e era pra mim então eu olhei para trás meio sem acreditar mas já sabendo que sim era pra mim e então senti uma vontade muito grande de gritar maldita é você mas não maior do que a vontade de correr atrás dela e voar em cima do seu pescoço e dar na cara dela e dizer quem é você para me amaldiçoar sua

maldita

mas só continuei caminhando caminhando com a palavra crescendo e subindo pelo meu pescoço agarrando-se trepadeira à minha cabeça e eu fui ficando com muita raiva e pensei que sim eu poderia pagar o prato de comida pra ela e também pra família dela se ela tivesse uma família mas eu disse não e quem é ela pra colar em mim essa palavra e eu queria quebrar os dentes dela e também arrancar sua língua como se fazia às bruxas então entrei naquele restaurante e coloquei mais comida do que normalmente como no meu prato e era bistequinha de porco feijoada arroz integral quiche de alho poró que comi feliz pensando em como uma maldição nos salva de nós mesmos e que queria escrever isso no facebook mas tão logo eu ia elaborando essa experiência ela já começava a ganhar ares de literatura e todos iriam pensar porque sou eu geruza que escrevo que isso é poesia então diriam que lindo e amei e tudo isso iria me dar enjoos porque não sei se aguento mais a vida precisar de ser vista através da ficção ou se porque essa palavra

maldita

está me pesando no corpo e a comida que pus no prato comi-a toda apesar de ser muito mais do que gostaria de ter comido mas me encanta estar comendo tão bem e ela lá mendigando um pedaço de pão amaldiçoando todos aqueles que saem das suas sessões de fisioterapia e similares e podem comer e merecem comer aquilo que bem entenderem e eu não sei se devo escrever isso no facebook porque essa mulher que não está nem aí para aquela outra também sou eu e não há culpa ou remorso por ela estar lá suja e passando fome pelo menos não hoje agora enquanto como a bistequinha e penso que os ossos sempre pesam mais do que a carne na balança e nem bem a palavra

maldita 

volta a me apertar a cintura penso que quanto mais elaboro essa experiência mais ela vai crescendo em extensão e tomando ares de texto e se parecendo à literatura e eu só queria ser eu mesma mas se eu disser que estou pouco me fodendo com essa mulher que me chamou

maldita

serei duramente criticada pelos meus amigos e tomara que eu seja mesmo e que eles de uma vez por todas desfaçam a amizade que não temos no facebook e que só restem aqueles poucos amaldiçoados que entendem que uma pessoa pode um dia querer quebrar os dentes de outra por causa de uma palavra lançada sem que por isso precise se sentir culpada e envergonhada como se tivesse matado uma pessoa na estrada ou cagado na calça durante uma diarréia

maldita

também a sensação de embrulho agora que volto pra casa uma tristeza nenhuma culpa somente um mal-estar sem tamanho não sei se porque me lembrei que no domingo almocei no ráscal ou se porque a dona do restaurante não arredondou a conta mendigando centavos ou se porque estou com os dois pés feridos e perdi o chão e perdi o equilíbrio ou se porque essa noite sonhei que era criança e queria chupar o pau daquele que foi meu abusador ou se porque entreguei um segredo delicada flor de lótus a ouvidos que não poderiam ouvi-lo ou se nada disso apenas um sentimento que antecede a euforia de saber que o que quero muito é que essa mulher

maldita

não coma mais nada o dia inteiro




sexta-feira, 15 de junho de 2018

alheios

amputaram meus pés e
enxertaram pés alheios
no meu caminho

amputaram o meu cami-
nho

e ele
lateja as pedras, a terra,
as sementes, as raízes,
o húmus
e a água
vertendo das encruz-
ilhadas as minhas
mãos não se dobram
sozinhas


amputaram os meus pés
e exertaram
nele
outros
caminhos

quarta-feira, 13 de junho de 2018

iroko

meus ossos eu quebrei nas esquinas
do tempo
tão pouco
tempo pra tanta repetição: duas, três,
quatro são quase oito e meia e nessa
máquina da vida sou
uma operária
do assombro

molusco-me
corpo de arruda delicada verdura olhos
vidrados
de romã

corpo molhado na mornura dos chás
folhas de coca
limão, tintura de açafrão e não! não
me deixa
na infusão
porque há princípios que não podem
ser extraídos

enconcho-me
morar dentro
fazer limite com as ondas sonoras
o barulho da
casa marulha o eco das paredes

forro o vão: a distância entre carne
e couraça: com as palhas de omolu
espalho-me pelo caminho: fósseis
do que um dia teus pés
riem dos meus
moles são as trilhas deixadas sob
cascas & caracóis

meu nome é uma palavra
e ainda dói


.